Codexa usa IA para reduzir de três semanas a uma tarde classificação de materiais na Zona Franca de Manaus

Modelos treinados com regras de Suframa, Anvisa e Receita já apoiam processos aduaneiros, integram dados das companhias aéreas e dão às empresas acompanhamento em tempo real da carga

João Victor Aguiar fala ao microfone em painel ao lado de Otávio Meneguette e Isabel Reis no Amazonas Invest Farma.
João Victor Aguiar, cofundador e CEO da Codexa, fala no painel de logística do Amazonas Invest Farma, em São Paulo, observado por Otávio Meneguette, da LATAM Cargo Brasil, e Isabel Reis, da Azul Cargo Express | Foto: Celso Doni

Uma tarefa que até pouco tempo consumia cerca de três semanas na Codexa passou a ser concluída em apenas uma tarde com o uso de inteligência artificial. O trabalho envolve a classificação e a descrição de listas de materiais pela Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), etapa necessária em operações de comércio exterior. Depois de processada pela tecnologia, a relação segue para a equipe de engenharia fazer a revisão. “A gente meio que inverteu essa lógica”, resumiu o cofundador e CEO da empresa, João Victor Aguiar.

O exemplo foi apresentado nesta terça-feira (22), durante o painel de logística do Amazonas Invest Farma, evento voltado à indústria farmacêutica, no AYA Hub, em São Paulo. Patrocinadora do evento, a Codexa é um grupo de comércio exterior de Manaus que atua de forma integrada em câmbio, despacho aduaneiro e logística. Segundo Aguiar, o ganho de produtividade não veio simplesmente da adoção dos modelos de inteligência artificial disponíveis no mercado. “Tem um componente de treinamento para adaptar ele à nossa realidade regulatória”, disse.

Isso significa ensinar os sistemas a trabalhar dentro das regras e rotinas da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Receita Federal. Depois desse treinamento, afirmou o executivo, a acurácia passa a ser “muito interessante” e já produz resultados para os clientes. É também a resposta que ele dá a uma preocupação recorrente entre gestores: as chamadas alucinações, quando a inteligência artificial gera uma resposta inadequada ou se desvia da informação esperada.

“Na experiência da Codexa, os modelos têm evoluído a ponto de superar, em algumas tarefas, analistas da própria empresa”.

Uma etapa a mais na importação por Manaus

A discussão sobre tecnologia começou quando o moderador do painel, o gestor comercial de cargas da Vinci Airports, Pietro Aires, perguntou quais gargalos já haviam sido superados na importação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) dentro dos regimes especiais da Zona Franca de Manaus e como a Codexa trabalha para dar fluidez à cadeia de suprimentos da saúde. Também participaram da conversa o diretor da LATAM Cargo Brasil, Otávio Meneguette, e a diretora nacional da Azul Cargo Express, Isabel Reis.

Aguiar partiu de uma diferença objetiva entre importar por Manaus e realizar a mesma operação pelo Sul, Sudeste ou outra região do país. No caso da indústria farmacêutica, além da anuência da Anvisa, há a participação da Suframa, à qual precisam ser informados detalhes e particularidades da operação de cada empresa. Essa camada adicional costuma ser apontada como um aumento da complexidade, mas, na avaliação do executivo, a tecnologia está reduzindo o peso operacional desses controles.

“Muitas vezes se vê isso como uma fricção no processo. Mas a boa notícia é que, com o advento da tecnologia, na medida que a gente vai embarcando tecnologia, principalmente inteligência artificial, ao longo do processo, a gente consegue reduzir o custo de se operar na Zona Franca de Manaus, porque, sim, esses controles existem e esses controles são muito bem-vindos”, pontuou Aguiar.

Parte desse avanço está na capacidade de lidar com uma característica do comércio exterior: o grande volume de dados não estruturados. Informações de documentos e operações precisam ser convertidas para atender às rotinas específicas de Anvisa, Receita Federal e Suframa. Segundo Aguiar, ferramentas atuais permitem tratar esse material em escala, reduzindo o esforço necessário para cumprir as exigências regulatórias. Ele colocou a Codexa como uma das empresas capazes de induzir essa redução de custos, mas ressaltou que a tecnologia está disponível para todo o mercado.

O efeito também aparece na gestão das operações. Empresas com matrizes no Sul e no Sudeste podem acompanhar com mais proximidade o que acontece em Manaus, sem que a distância implique necessariamente montar estruturas administrativas maiores na cidade.

“Isso ajuda a desmontar uma percepção antiga de que a Zona Franca está longe, de que tem que ter operação lá, de que tem que ter headcount lá”.

Embora ainda seja um movimento recente, acrescentou, o uso dessas ferramentas já está produzindo efeitos. O ponto, segundo ele, é fazer com que a eficiência obtida no transporte também alcance a parte menos visível da operação, formada pelos processos regulatórios e aduaneiros.

“Porque também não adianta nada a Azul ser superpontual, a Avianca prestar um excelente serviço para a gente, mas a gente tem uma camada invisível em cima, que são os órgãos anuentes, a Receita e a Suframa. E que tem que ter. O grande ponto é: como a gente atende também a essas contrapartes com escala, minimizando o efeito colateral de a gente ter que ter mais headcount lá, ou da gente ter assimetria em relação a como é que opera lá”, ressaltou o executivo.

Na avaliação de Aguiar, a inteligência artificial entra justamente para retirar parte dessas barreiras e tornar a região mais competitiva para novos negócios. Pietro Aires reforçou que é possível manter uma operação fluida em Manaus mesmo com a presença dos órgãos anuentes: os controles são necessários, disse, mas existe espaço para diálogo e para que as empresas apresentem suas necessidades. Para o moderador, a própria IA pode ajudar a encurtar etapas tanto do processo aduaneiro quanto do transporte da carga.

João Victor Aguiar, cofundador e CEO da Codexa, fala no painel de logística do Amazonas Invest Farma, em São Paulo, observado por Otávio Meneguette, da LATAM Cargo Brasil, e Isabel Reis, da Azul Cargo Express | Foto: Celso Doni

Dados das companhias aéreas chegam ao cliente em tempo real

Essa integração ganhou outro exemplo quando Aires apresentou a evolução no tempo de liberação das importações no Aeroporto de Manaus. Atualmente, 82% das cargas são entregues já no primeiro período do processo, de aproximadamente 40 horas; antes, o índice era de 72%. Segundo ele, o objetivo é fazer com que agentes como a Codexa e as companhias aéreas trabalhem de forma coordenada para reduzir ainda mais o tempo até a entrega.

Aguiar explicou que a relação da empresa com as aéreas ocorre em duas direções. Como agente de carga, a Codexa “nada mais é do que um agente de go-to-market” da LATAM e da Azul: comercializa espaços para lotes menores e facilita o processo de venda das companhias. Ao mesmo tempo, é uma grande consumidora dos dados produzidos por elas, principalmente porque a qualidade da informação repassada ao cliente passou a ser parte relevante do serviço logístico.

Para isso, o time de tecnologia da Codexa trabalha diretamente com as companhias na integração e no processamento desses dados. Uma mesma operação pode utilizar LATAM, Azul ou Atlas Air, por exemplo, e a proposta é reunir as informações das diferentes malhas em uma única visão para o cliente. Aguiar destacou os investimentos feitos pelas aéreas para disponibilizar esses dados e permitir o acompanhamento em tempo real.

Essa visibilidade é especialmente importante porque são as companhias que estão com os ativos físicos e com a posse da carga durante uma das etapas mais críticas do deslocamento. A Codexa, explicou Aguiar, recebe os dados gerados nesse percurso, processa o material e o transforma em informação que possa ser utilizada pelos gestores responsáveis pela operação na ponta.

Setor farmacêutico pode sentir menos o chamado desvio logístico

Ao encerrar sua participação, Aguiar levou a discussão para um ponto que considera particularmente relevante para a indústria farmacêutica. A Zona Franca de Manaus costuma ser associada ao custo provocado pelas distâncias e pelos chamados desvios logísticos, mas, segundo ele, esse impacto não é igual para todos os setores. No caso farmacêutico, uma parcela considerável dos insumos é importada e há “um fit muito grande” com o transporte aéreo, o que muda a lógica normalmente usada para avaliar a localização de Manaus.

Um dos fatores é Miami, importante ponto de consolidação de cargas originadas na Ásia e também na Europa. Nesse desenho, a posição geográfica de Manaus pode representar uma vantagem.

“Quando a gente fala de Miami para Manaus, a gente está falando de cinco horas. Quando a gente está falando de Miami para Guarulhos, a gente está falando de oito horas. Podem me corrigir se eu estiver equivocado, mas a maior origem de Guarulhos é Miami”, argumentou Aguiar.

A leitura do executivo é que parte das mercadorias vindas da Ásia e da Europa já passa por Miami antes de seguir ao Brasil e, nesse corredor, Manaus está mais próxima do hub consolidador. É uma situação diferente daquela que alimentou o estereótipo do desvio logístico associado às estradas, à cabotagem e ao transporte marítimo. No aéreo, a oferta de voos para a capital amazonense é considerável, com frequência quase diária.

Mais de 100 mil toneladas de carga circulam por ano entre São Paulo e Manaus

O fluxo também é intenso no sentido contrário. Para uma companhia que importa o insumo, fabrica no Polo Industrial de Manaus e depois precisa abastecer o Sudeste, Aguiar apontou Manaus–Guarulhos como a rota mais densa do país em carga paga. Otávio Meneguette já havia dimensionado esse corredor no início do painel: somando Guarulhos e Viracopos, mais de 100 mil toneladas de carga circulam por ano entre São Paulo e Manaus, volume próximo de 2 mil toneladas por semana e transportado, em sua maior parte, por aviões cargueiros.

Meneguette fechou a discussão comparando diretamente os prazos. Pelo modal aéreo, uma carga pode cumprir o percurso em cerca de 24 horas; por cabotagem ou transporte rodoviário, o tempo varia de dez a 15 dias. Para o diretor da LATAM Cargo Brasil, essa diferença tende a se refletir também no custo financeiro da operação, muito provavelmente com menor incidência de juros sobre mercadorias que permanecem menos tempo em trânsito.

Resumo redes: Modelos treinados com regras de Suframa, Anvisa e Receita já apoiam processos aduaneiros, integram dados das companhias aéreas e dão às empresas acompanhamento em tempo real da carga. “Os modelos têm evoluído a ponto de superar, em algumas tarefas, analistas da própria empresa”, disse o cofundador e CEO da Codexa, João Victor Aguiar.