Por que o Aché deveria vir para Manaus, onde seus comprimidos e suplementos podem ter incentivo
A farmacêutica soma R$ 1,067 bilhão investido em Pernambuco, onde constrói uma linha de injetáveis e colírios, sem PPB na Zona Franca. Em Manaus, comprimidos da lista de 189 itens e suplementos em cápsula têm regra, e a Sedecti se oferece para fazer a conta
O Aché Laboratórios Farmacêuticos anunciou em setembro de 2025 R$ 267 milhões para uma nova área de 13.565 metros quadrados no Complexo de Suape, em Cabo de Santo Agostinho (PE), com produção prevista de 40 milhões de unidades por ano de injetáveis hospitalares e colírios.
Com os R$ 800 milhões que a farmacêutica nacional já tinha aplicado no estado, segundo a Revista Nordeste, o total em Pernambuco chega a R$ 1,067 bilhão. No balanço de 31 de março de 2026, a obra da linha de estéreis já somava R$ 178,4 milhões.
O que o Aché ergue em Suape é a parte do portfólio que a Zona Franca de Manaus (ZFM) não incentiva hoje: não há Processo Produtivo Básico (PPB) para injetável nem para colírio. Para parte dos comprimidos e para os suplementos, Manaus tem regra escrita.
PPB de Manaus cobre parte dos comprimidos do Aché
O PPB de medicamentos sólidos, a Portaria Interministerial 8.685/2021, vale para comprimidos e cápsulas de uma lista fechada de 189 itens. Nela há ativos de áreas terapêuticas do Aché, como losartana, sertralina, desogestrel e polivitamínicos, mas cada produto precisa ser conferido.
Pesagem, mistura, compressão e análises ficam em Manaus, e a embalagem pode ser feita fora. A contrapartida é aplicar 0,25% do faturamento obtido com o benefício, deduzidos os tributos, em pesquisa na Amazônia Ocidental ou no Amapá.
Para os suplementos da Achevita, vale desde agosto a Portaria Interministerial 190/2026, que serve a cápsulas e comprimidos, sem lista de ingredientes. Como o texto não cita gotas, o DoseD, vitamina D em gotas, depende de consulta à Suframa.
Medicamentos em creme e pomada têm PPB desde 2001 (Portaria Interministerial 223/2001). Para injetáveis e colírios, o caminho seria pedir um PPB novo, rito que o governo estima em cerca de 120 dias.
Dermocosmético, como todo cosmético das posições 3303 a 3307, só tem incentivo com insumo amazônico na fórmula, pelo Anexo X do Decreto 783/1993 e pela Portaria Interministerial 842/2007.
Medicamento e suplemento dividem a mesma fábrica
Anderson Grimm, secretário executivo da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas (Sedecti), descreveu assim as fábricas incentivadas da capital no Amazonas Invest Farma, em São Paulo, em 22 de setembro.
“Muitas indústrias aqui, elas não possuem só um produto sendo fabricado, não possuem só medicamento. Tem outras que produzem suplemento, para poder diluir ali o seu custo operacional, para outro produto, que muitas vezes só um produto não é suficiente para manter toda a operação”, disse.
Duas farmacêuticas nacionais têm projeto aprovado pela Suframa no PPB de sólidos: a Novamed, do Grupo EMS, desde 2021, e a Brainfarma, da Hypera, desde 2025, com a fábrica ainda em implantação.
Incentivo vai até 2073, mas a conta tem ressalvas
O Aché já usa incentivo regional, com benefício da Sudene em Pernambuco. Em Manaus, a Sudam reduz em 75% o imposto de renda sobre o lucro fabril, e a Zona Franca soma o imposto de importação suspenso nos insumos e reduzido em 88% na saída e o crédito estímulo de 100% do ICMS para medicamento.
Na reforma, esse crédito vira crédito presumido de IBS, com os incentivos da ZFM garantidos até 2073. A ressalva é que a lei fala em produtos aprovados até 2023: consultoras e governo dizem que o benefício é do produto, não do CNPJ, mas o governo não disse se quem chega agora terá os 100%.
A conta depende ainda do grupo de cada medicamento, com redução de 60% no IBS e na CBS ou alíquota zero, e para o segundo o alerta veio de Mariana Monfrinatti, associada do Pinheiro Neto Advogados, escritório patrocinador do evento.
“Se você está no grupo de medicamentos alíquota zero, a chance de você não ter débitos de CBS é muito grande. (...) Acaba virando um crédito morto, você não consegue monetizar porque você não pode restituir”, afirmou.
Nesse grupo, segundo ela, pesam mais o imposto de renda e o de importação, e somar as camadas de incentivo pode gerar controvérsia com o fisco.
Suape, distância e exportação pesam contra
Nada disso sugere trocar Pernambuco por Manaus: a proposta é outra fábrica, de sólidos e suplementos, ao lado das que o Aché já tem.
A exportação pesa: o Aché vende 32 produtos em 17 países por licenciamento e vê em Suape potencial para Estados Unidos e Europa, enquanto o polo de Manaus exporta 1,66% do que produz, segundo slide da Sedecti.
A distância também pesa, e a consultora Karine Atala, sócia da Atala&Denys, outra patrocinadora, respondeu que o estado já conhece a operação e a logística farmacêutica. O ICMS incentivado cobra ainda contrapartidas, calculadas sobre o benefício, até 2032.
Aeroporto de Manaus tem licença para carga farmacêutica
Nenhum estabelecimento ativo do Aché fica no Norte. Da matriz registrada em Guarulhos (SP), a carga chega a Manaus em 24 a 36 horas pelo eixo aéreo doméstico mais denso do país, segundo a LATAM Cargo.
O aeroporto tem seis autorizações da Anvisa para carga farmacêutica e cinco câmaras frias, segundo a Vinci Airports, patrocinadora do evento, mas combustível caro e seca pesam contra, e ninguém no evento deu número de frete.
Na estiagem de 2023 e 2024, a saída foi um porto flutuante com transbordo para balsa, segundo a Sedecti.
A conta começa pelo anexo da portaria
O caminho começa com um CNPJ em Manaus, que pode ter endereço virtual, e com os projetos aprovados na Suframa e no Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam) em cerca de três meses, segundo Karine Atala. A instalação leva de cinco a sete meses, mais para medicamento, e o projeto aprovado tem três anos para começar a produzir.
Antes do projeto vem a conta, e Mariana Monfrinatti recomendou fazê-la para 2027, 2029 e 2033, os marcos da reforma.
“Nós temos uma planilha que a gente pode ali projetar algo para vocês, de resultado, isso é importante. Mas, se possível, eu posso, a nossa equipe da Sedecti pode trabalhar isso pontualmente com cada um”, disse Anderson Grimm.
A fábrica que faria sentido em Manaus é de sólidos, para os comprimidos e as cápsulas do Aché com ativo no anexo da Portaria 8.685/2021. Na mesma planta caberiam os suplementos em cápsula e comprimido da Achevita, linha lançada em 2017 que hoje reúne 13 marcas.
Resumo redes: O Aché soma R$ 1,067 bilhão investido em Pernambuco, onde constrói uma linha de injetáveis e colírios, produtos sem PPB na Zona Franca. Em Manaus, comprimidos da lista de 189 itens da Portaria 8.685/2021 e suplementos em cápsula ou comprimido têm PPB, e a Sedecti se oferece para fazer a conta de cada produto. #vempramanaus