“Com certeza teremos algum aumento de custo”: Abraciclo alerta para impactos da estiagem na indústria de motos em Manaus

Fabricantes antecipam compras, reforçam estoques e apostam em alternativas logísticas para evitar paralisações e manter a meta de 2,1 milhões de motos em 2026

Marcos Bento, presidente da Abraciclo, veste paletó azul e óculos, falando em frente a uma parede de tijolos e uma planta.
Marcos Bento, presidente da Abraciclo | Foto: Reprodução/YouTube

A indústria de motocicletas brasileira, concentrada no Polo Industrial de Manaus, se prepara para enfrentar um dos períodos mais delicados da estiagem de 2026. Com a expectativa de que a vazante dos rios se intensifique no fim de outubro, as fabricantes já trabalham para reduzir os riscos de atrasos no recebimento de peças e componentes.

O cenário deve pressionar os custos de transporte, mas, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), não há expectativa de que a situação comprometa a meta de produção deste ano.

Nesta terça-feira (13), durante evento de apresentação de indicadores do setor de duas rodas, o presidente da entidade, Marcos Bento, afirmou que as empresas estão mais preparadas para enfrentar as dificuldades de navegação após a experiência da seca histórica de 2023. Naquele ano, a queda acentuada do nível dos rios impediu o acesso de embarcações aos principais portos da capital amazonense, afetando o abastecimento da indústria.

“Temos monitorado essas informações e a expectativa é que final de outubro tenhamos um momento mais crítico. Mas, com o aprendizado que tivemos em 2023, no qual a seca foi severa, as indústrias se preparam com antecedência”, disse.

A avaliação ocorre em um momento de expansão do setor, que elevou sua projeção de produção para 2,1 milhões de motocicletas em 2026. Para atingir esse volume, as fabricantes dependem de um fluxo contínuo de materiais e componentes, grande parte transportada por via fluvial até Manaus.

Estoques reforçados e alternativas aos portos de Manaus

Uma das principais estratégias adotadas pelas empresas foi antecipar compras e reorganizar os estoques para diminuir a necessidade de receber mercadorias justamente nas semanas de maior dificuldade de navegação. As fabricantes também passaram a revisar suas opções de transporte para reduzir os efeitos de eventuais interrupções no fluxo de cargas.

“A primeira mudança diz respeito ao controle que cada fabricante faz sobre o seu estoque, sobre os seus modais logísticos e a preparação de antecipar a compra, manter, não depender muito naquele momento crítico de chegada de navios”, explicou Bento.

A preparação também envolve medidas fora das fábricas. Segundo o executivo, o poder público ampliou o acompanhamento dos níveis dos rios, com previsões diárias que ajudam as empresas a planejar suas operações. Investimentos em dragagem e melhorias nas informações sobre as condições de navegação também fazem parte das ações adotadas desde a crise de 2023.

Outra alternativa é a utilização de portos avançados, estruturas desenvolvidas pela iniciativa privada, com apoio público, para receber embarcações em pontos onde a profundidade dos rios ainda permite a navegação. Dessa forma, as mercadorias podem ser desembarcadas antes de chegar aos terminais tradicionais de Manaus, caso o acesso à capital esteja comprometido.

Transporte mais caro ainda preocupa

Apesar das medidas preventivas, Bento reconhece que a estiagem continuará representando um desafio para a indústria. A principal preocupação está no encarecimento das operações logísticas, especialmente diante das limitações do transporte fluvial e do alto custo do frete aéreo.

“Continuará sendo uma vazante bastante severa, pode haver situações críticas no porto principal, Manaus. Para paralisação de fábricas, pelo menos no setor das motos, acho que todo mundo se preparou. Mas com certeza teremos algum aumento de custo”, declarou.

O presidente da Abraciclo também observou que a necessidade de utilizar alternativas de transporte aumenta a disputa por capacidade logística com outras mercadorias que precisam chegar ao Amazonas, incluindo alimentos e medicamentos.

Resumo redes: Depois da seca de 2023, as fabricantes anteciparam compras, reorganizaram estoques e buscaram alternativas ao transporte fluvial tradicional. Previsões diárias dos níveis dos rios, dragagem e portos avançados reforçam o planejamento. A estratégia é garantir o abastecimento de peças, evitar paradas nas linhas de montagem e cumprir a projeção de 2,1 milhões de unidades ao longo de 2026.