Manaus passa de 1 milhão de m² licenciados – e falta de mão de obra abre espaço para automação nos canteiros
Área licenciada para novos empreendimentos cresceu 77% até agosto na capital; No Brasil, 69,1% das empresas da construção relatam dificuldade para contratar ou reter trabalhadores, enquanto, em Belo Horizonte, uma construtora já coloca 12 robôs chineses para trabalhar em obras
Manaus já superou a marca de 1 milhão de metros quadrados licenciados para novos empreendimentos em 2026. Segundo o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), de janeiro a agosto a área licenciada ficou 77% acima dos 596,2 mil metros quadrados registrados no mesmo período de 2025.
O avanço já era visível um mês antes. De janeiro a julho, o Implurb havia contabilizado 981,5 mil metros quadrados licenciados, contra 476,6 mil no mesmo intervalo do ano anterior, alta de 106%. Só em julho foram 255 mil metros quadrados, 344% acima de julho de 2025.
O dado mede área autorizada por alvarás de construção. Portanto, não significa que todo esse volume já esteja em obra. Mas funciona como um indicador do pipeline de projetos e da demanda potencial por equipes, fornecedores, equipamentos e serviços de construção na capital.
A expansão ocorre sobre uma base de emprego já relevante. Em levantamento apresentado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em junho de 2025, Manaus tinha 28.980 trabalhadores formais no setor. A capital havia criado 1.026 vagas na construção apenas entre janeiro e abril daquele ano, liderando as capitais da Região Norte. Na mesma apresentação, a economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, citou explicitamente a escassez de mão de obra qualificada entre os desafios do mercado local.

Quase sete em cada dez empresas têm dificuldade para contratar
O problema de mão de obra não é restrito ao Amazonas. Um quesito especial das Sondagens Empresariais da Fundação Getulio Vargas, por meio do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), mostrou que 69,1% das empresas da construção afirmaram ter problemas para contratar ou reter funcionários em 2025. Em 2024, eram 60,4%. Entre os grandes setores pesquisados, a construção apresentou o maior percentual.
Outro indicador mostra que a dificuldade já afeta diretamente a operação das empresas. Em fevereiro de 2026, 41,6% das empresas da construção apontaram a escassez de mão de obra qualificada como fator limitativo à melhoria dos negócios. Foi o maior resultado para um mês de fevereiro desde 2011, segundo a FGV IBRE.
Em junho, a Fundação voltou ao tema: a falta de trabalhadores permaneceu como o fator que mais limitava o crescimento dos negócios da construção. O quadro ajuda a explicar por que tecnologia, mecanização e automação começam a entrar na discussão não apenas como redução de custo, mas como forma de ampliar capacidade produtiva.
Em Minas, 12 robôs chineses já trabalham em canteiros
Uma construtora mineira decidiu atacar o gargalo diretamente no canteiro. A Minas Brisa colocou 12 robôs da fabricante chinesa BrightMaster Robotics (BMR) para trabalhar em duas obras em Belo Horizonte, segundo reportagem publicada pelo Metro Quadrado em 30 de setembro.
As máquinas executam tarefas como pintura e lixamento de paredes, nivelamento de concreto, medições, limpeza e transporte de materiais. Segundo a construtora, um único operador pode acompanhar três ou quatro equipamentos do mesmo modelo.
A Minas Brisa afirma que passou três anos buscando tecnologias na China para compensar a escassez de trabalhadores. O contato com a BMR acabou evoluindo para uma parceria comercial, e a empresa mineira tornou-se representante da fabricante na América Latina.
Os equipamentos têm preços entre R$ 250 mil e R$ 1 milhão, conforme o modelo. A própria construtora estima que 99% dos modelos recuperam o investimento antes de completar 10 mil metros quadrados de trabalho. Esse payback é uma estimativa da empresa e depende de fatores como taxa de utilização, tipo de tarefa, custo da equipe substituída ou realocada, manutenção e escala da obra.
Segundo o executivo Marcos Almeida Magalhães Jr., mais de dez companhias de capital aberto estavam em fase final de contratação dos equipamentos e cerca de 900 empresas haviam se cadastrado para conhecê-los. São números informados pela Minas Brisa ao Metro Quadrado.

A automação começa a entrar na resposta das empresas
A tendência também aparece na pesquisa da FGV. Entre as empresas que declararam dificuldade para contratar ou reter pessoas (considerando os setores pesquisados, e não apenas a construção), 24,9% disseram em 2025 que estavam mudando processos para reduzir a dependência de mão de obra. Em 2024, eram 18,7%.
A capacitação interna ainda é a estratégia mais citada, por 43,4% dessas empresas, seguida pela oferta de mais benefícios, com 36,2%. Mas a mudança de processos avançou 6,2 pontos percentuais em um ano, sinal de que o problema começa a alterar a forma como as empresas organizam a produção.
Por que essa conta pode fazer sentido em Manaus
Para uma construtora, o retorno de um robô não deve ser comparado apenas com o salário de um trabalhador. A conta inclui produtividade por metro quadrado, disponibilidade de equipes, prazo da obra, retrabalho, segurança, custo de mobilização e a capacidade de tocar mais projetos sem aumentar a força de trabalho na mesma proporção.
Esse raciocínio ganha peso em um mercado com pipeline crescente. Manaus ultrapassou 1 milhão de metros quadrados licenciados em oito meses, ao mesmo tempo em que a principal entidade nacional do setor já identifica escassez de mão de obra qualificada no mercado local e a FGV registra o problema em níveis historicamente elevados no país.
Nem toda etapa de uma obra pode ser automatizada e a viabilidade varia conforme o projeto. Equipamentos importados também exigem treinamento, assistência técnica, peças e volume suficiente de utilização. Mas tarefas repetitivas e padronizáveis, como pintura, lixamento, nivelamento, limpeza, medição e transporte interno, são justamente as primeiras candidatas.
Em um mercado sem crescimento, a automação pode ser tratada apenas como ferramenta de eficiência. Em um mercado que amplia o volume de projetos enquanto encontra dificuldade para contratar, ela passa a funcionar também como capacidade adicional de produção.
Resumo redes: Área licenciada para novos empreendimentos cresceu 77% até agosto na capital amazonense. No Brasil, 69,1% das empresas da construção relataram dificuldade para contratar ou reter trabalhadores. Em Belo Horizonte, uma construtora já coloca 12 robôs chineses para trabalhar em obras, com atuação em tarefas como pintura, lixamento de paredes, nivelamento de concreto e limpeza.