Diesel da Petrobras fica 28% abaixo da paridade internacional e acende alerta para custos no Amazonas
Brent subiu 4% em uma semana e ampliou a diferença entre os preços praticados no Brasil e as referências externas; em Manaus, diesel S10 já avançou 1,7% na última semana pesquisada pela ANP
O preço do diesel vendido pela Petrobras voltou a se distanciar do mercado internacional em meio à nova alta do petróleo e coloca no radar uma pressão que, no Amazonas, vai muito além do preço nas bombas. Cálculos do Itaú BBA apontam que o combustível comercializado pela estatal está atualmente 28% abaixo da paridade de importação e 21% abaixo da referência de exportação. Na gasolina, a diferença é ainda maior: 37% abaixo da paridade de importação e 21% abaixo da referência de exportação.
A defasagem aparece em um momento de valorização do petróleo Brent, que subiu 4% em apenas uma semana diante da continuidade das tensões geopolíticas. Mesmo com a margem internacional de refino do diesel recuando 10% no período, os preços externos permaneceram elevados. O cenário, por si só, não significa que a Petrobras esteja prestes a reajustar os combustíveis, mas aumenta a atenção sobre o comportamento dos preços domésticos.
No Amazonas, o impacto potencial é particularmente relevante porque o diesel ocupa espaço central na infraestrutura econômica do estado. Em Manaus, o combustível está presente no transporte rodoviário de cargas e nas operações entre portos, aeroporto, centros de distribuição e empresas do Polo Industrial. Para o interior, também é essencial na navegação responsável pelo transporte de mercadorias e passageiros entre municípios que não contam com acesso rodoviário regular. Uma tabela utilizada pelo governo federal para calcular a distribuição do consumo de diesel colocou o Amazonas com 1,54% do consumo nacional em 2025.
A pressão, inclusive, já começou a aparecer nas bombas de Manaus. Entre 30 de agosto e 5 de setembro, o litro do diesel S10 foi vendido por R$ 7,18, em média, na capital, alta de 1,7% sobre a semana anterior, quando custava R$ 7,06. No mesmo período, o diesel comum passou de R$ 7,02 para R$ 7,14 por litro, avanço de 1,71%, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Uma eventual recomposição dos preços nas refinarias poderia avançar pela cadeia de distribuição e chegar ao consumidor, mas isso não significa que uma defasagem de 28% resulte automaticamente em um reajuste de 28%. O próprio Itaú BBA trata seus cálculos como uma aproximação das referências consideradas na estratégia comercial da Petrobras, que podem ser diferentes dos parâmetros efetivamente utilizados pela companhia.
Desde 2023, a Petrobras deixou de seguir mecanicamente a antiga política de paridade internacional e passou a considerar outros fatores em sua estratégia comercial. Por isso, uma diferença em relação aos preços de importação pode permanecer durante determinado período sem necessariamente provocar uma mudança imediata nas refinarias. O percentual calculado pelo banco, portanto, não representa uma previsão de aumento, mas indica o tamanho da distância estimada atualmente entre o preço doméstico e as referências internacionais.
Para a indústria amazonense, o possível impacto tende a aparecer principalmente de forma indireta. O preço do combustível interfere nos contratos de transporte, na movimentação de cargas e em outros serviços logísticos que conectam fábricas, portos, centros de distribuição e mercados consumidores. No interior, o efeito pode se espalhar ainda mais pela cadeia de abastecimento, atingindo fretes, transporte fluvial e distribuição de alimentos e mercadorias.
Há ainda uma particularidade amazônica que amplia a importância do diesel: em parte do estado, o combustível também participa da geração de eletricidade. Os chamados Sistemas Isolados, concentrados principalmente na região amazônica, ainda dependem em diferentes níveis de geração termelétrica abastecida por combustíveis líquidos. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta entre os desafios desses sistemas os custos elevados de geração, a dependência do óleo diesel e as dificuldades logísticas para levar combustível e equipamentos às localidades atendidas.
É nesse cenário que entra o Programa Energias da Amazônia, do Ministério de Minas e Energia, criado para reduzir a participação dos combustíveis fósseis na geração dos sistemas que ainda não estão conectados ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Em 2026, o governo informou que projetos de hibridização de 29 usinas, combinando geração solar e armazenamento em baterias, devem beneficiar 36 localidades e cerca de 652 mil pessoas. No ano anterior, o Leilão de Sistemas Isolados contratou 50 MW para localidades remotas do Amazonas e do Pará, com investimentos previstos de R$ 312 milhões.
Esse cenário faz com que a cotação internacional do diesel tenha um peso particular para o Amazonas. Quanto maior o custo do combustível, maior também a pressão sobre operações logísticas e sobre sistemas de geração que ainda dependem dele. Ao mesmo tempo, o encarecimento melhora a justificativa econômica para alternativas como geração solar, armazenamento por baterias e futuras interligações ao sistema nacional.
A atual distância em relação ao mercado internacional também é resultado de um movimento acumulado, e não apenas da alta registrada na última semana. A Petrobras realizou diferentes ajustes nos preços desde 2022, enquanto o mercado internacional passou por períodos de forte volatilidade. Em 2026, o levantamento do Itaú BBA registra reajustes no diesel em março e junho.
O que acontece daqui para frente dependerá principalmente do comportamento do Brent, da duração das tensões geopolíticas e das decisões comerciais da Petrobras. Uma queda do petróleo pode reduzir parte da pressão sem exigir mudanças relevantes nas refinarias brasileiras. Se os preços internacionais permanecerem elevados ou voltarem a subir, por outro lado, a distância calculada pelo Itaú BBA pode continuar aumentando.
Resumo redes: Brent subiu 4% em uma semana e ampliou a diferença entre os preços praticados no Brasil e as referências externas. Em Manaus, diesel S10 já avançou 1,7% na última semana pesquisada pela ANP.