Por que a Cimed deveria vir para Manaus, se ela diz ter perdido R$ 500 milhões por falta de capacidade
A dona da caixinha amarela já vende em Manaus por uma filial atacadista aberta em 2022, mas faz genéricos e Lavitan só em Pouso Alegre (MG). Na Zona Franca, comprimido e suplemento têm PPB, e o remédio tem crédito de 100% do ICMS
Em fevereiro de 2025, ao detalhar o plano de faturar R$ 10 bilhões até 2030, o CEO da Cimed, João Adibe Marques, deu tamanho ao gargalo da empresa.
“Ano passado deixamos de faturar 500 milhões de reais por não conseguir produzir o suficiente”, afirmou o executivo, segundo a revista Exame, referindo-se a 2024.
O aperto seguiu em 2025. Nas demonstrações financeiras do ano, a administração cita “limitações de capacidade produtiva interna” entre as pressões do período e põe a “ampliação da capacidade industrial interna” entre as prioridades de 2026.
A dona do genérico da caixinha amarela teve receita líquida de R$ 3,07 bilhões em 2025. Remédios e suplementos Lavitan saem de duas plantas em Pouso Alegre (MG), que fazem de comprimido e cápsula a xarope, colutório e pomada.
Até aqui, a Cimed cresceu no Sudeste
Em setembro de 2024, a empresa desistiu de uma fábrica de R$ 200 milhões em Montes Claros (MG) e preferiu investir R$ 150 milhões para dobrar a capacidade de higiene e beleza em Pouso Alegre, onde depois abriu dois centros de distribuição, por cerca de R$ 100 milhões.
Em fevereiro deste ano, comprou a Ice Fresh, fabricante de creme dental de Bauru (SP). A próxima fábrica também será de higiene e beleza, e o CEO já disse para onde ela vai.
“Em 2027, a gente vai avançar para o Nordeste e aí tem uma briga dos estados para saber quem vai receber essa nova unidade, se vai ser Ceará, Pernambuco, Bahia”, afirmou em março, na Feira da Indústria da Fiec, em Fortaleza, segundo o Diário do Nordeste.
Higiene e beleza fica fora, o remédio não
Manaus não entra nessa disputa com vantagem. Na Zona Franca de Manaus (ZFM), cosmético e perfumaria (NCM 3303 a 3307) só têm incentivo com matéria-prima regional, pelo Anexo X do Decreto 783/1993 e pela Portaria Interministerial 842/2007, que exige, entre outras condições, de 2% a 20% do peso da fórmula em insumo amazônico.
Sem esse ingrediente, uma linha Carmed ou de creme dental não teria benefício. O argumento de Manaus é o remédio e o suplemento, e, desde 2024, nenhuma expansão anunciada pela Cimed é de remédio fora de Minas.
A filial do Tarumã é o ponto de partida
A Cimed & Co. tem filial ativa no Tarumã, em Manaus, desde 11 de julho de 2022, registrada na Receita Federal como atacadista de medicamentos.
É um braço comercial: o genérico que a filial vende sai de Pouso Alegre, e é a fábrica que falta em Manaus.
Comprimido e suplemento têm PPB; xarope, não
Na ZFM, só há incentivo com Processo Produtivo Básico (PPB), a portaria das etapas mínimas de fabricação. Comprimido e cápsula têm o de sólidos, a Portaria Interministerial 8.685/2021, com lista fechada de 189 itens.
A lista tem dipirona, losartana e omeprazol, mas quais genéricos da Cimed estão nela só a conferência item a item diz.
Pesagem, mistura, compressão e análises ficam em Manaus; bula e embalagem podem vir da fábrica de cartonagem da Cimed em São Sebastião da Bela Vista (MG). A contrapartida é aplicar 0,25% do faturamento incentivado em pesquisa na região.
A Novamed, do Grupo EMS, já fabrica sólidos em Manaus, e a Brainfarma, da Hypera, tem fábrica em implantação.
Pomada e creme medicamentosos têm outro PPB, a Portaria Interministerial 223/2001, sem lista de ativos. Xarope e colutório não têm PPB escrito: o caminho é consultar a Suframa ou pedir um PPB novo, rito que o governo estima em cerca de 120 dias.
Os suplementos Lavitan cabem na Portaria Interministerial 190/2026, o PPB de suplemento alimentar, que fala em forma sólida. O item da linha registrado como remédio pode ir pela lista dos sólidos, que tem polivitamínicos e vitamina C.
Remédio e Lavitan sob o mesmo teto
Pôr os dois na mesma planta tem uma razão, explicou no Amazonas Invest Farma, em São Paulo, em 22 de setembro, o secretário executivo de Desenvolvimento Econômico da Sedecti, Anderson Grimm.
“Muitas indústrias aqui (...) não possuem só medicamento. Tem outras que produzem suplemento, para poder diluir ali o seu custo operacional”, afirmou.
O remédio tem crédito estímulo de 100% do ICMS; o percentual do suplemento não foi dito no evento. A consultora Karine Atala, sócia diretora da Atala&Denys, resumiu que “o medicamento se enquadra no melhor incentivo da Zona Franca de Manaus”.
Na reforma tributária, esse crédito vira crédito presumido de IBS até 2073. A ressalva: a lei fala de produtos aprovados até 2023; consultoras e governo dizem que o incentivo é do produto, mas o governo não tratou de quem chega depois.
Parte dos medicamentos terá redução de 60% no IBS e na CBS e parte terá alíquota zero; nesta, o crédito presumido de IBS é calculado sobre o saldo devedor, explicou a advogada Mariana Monfrinatti, do Pinheiro Neto.
“Eu vou ter o crédito presumido, mas eu vou calcular zero sobre zero, vai ser zero”, disse.
Nesse caso, pesam a redução de 75% do imposto de renda, pela Sudam, e a suspensão do imposto de importação nos insumos.
A Sedecti tem uma planilha para projetar o resultado de cada produto e, segundo Anderson Grimm, “a nossa equipe da Sedecti pode trabalhar isso pontualmente com cada um”.
A Atala&Denys e o Pinheiro Neto patrocinaram o evento, correalizado pelo governo do Amazonas.
O caminho, os prazos e a distância
Segundo Karine Atala, os projetos saem em cerca de três meses, com CNPJ de endereço virtual, e a instalação leva de cinco a sete meses, mais no caso do remédio. Aprovado o projeto, há três anos para produzir, sem penalidade na desistência.
“A gente está distante. Mas a boa notícia que eu dou para vocês é que alguém já abriu o caminho lá em 2010”, admitiu a consultora.
Pelo ar, a carga sobe ou desce de Manaus em 24 a 36 horas, segundo Otávio Meneguette, da LATAM Cargo Brasil. Na seca de 2023 e 2024, lembrou Anderson Grimm, a saída foi um porto flutuante com transbordo para balsas; ninguém deu número de frete.
Uma linha de genéricos e Lavitan para o Norte
Uma linha de comprimidos e cápsulas em Manaus, com os genéricos que estiverem no anexo de 189 itens e os suplementos Lavitan, poria a produção da Cimed ao lado do mercado que a filial atacadista do Tarumã atende desde 2022.
Resumo redes: A Cimed diz ter deixado de faturar R$ 500 milhões em 2024 por não conseguir produzir o suficiente, e faz genéricos e Lavitan só em Pouso Alegre (MG). Em Manaus, onde já tem filial atacadista desde 2022, comprimido e suplemento têm PPB, e o medicamento tem crédito de 100% do ICMS. #vempramanaus