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# Lembra da CCE? Marca que esteve em milhões de casas brasileiras produziu por décadas em Manaus
- URL: https://www.jornalopolo.com.br/lembra-da-cce-marca-que-esteve-em-milhoes-de-casas-brasileiras-produziu-por-decadas-em-manaus/
- Published: 2026-08-27T23:57:43.000Z
- Updated: 2026-08-28T00:49:26.000Z
- Description: Marca brasileira fez parte da rotina de milhões de consumidores com TVs, aparelhos de som, rádios, videogames, computadores e celulares
- Author: Francisco Gomes
- Tags: TBT, CCE, Zona Franca, PIM, #instagram-ok, #story-ok, #facebook-ok, #video-nao

Se você entrou em uma loja de eletroeletrônicos nos anos 1980, 1990 ou 2000, é difícil não ter cruzado com aquelas três letras: CCE. Elas estavam na televisão da sala, no aparelho de som da estante, no rádio, no videocassete e, mais tarde, no computador e no notebook. Talvez você tenha tido um produto da marca. Talvez seus pais tenham tido. E existe uma boa chance de você também lembrar das piadas que acompanhavam a sigla.

Fato é que a CCE construiu uma operação industrial de peso no Brasil. E uma parte central dessa história aconteceu em Manaus, onde a empresa iniciou uma relação com a Zona Franca ainda nos primeiros anos do Distrito Industrial e permaneceu ligada à produção local por décadas.

CCE significava, oficialmente, Comércio de Componentes Eletrônicos. A empresa nasceu em 1964, fundada por Isaac Sverner, inicialmente dedicada à importação e à comercialização de peças eletrônicas. A virada para a indústria veio no começo da década seguinte. Documentos do Governo do Amazonas registram que a CCE da Amazônia foi constituída em 22 de setembro de 1971\. Já um perfil de empresas com projetos aprovados pela Suframa aponta o início das atividades produtivas em Manaus em julho de 1972.

Era o início de uma história que acompanharia várias mudanças na maneira como o brasileiro consumia tecnologia.

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Foto: Reprodução/Internet

## Do rádio da década de 70 à TV da sala

A CCE começou pela eletrônica de consumo em uma época em que aparelho de som era móvel, rádio tinha antena e toca-fitas era tecnologia desejada. Os primeiros anos ficaram marcados por rádios portáteis, toca-fitas e sistemas de áudio. Depois vieram aqueles equipamentos que muita gente ainda consegue visualizar só de ouvir o nome: 2 em 1, 3 em 1, rádio-gravador, rádio-relógio e conjuntos modulares de som.

A estratégia da empresa ficaria clara ao longo dos anos: disputar um mercado muito sensível a preço. A CCE não queria necessariamente ser a marca mais sofisticada da loja. Queria colocar o eletrônico dentro da casa de um consumidor que muitas vezes não conseguia alcançar os modelos mais caros das concorrentes.

Essa fórmula levou a marca muito além do áudio. Na década de 1980, apareceram videocassetes, microcomputadores e videogames. A empresa lançou equipamentos como o MC-1000, computador pessoal cuja fabricação aparece autorizada em documento oficial de 1984, e também colocou seu nome em consoles como Supergame, Top Game e Turbo Game, em uma época em que o mercado brasileiro de videogames tinha vários aparelhos compatíveis com sistemas estrangeiros. Uma portaria da Secretaria Especial de Informática daquele período identifica expressamente a CCE da Amazônia S.A. como responsável pelo projeto do microcomputador.

Depois, a televisão ganhou cada vez mais espaço. E é provavelmente aí que começa a memória afetiva de uma parcela enorme do público.

TV de tubo, controle remoto, videocassete ligado na televisão, antena precisando ser ajustada e o móvel da sala desenhado quase em função daquele aparelho. Para milhões de brasileiros, esse cenário atravessou os anos 1980 e 1990\. E a CCE conseguiu colocar sua marca no meio dessa rotina apostando justamente em preços abaixo dos principais rivais.

Uma reportagem da *Folha de São Paulo* publicada em 1994 mostra o tamanho que o negócio já havia alcançado. A CCE tinha 12,3% do mercado brasileiro de televisores em cores em 1993, depois de registrar 10% no ano anterior. Para 1994, a companhia apostava em chegar a 16%. Entre maio e junho daquele ano, a produção de TVs havia passado de 147 mil para 270 mil unidades, na comparação feita pela própria empresa com igual período do ano anterior.

O preço ajudava a explicar a presença da marca. À época, um executivo da companhia disse à *Folha* que os produtos da CCE custavam entre 5% e 6% menos, em dólar, do que similares dos concorrentes. A empresa dizia conseguir trabalhar dessa maneira porque tinha uma operação bastante verticalizada, produzindo internamente vários componentes.

Não era uma empresa pequena tentando encontrar espaço. Naquele momento, a CCE faturava cerca de US$ 330 milhões. Televisores respondiam por 40% dessa receita e a linha de áudio, por outros 40%. Ou seja: oito de cada dez dólares faturados estavam justamente nos dois tipos de produto que ajudaram a colocar a marca dentro das casas brasileiras.

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Foto: Criação/O POLO

## E aquele aparelho Aiwa? Tem CCE nessa história também

Aqui entra uma curiosidade que muita gente provavelmente não associa à empresa.

Durante parte dos anos 1990 e início dos anos 2000, a CCE também esteve por trás da Aiwa no Brasil, marca japonesa que virou objeto de desejo principalmente por causa dos aparelhos de som e microsystems.

O Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) registra contrato de transferência de tecnologia entre a Aiwa Co. Ltd. e a CCE da Amazônia para fabricação e montagem de equipamentos de áudio e vídeo. A parceria comercial começou em 1996\. Em 2002, quando a Sony assumiu integralmente o controle mundial da Aiwa, a CCE ainda fabricava e distribuía no país uma linha com mais de 40 produtos da marca japonesa.

Então sim: aquela fase dos aparelhos Aiwa enormes, com CD, fita cassete, caixas de som e displays cheios de informação, também passa pela história industrial da CCE e de Manaus.

Só que a própria CCE estava mudando.

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Foto: Criação/O POLO

## A CCE começou a vender praticamente de tudo

Com o passar dos anos, o portfólio virou quase um retrato da evolução da eletrônica dentro das casas brasileiras. Saíram de cena vários aparelhos analógicos e começaram a aparecer DVD players, televisores de LCD, computadores e celulares.

Documentação relacionada aos projetos industriais da antiga CCE da Amazônia e de suas sucessoras em Manaus ajuda a mostrar essa variedade. Há registros de produção de fornos de micro-ondas, DVD players, autorrádios, aparelhos de áudio com CD/DVD/VCD e televisores. Já a Digibras, estrutura que passou a concentrar parte dos produtos vendidos com a marca CCE, aparece com projetos para notebooks, tablets, computadores, celulares, pen drives e TVs de LCD no Polo de Manaus.

É por isso que diferentes gerações lembram de CCE por motivos completamente diferentes. Quem cresceu nos anos 1970 ou 1980 pode lembrar do rádio ou do aparelho de som. Quem viveu os anos 1990 provavelmente lembra das TVs e videocassetes. Já quem começou a usar computador nos anos 2000 talvez conheça melhor a CCE Info, divisão que entrou forte no segmento de PCs, notebooks e netbooks de menor preço.

A marca se adaptava ao eletrônico da vez.

E chegou muito grande à década de 2010\. Logo no primeiro ano da década, entrou oficialmente no mercado brasileiro de celulares, inicialmente com quatro modelos dual chip, voltados principalmente ao público pré-pago. 

Depois criou a linha CCE Mobi. Em 2012, por exemplo, lançou o Mobi S12, com dois chips, Wi-Fi, Bluetooth, TV, rádio FM e câmera de 2 MP. Em 2013, a CCE apresentou smartphones Android como Motion.Plus SK504, K351, SK402 e SR402,

Em 2012, às vésperas de uma mudança decisiva na história da empresa, o grupo ligado à CCE tinha um complexo industrial no Polo de Manaus e aproximadamente 5,9 mil empregados, além de ter registrado faturamento de cerca de R$ 1,6 bilhão em 2011\. Nos cinco anos anteriores, segundo números divulgados pela própria companhia na época, haviam sido produzidos cerca de 2,3 milhões de computadores e 7,4 milhões de televisores.

A escala chamou a atenção de uma gigante do outro lado do mundo.

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Foto: Criação/O POLO

## Lenovo olha para Manaus e paga R$ 300 milhões pela CCE

Em setembro de 2012, a chinesa Lenovo anunciou a compra da CCE por aproximadamente R$ 300 milhões, em dinheiro e ações. O negócio envolvia 100% de três empresas: Digibras Indústria do Brasil, Digiboard Eletrônica da Amazônia e Dual Mix Comércio de Eletrônicos. A conclusão da aquisição ocorreu em janeiro de 2013.

O interesse era fácil de entender.

Na época, o Brasil era o terceiro maior mercado de computadores pessoais do mundo e a Lenovo queria crescer rapidamente por aqui. Ao comprar a CCE, não estava adquirindo apenas três letras conhecidas pelo consumidor. Levava junto uma rede de varejo, conhecimento sobre o público brasileiro e uma base industrial dentro da Zona Franca de Manaus.

A própria Lenovo destacou isso no anúncio. Segundo a multinacional, a compra mais que dobraria sua participação no mercado brasileiro de PCs. A empresa também classificou as instalações da CCE em Manaus como uma base industrial valiosa e afirmou que a companhia, junto de suas afiliadas, era naquele momento o maior empregador dos segmentos de computadores pessoais e eletrônicos de consumo da Região Norte.

A aposta chegou a produzir resultados importantes. No terceiro trimestre fiscal de 2013/2014, a Lenovo informou que suas vendas de PCs no Brasil haviam crescido 378%, levando a companhia a uma participação recorde de 18,6% no mercado nacional. A própria multinacional relacionou esse desempenho, entre outros fatores, à integração da CCE.

Parecia que a história da velha marca brasileira entraria em uma nova fase.

Não foi o que aconteceu.

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Foto: Lenovo

## Três anos depois, a CCE estava de volta aos antigos donos

Entre a compra e 2015, o mercado de tecnologia virou rapidamente. Smartphones cresceram, tablets começaram a perder força e o segmento de PCs passou por mudanças. A própria estratégia da Lenovo também mudou depois da compra da Motorola Mobility, negócio global anunciado em 2014.

A CCE, que tinha construído boa parte de sua força entre consumidores atrás de produtos mais baratos, começou a perder espaço dentro desse novo desenho.

Em 2015, a Lenovo abandonou o mercado brasileiro de televisores. A *IstoÉ Dinheiro* registrou naquele ano o fechamento da fábrica da CCE na Zona Franca de Manaus ligada à operação da companhia e a demissão de 3 mil trabalhadores. Meses depois veio uma decisão ainda mais simbólica: apenas três anos após anunciar a aquisição, a Lenovo vendeu a marca e a fábrica da CCE de volta à família Sverner, seus antigos controladores. O valor dessa operação não foi divulgado.

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Linha de produção da CCE em Manaus (2012) | Foto: Reprodução/Internet

Era uma reviravolta enorme para uma marca que pouco tempo antes havia sido comprada justamente para ajudar uma das maiores empresas de tecnologia do planeta a conquistar o Brasil.

Depois disso, a CCE nunca mais recuperou a presença que havia construído nas décadas anteriores. Os lançamentos desapareceram, a marca perdeu espaço no grande varejo e aquele logotipo que durante anos aparecia em corredores inteiros de lojas de eletrônicos foi ficando cada vez mais raro. Em 2025, a *Exame* descreveu a CCE como uma marca que havia praticamente desaparecido das prateleiras.

## Entre as piadas e a memória de milhões de brasileiros

É impossível contar essa história ignorando um detalhe: a CCE também virou motivo de brincadeira.

A sigla oficial, Comércio de Componentes Eletrônicos, ganhou versões nada carinhosas criadas pelos próprios consumidores. “Começou Comprando Errado” e “Conserta, Conserta e Estraga” estão entre os apelidos que atravessaram os anos e chegaram a ser lembrados até em reportagens sobre o fim da marca. A fama de produto barato acabou caminhando lado a lado com críticas sobre qualidade.

Mas talvez seja justamente essa contradição que explique por que a CCE ainda desperta tanta memória.

Ela não precisava ser a televisão mais sofisticada da loja para estar na sala de casa. Nem o aparelho de som mais caro para animar aniversário, domingo em família ou fita gravada do rádio. Não precisava ter o notebook mais potente para ser o primeiro computador de alguém.

Durante décadas, a empresa apostou em tornar a eletrônica mais acessível — uma estratégia reconhecida inclusive em análises mais recentes sobre sua trajetória. E Manaus esteve no centro industrial dessa transformação.

Dos rádios portáteis dos primeiros anos às TVs de tubo, dos aparelhos de som aos videocassetes, dos videogames aos computadores, dos notebooks aos celulares, a CCE atravessou diferentes fases da tecnologia brasileira.

Hoje ela quase não aparece mais nas lojas.

Mas basta colocar aquelas três letras em uma foto de uma televisão antiga para a conversa começar.

E você: qual produto CCE teve em casa?