BNDES credencia sete fornecedoras para leilão de baterias; BYD, Weg e Moura estão na lista

UCB Power e Jinko ESS assinaram no fim de agosto um memorando para avaliar a industrialização de sistemas de armazenamento no Brasil, mas ainda não aparecem entre os fornecedores credenciados pelo BNDES

Fachada do edifício sede do BNDES com letreiro da instituição em destaque no Rio de Janeiro.
Foto: BNDES

A corrida para o primeiro leilão brasileiro de reserva de capacidade com baterias já começou a separar quem está mais perto de atender às regras de conteúdo nacional. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) credenciou sete empresas como fornecedoras de sistemas de armazenamento de energia, os chamados SAEs: as brasileiras WEG, Moura e You.On e as chinesas TBEA, Gotion, Trina e BYD. O passo é importante, mas ainda não garante lugar definitivo na disputa marcada para 2 de dezembro.

Isso porque o banco analisa empresa e equipamento em etapas diferentes. Primeiro, verifica se a companhia pode atuar como fabricante ou empresa de engenharia. Só depois entra o sistema que ela pretende oferecer ao mercado. Até agora, nenhum SAE completo concluiu essa segunda análise e foi considerado apto a cumprir as exigências de conteúdo local do Produto Potência Armazenamento 2028 A.

Na prática, estar entre as sete credenciadas significa que essas empresas já podem submeter seus sistemas ao BNDES, mas não que seus equipamentos sejam automaticamente considerados nacionais. Cada solução terá de passar por avaliação própria. O banco informou ainda que há outras empresas desenvolvendo produtos para tentar entrar nesse grupo, mas não divulga processos enquanto eles estão em análise. Quando os primeiros SAEs forem aprovados, os sistemas deverão aparecer no portal do LRCap.

O procedimento passa pelo CFI, Sistema de Credenciamento de Fornecedores Informatizado, plataforma usada pelo BNDES para cadastrar empresas e produtos submetidos às regras do Finame. Normalmente, esse mecanismo serve de referência para financiamento de máquinas e equipamentos. No leilão de baterias, porém, ganhou uma função maior: o Ministério de Minas e Energia adotou os critérios do banco para determinar quais sistemas poderão ser tratados como nacionais no Produto A.

Isso significa que o aval do BNDES será necessário mesmo quando o projeto não usar dinheiro do próprio banco. A Portaria Normativa MME nº 136 permite que os empreendedores recorram a outras instituições financeiras ou até a recursos próprios, mas mantém a obrigação de comprovar que o SAE utilizado foi credenciado.

A exigência aparece também na assinatura do Contrato de Reserva de Capacidade para Potência, o CRCap. Pela minuta de edital em consulta pública na Aneel, os vencedores do Produto A terão até 7 de maio de 2027 para apresentar o certificado emitido pelo BNDES. Sem esse documento, o contrato não poderá ser assinado.

Há, no entanto, uma margem para mudança de fornecedor depois do leilão. A área técnica da Aneel avaliou que não existe impedimento regulatório para a troca entre a qualificação do projeto e a etapa de comprovação necessária ao contrato, desde que o novo SAE escolhido obtenha o credenciamento do banco. Isso abre espaço para que empreendedores entrem na disputa mesmo com fabricantes cujas soluções ainda estejam em processo de aprovação.

A regra de conteúdo nacional vale para a primeira disputa, em 2 de dezembro. Dois dias depois, em 4 de dezembro, haverá um segundo certame no qual não será obrigatório cumprir conteúdo local nem ter credenciamento no CFI como condição de participação.

O que terá de ser nacional

O sistema que será contratado pelo leilão é mais amplo do que a bateria propriamente dita. Um SAE reúne as baterias e toda a estrutura necessária para fazê-las operar de forma integrada: conversores de potência, controles, climatização, estrutura, painéis, transformadores, cabos e equipamentos de proteção contra incêndio.

Para enquadrar esses sistemas nas regras do Produto A, o BNDES criou quatro caminhos de nacionalização. A lógica permite combinações diferentes: quanto maior a parcela nacional da própria bateria, menor a necessidade de incorporar outros componentes credenciados.

Na alternativa que exige menos produção local da bateria, por exemplo, o sistema pode cumprir a primeira etapa utilizando três componentes credenciados, sendo pelo menos um deles considerado estratégico, além de respeitar os índices mínimos de nacionalização definidos pelo banco.

Uma exigência atravessa todas as configurações: a montagem do SAE completo precisa ocorrer no Brasil.

Isso não significa que toda a bateria tenha de nascer no país. As regras permitem, em algumas configurações, a importação de células e até de módulos. No primeiro nível de nacionalização do pack, o BNDES aceita módulos importados, mas exige que a montagem do pack seja realizada no Brasil e que componentes ou processos nacionais completem o percentual necessário.

Software também entra na conta

Outro elemento importante nessa equação é o EMS, sistema de gerenciamento de energia. Ele funciona como o centro de comando do SAE: coordena quando as baterias devem carregar ou descarregar, em qual potência e como os demais equipamentos devem responder durante a operação.

O BNDES divide o EMS em duas frentes. Uma é o hardware, formado pelos equipamentos físicos de controle. A outra é o desenvolvimento do software e do firmware, responsável pelas funções executadas diretamente pelos controladores e demais equipamentos.

As duas partes são consideradas estratégicas para o cálculo de conteúdo local. Assim, o desenvolvimento nacional do EMS pode entrar na combinação utilizada por um sistema para atingir as exigências do leilão.

Nesse ponto, Moura e Automa são as únicas empresas que, até agora, concluíram a validação do desenvolvimento do software e do firmware do EMS. Há outras solicitações em andamento.

Essa validação não deve ser confundida com a aprovação de um SAE completo. Sistemas completos aprovados recebem código Finame. Já o software e o firmware do EMS passam por uma análise específica e não recebem esse código.

Fabricantes se movimentam antes de dezembro

Entre as empresas brasileiras já credenciadas como fornecedoras, WEG e Moura chegam ao processo com produção local de sistemas de armazenamento. A You.On segue outro modelo, concentrado em engenharia e integração dos equipamentos que compõem um BESS, em vez da fabricação de toda a cadeia da bateria.

A WEG já produz sistemas de armazenamento no país e informou ter cerca de 1 GWh de capacidade produtiva em baterias, dividida entre mobilidade elétrica e armazenamento estacionário. A companhia também está construindo uma fábrica de BESS em Itajaí, em Santa Catarina, com capacidade prevista para acrescentar 2 GWh por ano à produção brasileira.

A Moura também fabrica baterias e sistemas de armazenamento no Brasil e fechou, em agosto, parceria com a chinesa CATL especificamente para disputar o LRCap com conteúdo nacional. O plano prevê a industrialização dos sistemas no país, reunindo a tecnologia da CATL à estrutura produtiva da Moura.

Entre as chinesas, as estratégias também passam por presença ou parcerias locais. A TBEA, fabricante e integradora de sistemas de armazenamento, acertou com a Cube Energy o desenvolvimento e fornecimento de até 2,4 GWh em projetos de BESS destinados ao LRCap no Brasil.

A Gotion, que atua desde a fabricação de células até sistemas completos de armazenamento, abriu seu primeiro escritório brasileiro durante a Intersolar South America, em agosto. A Trina, também fabricante de sistemas completos, já decidiu disputar o leilão e vem negociando com fornecedores brasileiros de componentes como conversores de potência e sistemas de gerenciamento de energia para tentar cumprir as regras de nacionalização.

No Amazonas, a BYD aparece entre as sete empresas já credenciadas como fornecedoras. A companhia possui em Manaus uma fábrica de baterias de fosfato de ferro-lítio e também atua no país com sistemas estacionários de armazenamento.

A presença industrial na capital amazonense, entretanto, não garante que um SAE da BYD já esteja habilitado ao Produto A. Assim como ocorre com as demais empresas da lista, a solução completa ainda terá de passar pela análise específica do BNDES e comprovar que atende ao conteúdo local exigido.

Fora da lista atual aparece outra movimentação que passa pela indústria de baterias. UCB Power e Jinko ESS assinaram um memorando de entendimento para avaliar a industrialização no Brasil dos sistemas desenvolvidos pela companhia chinesa. A intenção declarada pelas empresas é criar condições para enquadrar essas soluções nas exigências de conteúdo local do LRCap.

Por enquanto, porém, nem UCB Power nem Jinko ESS aparecem entre os fornecedores credenciados divulgados pelo BNDES.

Resumo redes: UCB Power e Jinko ESS assinaram no fim de agosto um memorando para avaliar a industrialização de sistemas de armazenamento no Brasil, mas ainda não aparecem entre os fornecedores credenciados pelo BNDES. Leilão acontece em dezembro.