Brasil perde fôlego na geração de empregos, mas Amazonas lidera avanço e Manaus cria 3,1 mil vagas em julho
Estado teve a maior expansão percentual do emprego formal do país no mês. Manaus respondeu por 85% das novas vagas amazonenses, mas informalidade ainda atinge mais da metade dos trabalhadores
O mercado de trabalho brasileiro começa a emitir sinais de desaceleração, mas o movimento ainda não chegou com a mesma intensidade ao Amazonas.
Enquanto o Brasil criou 58.568 empregos com carteira assinada em julho, em um dos resultados mais fracos dos últimos anos para o mês, o Amazonas registrou 3.650 vagas formais e registrou a maior expansão percentual entre todos os estados brasileiros: 0,63%.
Dados do do Novo Caged mostram que a capital registrou 27.203 admissões e 24.093 desligamentos em julho, deixando saldo positivo de 3.110 empregos. Foi o segundo maior saldo entre os municípios brasileiros no mês, atrás apenas de Osasco, em São Paulo. Na prática, 85% de todo o saldo de empregos criado no Amazonas em julho veio de Manaus.
O desempenho chama ainda mais atenção quando comparado ao tamanho do mercado local. O Amazonas possui cerca de 579 mil vínculos formais, equivalentes a pouco mais de 1% dos 48,1 milhões existentes no país, mas respondeu por aproximadamente 6% de todas as vagas líquidas abertas no Brasil em julho, segundo cálculo do O Polo a partir dos números do Ministério do Trabalho.
Brasil começa a pisar no freio
A fotografia nacional é diferente.
O relatório semanal do Itaú, divulgado na sexta-feira (28), classificou os dados recentes como “sinais mistos de acomodação” do mercado de trabalho. O banco destaca que o Caged de julho veio abaixo das expectativas e que, após ajustes sazonais, a criação líquida de vagas perdeu velocidade em relação aos meses anteriores. Mesmo assim, a avaliação é de que o mercado continua apertado e ainda não apresenta sinais relevantes de deterioração.
O dado bruto ajuda a mostrar essa perda de força.
Foram 58,6 mil vagas formais abertas em julho, contra cerca de 137 mil em junho. No acumulado de janeiro a julho, o país criou 972 mil empregos, resultado cerca de 21% inferior ao observado no mesmo período de 2025.
Serviços ainda lideraram a geração nacional, com 24,1 mil vagas, seguidos por construção, com 12,7 mil, agropecuária, com 12,5 mil, e indústria, com 11,3 mil. O comércio foi o único dos cinco grandes setores a fechar empregos no mês, com saldo negativo de 2,1 mil postos.
Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua chegou a 5,3% no trimestre encerrado em julho, menor resultado para esse período desde o início da série histórica, em 2012. O país alcançou ainda o recorde de 103,3 milhões de pessoas ocupadas.
Não há contradição entre os números: o desemprego continua muito baixo, mas a velocidade de contratação está diminuindo. É exatamente esse o sinal apontado pelo Itaú: um mercado de trabalho que segue forte, mas que começa a mostrar acomodação depois de vários anos de expansão.

Amazonas vai na direção contrária em julho
No Amazonas, pelo menos por enquanto, o Caged aponta aceleração. O estado teve 29.496 admissões e 25.846 desligamentos, resultando nas 3.650 novas vagas formais de julho. O número é aproximadamente três vezes o saldo de julho de 2025, quando foram criados 1.202 empregos.
O setor de serviços respondeu sozinho por 2.219 novos postos, mais de 60% do saldo estadual. Construção, comércio e indústria também fecharam o mês no positivo.
Outro indicador reforça o desempenho recente: o Amazonas foi a unidade da Federação com maior crescimento percentual do estoque de empregos em julho, à frente de Mato Grosso, com 0,59%, e Piauí, com 0,52%.
Em Manaus, algumas ocupações ligadas diretamente à atividade produtiva e logística aparecem entre as que mais contrataram.
Foram 2.252 admissões de operadores de produção em julho, com saldo líquido de 658 postos. Entre almoxarifes e armazenistas, foram 1.705 admissões e saldo positivo de 336 vagas. Funções administrativas tiveram saldo de mais 255 postos.
Para uma cidade cuja economia gira em grande medida em torno do Polo Industrial de Manaus e de sua cadeia de fornecedores, logística e serviços, os números ajudam a mostrar que a contratação permanece ativa mesmo diante da desaceleração observada nacionalmente.

Mais emprego, mas ainda com um problema estrutural
Os números positivos do Caged, porém, contam apenas uma parte da história.
A PNAD Contínua trimestral do IBGE, que permite observar o mercado de trabalho amazonense de forma mais ampla, mostra que o estado tinha 1,847 milhão de pessoas ocupadas no segundo trimestre de 2026, 85 mil a mais que no primeiro trimestre.
A taxa de desemprego caiu de 8,3% para 7,5% no período, embora a variação tenha sido considerada estatisticamente estável pelo IBGE. Ainda assim, o desemprego amazonense permanece acima dos 5,4% registrados pelo Brasil no mesmo trimestre.
O problema mais evidente está na qualidade das ocupações.
No Amazonas, 51,7% dos trabalhadores estavam na informalidade no segundo trimestre, o equivalente a aproximadamente 955 mil pessoas. É a terceira maior taxa de informalidade entre os estados brasileiros, atrás somente do Maranhão, com 56,9%, e do Pará, com 55,9%. A média brasileira era de 37,4%.
Ou seja: proporcionalmente, a informalidade no Amazonas está 14,3 pontos percentuais acima da média nacional.

Renda também acende sinal amarelo
O aumento da ocupação amazonense não veio acompanhado de crescimento da renda. O rendimento médio mensal do trabalho no estado recuou de aproximadamente R$ 2.840 no primeiro trimestre para R$ 2.771 no segundo, queda de cerca de 2,4%.
No Brasil, o rendimento médio no mesmo período ficou em R$ 3.738.
Isso coloca a renda média do trabalhador amazonense cerca de 26% abaixo da média brasileira.
O cenário se repete entre os novos empregados formais. Em julho, o salário médio real de admissão no Amazonas ficou em R$ 2.115,87, praticamente estável em relação a junho.
Há, portanto, duas histórias acontecendo ao mesmo tempo: o Amazonas está criando empregos em ritmo acima da média nacional, mas continua enfrentando uma estrutura de trabalho marcada por informalidade elevada e remuneração inferior à média do país.

Indústria é o ponto para acompanhar
Há ainda um dado particularmente importante para o Polo Industrial de Manaus.
Apesar do bom desempenho recente do emprego formal, a PNAD apontou redução do contingente ocupado na indústria amazonense na comparação anual: de cerca de 238 mil pessoas no segundo trimestre de 2025 para 206 mil em 2026, uma queda de aproximadamente 32 mil trabalhadores.
É uma leitura diferente do Caged — as duas pesquisas possuem metodologias distintas —, mas o dado merece acompanhamento.
O Caged acompanha vínculos formais registrados pelas empresas. A PNAD é uma pesquisa domiciliar e captura um universo mais amplo de trabalhadores, incluindo informais e outras formas de ocupação.
Por isso, o desempenho dos próximos meses poderá indicar se julho marcou apenas uma contratação pontual mais forte ou o início de uma aceleração mais consistente do mercado de trabalho amazonense.
Resumo redes: Estado teve a maior expansão percentual do emprego formal do país no mês. Manaus respondeu por 85% das novas vagas amazonenses, mas informalidade ainda atinge mais da metade dos trabalhadores.