Margem Equatorial pode atrair polo industrial ao Norte, mas produção só é esperada perto de 2030
Descoberta de petróleo leve anima a indústria de óleo e gás, mas investimentos de maior porte ainda dependem da comprovação de reservas comercialmente viáveis
A descoberta de petróleo leve na Margem Equatorial abre perspectivas para a indústria brasileira de óleo e gás, que vê na região potencial para se tornar uma nova fronteira de exploração e produção. Apesar do otimismo, o setor estima que investimentos mais robustos ainda dependem da comprovação de reservas comercialmente viáveis, processo que pode levar de dois a três anos. A expectativa é que, no longo prazo, a atividade impulsione a formação de um polo industrial no Norte do País, nos moldes do que ocorreu em Macaé (RJ) com a exploração da Bacia de Campos.
A cereja do bolo foi a constatação, pela Petrobras, de que o petróleo da região é leve, ou seja, de boa qualidade e poderá ser vendido a um preço mais alto. Se comprovada sua comercialidade, poderá abrir uma janela de oportunidades para a indústria de bens e serviços, tanto brasileira como internacional.
Mas nada vai acontecer no curto prazo, avaliam agentes do setor e a própria Petrobras. A expectativa é de que a produção na Margem Equatorial brasileira seja iniciada próxima ao declínio do petróleo produzido no pré-sal, no Sudeste do País, o que está previsto para meados de 2030. Até que isso ocorra, a expectativa é de investimentos ainda modestos, segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Bens de Serviços de Petróleo (Abespetro), Telmo Ghiorzi.
“Tem de ter muita seriedade, porque, diferentemente da Guiana, que está produzindo, e do Suriname, que já encontrou, nós não encontramos ainda petróleo comercial. Então, antes que isso aconteça, e isso vai demorar ainda dois, três anos, para que a Petrobras declare comercialidade, todos os investimentos serão muito pequenos; eles serão apenas para fazer essa exploração ficar menos difícil, porque é uma região pouco conhecida, tem pouca infraestrutura”, explicou Ghiorzi, que se diz otimista, mas com cautela em relação à nova fronteira.
Até lá, segundo o executivo, os investimentos devem ficar resumidos a “uma sonda aqui, um barco de apoio ali, um barco para fazer, por exemplo, uma parte de controle ambiental, para intervenção ambiental, mas é a parte da logística, que é muito, digamos, simples perante o que vai acontecer depois”, afirmou. A expectativa do executivo é de que, se a descoberta se mostrar comercial e volumosa, pode ocorrer no Amapá algo semelhante ao que ocorreu em Macaé, quando a bacia de Campos foi descoberta, na década de 1970.
“Para se construir um parque industrial na região Norte, vai levar uns 20, 30 anos de muito esforço, como foi com Macaé, para citar um exemplo mais recente. Macaé demorou 20, 30 anos para virar Macaé. É uma decisão muito complexa de tomar e de implementar”, avaliou, referindo-se à cidade fluminense que abriga as empresas de bens e serviços que atendem há décadas as bacias de Campos e Santos, hoje o principal hub logístico e operacional do setor offshore (marítimo) do País.
Segundo relatório do Scotiabank, a Petrobras poderá instalar até cinco plataformas em frente ao Estado do Amapá para produzir na bacia da Foz do Amazonas, onde foi descoberto petróleo leve no poço pioneiro de Morpho, em agosto. Segundo o banco, os investimentos previstos giram em torno dos US$ 35 bilhões. A Petrobras não confirma essas projeções e diz que ainda é cedo para avaliar o quanto será investido no local.

Cinco bacias a serem exploradas
Para a gerente-geral de Óleo e Gás da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Karine Fragoso, não será apenas na frente do Amapá que a produção da Margem Equatorial vai beneficiar a indústria de apoio. A área tem cinco bacias — Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinha, Ceará e Potiguar —, e é possível ter descobertas também em outras perfurações. Na bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte, a Petrobras aposta na campanha do poço Mãe de Ouro, utilizando a sonda que está deixando o poço Morpho. Mãe de Ouro fica próxima a uma descoberta feita em 2024, Pitu Oeste. A estatal avalia que, se Mãe de Ouro se comprovar comercial, poderá demandar um sistema de produção com pelo menos uma plataforma tipo FPSO no local.
“A gente tem uma expectativa alta com relação àquela região, não só o Amapá, mas todas as cinco bacias que acompanham a Margem Equatorial. O que a gente vem falando é muito em função do que a gente tem visto na Guiana e no Suriname e provavelmente vai ver também na Guiana Francesa, que hoje tem autorização para produzir”, explicou Fragoso.
Ela lamenta o atraso de uma década para a Petrobras conseguir a licença ambiental para explorar a Margem Equatorial. Por outro lado, a executiva comemora a chegada à região após os ensinamentos trazidos pelo pré-sal, o maior desafio até então experimentado pela estatal.
“A gente tinha dez grandes desafios para superar no pré-sal, como pressão, temperatura, profundidade, desafios tecnológicos, ambientais, que foram todos superados. Então, a gente chega na Margem Equatorial, de alguma forma, melhor do que a gente chegou no pré-sal, mas são novos desafios que a gente vai encontrar lá também”, ressaltou.
A preparação da mão de obra já começou
Fragoso diz que a preparação na indústria nacional já começou, com ações de capacitação e estruturação de fornecedores no Norte, em diálogo com o Senai do Amapá e as federações das indústrias do Pará e do Maranhão, com foco em engenharia, construção civil e logística. Ela vê na nova fronteira uma oportunidade também de reforçar o conteúdo local, não só na operação, mas também na construção de poços e até de plataformas tipo FPSOs (unidade Flutuante de Produção, Armazenamento e Transferência, na sigla em inglês).
Entre os gargalos para chegar a esse objetivo, a superintendente aponta financiamento, garantias, ajustes tributários e a necessidade de se retomar a integração de módulos no Brasil, além de projetos de plataformas mais “simples” e com módulos menos pesados para ampliar a participação nacional.
“A gente vem estruturando uma forma de multiplicar conhecimento com eles, preparando uma base de conhecimento e também alguns potenciais fornecedores”, informou Fragoso.
De acordo com a executiva, já existe uma indústria fornecedora que atende o Norte do País, como a mineração no Pará, e uma base de agro no Maranhão.
“Então, eu acredito que seja uma grande oportunidade para a gente fazer aquilo que a gente chama do Arco Norte, de construir uma logística de resposta, de fortalecimento de indústria. Acho que vão acontecer as duas coisas: tanto o fornecimento daqui (Sudeste) para lá, mas vai haver também o fortalecimento da base industrial do Norte”, avaliou.
Resumo redes: O setor estima que a comercialidade das reservas pode levar de dois a três anos para ser comprovada. Até lá, os aportes devem se concentrar em exploração e logística. A Firjan já articula capacitação e fornecedores no Amapá, Pará e Maranhão, enquanto o Scotiabank projeta até cinco plataformas e US$ 35 bilhões.