Fim das bets pode redirecionar consumo para o varejo, dizem analistas
Supermercados e atacarejos poderiam sentir primeiro eventual mudança, seguidos por farmácias, vestuário e eletrodomésticos; MP 1.394/2026 ainda depende do Congresso para permanecer em vigor
A proibição das bets pode abrir espaço para que parte do dinheiro destinado às apostas volte a circular no consumo e beneficie empresas de varejo listadas na B3. O impacto, porém, tende a ser limitado por fatores como juros elevados, endividamento das famílias e a possibilidade de migração dos apostadores para plataformas clandestinas.
A avaliação é de analistas ouvidos pela CNN Brasil, que apontam supermercados e atacarejos entre os segmentos que poderiam sentir primeiro uma eventual mudança no comportamento dos consumidores. Farmácias, vestuário e eletrodomésticos também poderiam receber parte desses recursos, mas com efeitos potencialmente mais graduais.
Para Beto Saadia, economista-chefe da Nomus Investimentos, bancos e supermercados estariam entre os possíveis beneficiados inicialmente. Na sequência, o movimento poderia alcançar farmácias e, de maneira mais gradual, segmentos como vestuário e eletrodomésticos.
Juros continuam no centro do cenário
Apesar da possibilidade de uma melhora no consumo, o fim das bets não elimina os principais fatores que pressionam o orçamento das famílias. Para Saadia, o endividamento dos consumidores continua sendo um problema relevante para o varejo, e as apostas não são a única explicação para esse cenário.
Na avaliação do economista, os juros elevados têm papel central sobre a capacidade de pagamento das famílias e, consequentemente, sobre o consumo.
Murilo Viana, especialista em contas públicas, também identifica espaço para uma melhora nas compras, principalmente entre consumidores de menor renda. Além do impacto potencial da mudança nas apostas, ele considera o reajuste do Bolsa Família como outro fator que pode contribuir para o consumo nos próximos meses.
O ambiente econômico, porém, ainda apresenta restrições. “Os juros estão ainda em patamar muito restritivo. O endividamento das famílias e empresas está bem elevado e a economia dá sinais de desaceleração”, afirmou.
Quanto pode voltar ao consumo?
O tamanho potencial desse movimento também é uma das questões em aberto. Antes da proibição, o BTG estimou que o mercado regulado de apostas havia registrado R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos em 2025.
O indicador, conhecido como GGR, corresponde à diferença entre o valor apostado e os prêmios pagos aos jogadores. Na avaliação do banco, mesmo que somente uma parcela desse montante seja direcionada para compras ou para a redução de dívidas, o impacto pode ser relevante, sobretudo entre consumidores de menor renda.
Isso não significa, porém, que todo o dinheiro atualmente destinado às bets será automaticamente convertido em consumo. Murilo Viana aponta a possibilidade de parte dos apostadores migrar para plataformas clandestinas.
O BTG também considera essa migração um risco para as estimativas de recuperação do consumo. Assim, o impacto sobre as empresas de varejo dependerá de quanto dos recursos atualmente movimentados pelas apostas permanecerá fora desse mercado e de quanto efetivamente será direcionado para produtos, serviços ou pagamento de dívidas.
Proibição ainda depende do Congresso
A medida provisória publicada pelo Governo Federal em 25 de setembro proibiu a oferta de apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online. O texto ainda precisa ser analisado pelo Congresso em até 120 dias para continuar em vigor.
Enquanto a medida estiver sujeita a esse processo, os efeitos econômicos sobre consumo e empresas permanecem condicionados à evolução do cenário regulatório. Para o varejo, a possível liberação de recursos antes destinados às apostas representa uma variável adicional, mas ocorre em um ambiente que continua marcado por juros elevados, endividamento e desaceleração da economia.
Resumo redes: O mercado regulado registrou R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos em 2025, segundo estimativa do BTG. Supermercados e atacarejos poderiam sentir primeiro eventual mudança, seguidos por farmácias, vestuário e eletrodomésticos. A MP 1.394/2026 ainda depende do Congresso para permanecer em vigor