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# IA avança no comércio exterior e já pode reduzir até 60% das tarefas manuais
- URL: https://www.jornalopolo.com.br/ia-avanca-no-comercio-exterior-e-ja-pode-reduzir-ate-60-das-tarefas-manuais/
- Published: 2026-08-24T19:40:33.000Z
- Updated: 2026-08-24T19:40:33.000Z
- Description: Por Jackson Campos, especialista em comércio exterior e supply chain
- Author: Redação
- Tags: Especialista, Comércio Exterior, IA, #Instagram-ok, #story-ok, #Facebook-ok

Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a executar diretamente processos empresariais. Pressionadas pela busca por produtividade, redução de custos e maior controle das operações, empresas de tecnologia, logística e comércio exterior começaram a incorporar agentes capazes de interpretar documentos, cruzar dados, acompanhar operações e executar tarefas integradas aos sistemas corporativos.

Os números mostram que essa transformação ultrapassou a fase de experimentação isolada. Uma pesquisa internacional da McKinsey, publicada em novembro de 2025, apontou que 88% das organizações consultadas utilizavam inteligência artificial regularmente em pelo menos uma função de negócio, ante 78% no levantamento anterior. Além disso, 62% afirmaram que suas empresas testavam agentes de IA.

Apesar do avanço, a adoção da tecnologia ainda ocorre de forma desigual. A pesquisa apontou que quase dois terços das empresas não haviam conseguido disseminar seu uso por toda a organização, e o nível de utilização também apresentou diferenças conforme o porte das empresas.

Segundo a OCDE, 20,2% das companhias dos países analisados utilizavam IA em 2025\. Esse percentual chegava a 52% entre as grandes empresas, enquanto, entre as pequenas, ficava em 17,4%. Uma evidência de que a incorporação da tecnologia avança em ritmos distintos de acordo com a estrutura das organizações.

### Inteligência artificial no comércio exterior: da análise à execução

No comércio exterior, a quantidade de documentos, dados e participantes envolvidos em uma única operação cria um ambiente favorável à automação. Faturas comerciais, conhecimentos de embarque, classificações fiscais, contratos, cotações, rastreamento de cargas e dados alfandegários ainda dependem, em muitos casos, de consultas manuais, transferência de informações entre sistemas e conferência humana.

A Organização Mundial do Comércio estima que os efeitos da tecnologia podem alcançar as próprias trocas internacionais. No World Trade Report 2025, a entidade projetou que a adoção da IA poderia elevar o comércio mundial entre 34% e 37% até 2040\. Como consequência, o PIB mundial poderia crescer entre 12% e 13% nos cenários analisados.

Esse movimento reforça uma mudança no papel dos softwares: além de apresentar informações, os sistemas começam a executar ações em fluxos previamente definidos. A questão agora é entender quando essa capacidade deixará de ser um diferencial e passará a representar uma exigência competitiva no setor.

Para Jackson Campos, pesquisador sobre a adoção da inteligência artificial na gestão da cadeia de suprimentos pela Université de Bordeaux, essa mudança ocorreu. Na avaliação do especialista, a IA deixou de ser apenas um diferencial competitivo no comércio exterior e passou a ser uma exigência para as empresas do setor.

O mercado brasileiro também entrou nesse processo. Para Campos, empresas que ainda não utilizam a tecnologia não estão apenas deixando de acompanhar uma tendência, mas se encontram em posição de atraso em relação àquelas que incorporaram essas ferramentas às operações.

### Agentes autônomos chegam às plataformas brasileiras

No Brasil, essa transformação começa a aparecer em plataformas desenvolvidas especificamente para o comércio exterior. Em abril de 2026, a Logcomex apresentou uma solução baseada em agentes autônomos capazes, segundo a empresa, de cruzar invoice, packing list e bill of lading, identificar inconsistências, acompanhar embarques, antecipar riscos logísticos, apoiar a busca por fornecedores e organizar processos aduaneiros.

A empresa estima que os agentes possam reduzir entre 50% e 60% das atividades manuais e diminuir em aproximadamente 15% os custos operacionais dos usuários.

A capacidade de interpretar documentos, comparar dados e acompanhar eventos continuamente também levanta outra questão: quais atividades estão mais próximas de serem delegadas aos agentes?

Segundo Campos, as atividades operacionais estão sendo automatizadas, enquanto as funções comerciais devem avançar nessa direção em breve. A tendência é que sistemas capazes de realizar cotações, solicitar embarques e executar processos de faturamento estejam entre os próximos a incorporar níveis maiores de automação. Com isso, a atuação dos agentes deve avançar gradualmente de tarefas repetitivas e operacionais para etapas que hoje exigem maior participação das áreas comerciais.

## Tecnologia avança, mas empresas precisam se adaptar

A disseminação das ferramentas não significa que sua implantação seja simples. No comércio exterior, a adoção de agentes exige integração entre sistemas, qualidade dos dados, segurança da informação e definição clara sobre quais decisões podem ser executadas automaticamente e quais devem permanecer sob validação humana.

Esse pode ser um dos principais pontos de diferença entre a velocidade de evolução da tecnologia e a capacidade das empresas de incorporá-la às operações.

Na avaliação de Campos, uma das principais barreiras está na resistência dos próprios usuários, especialmente quando não há confiança nas informações fornecidas pelos sistemas. A dificuldade envolve tanto a falta de clareza sobre a origem dos dados quanto a incerteza sobre o destino das informações inseridas nas plataformas. Soma-se a isso a dificuldade de compreender como a máquina chegou a determinada resposta, fator que pode reduzir a confiança nas ferramentas e retardar sua adoção.

O desafio tende a ganhar importância à medida que grandes fornecedores incorporam agentes diretamente a plataformas corporativas, sistemas de gestão e ferramentas utilizadas no cotidiano das empresas.

A inteligência artificial pode, assim, seguir uma trajetória semelhante à de ERPs, computação em nuvem e plataformas de rastreamento, que passaram de diferenciais tecnológicos a componentes recorrentes das operações.

Para importadores, exportadores, agentes de carga, despachantes e operadores logísticos, a discussão passa a envolver quais processos devem ser redesenhados, quais dados precisam estar preparados e quais atividades podem ser delegadas à tecnologia sem comprometer controle, segurança e responsabilidade.

Nesse cenário, Jackson Campos considera que o primeiro passo para as empresas é compreender profundamente o próprio negócio e reconhecer que a inteligência artificial está sendo utilizada pelos concorrentes.

Adiar o início desse processo por mais um ano pode representar um intervalo significativo diante da velocidade de evolução das ferramentas. Por isso, quanto antes a empresa conhecer as soluções disponíveis e identificar aquelas adequadas às suas necessidades, mais rapidamente poderá decidir como incorporar a tecnologia às operações.

Se esse movimento continuar, a principal mudança provocada pela inteligência artificial no comércio exterior será a passagem de parte das operações para sistemas capazes de interpretar informações e agir de forma autônoma, antes mesmo que um profissional precise solicitar a execução de determinada tarefa.

### Sobre Jackson Campos

Jackson Campos é especialista em comércio exterior e supply chain, com atuação no setor e em relações governamentais. É doutorando na Universidade de Bordeaux, na França, onde desenvolve pesquisa sobre a adoção da inteligência artificial generativa por empresas e profissionais da cadeia de suprimentos. 

Acompanha temas como comércio internacional, tarifas e barreiras comerciais, geopolítica, inteligência artificial aplicada à cadeia de suprimentos, importação, exportação e logística internacional, analisando dados, tendências e transformações do mercado e seus impactos sobre empresas e profissionais do setor.

*Texto: Reprodução/Fup News*