Multilaser passa a montar servidores no Polo Industrial de Manaus e aposta no crescimento dos data centers

Nova linha foi desenvolvida em parceria com a chinesa ZTE e faz parte da estratégia da companhia para ampliar os negócios no mercado B2B

Fachada da fábrica da Multilaser e detalhe técnico de prateleiras com servidores instalados em um rack de data center.
Imagem ilustrativa | Criação/O POLO

A Multilaser incluiu Manaus em uma nova frente de negócios voltada ao mercado de servidores. A companhia está montando na capital amazonense equipamentos desenvolvidos em parceria com a chinesa ZTE e pretende ampliar a oferta para provedores de data centers, setor que vem ganhando espaço com o avanço da inteligência artificial (IA).

Os servidores são montados nos dois complexos fabris operados pelo grupo, em Manaus (AM) e Extrema (MG). A nova linha integra a estratégia da Multilaser de fortalecer a atuação no mercado corporativo, o B2B, que já responde pela maior parcela da receita da empresa.

As informações foram divulgadas originalmente pelo NeoFeed, em reportagem publicada nesta quarta-feira (26), a partir de entrevista com o CEO da Multilaser, André Poroger.

Segundo o executivo, a oferta de servidores atendia até então empresas de diferentes portes e setores e agora está sendo direcionada também aos provedores de data centers.

Segundo o executivo, a oferta de servidores atendia até então empresas de diferentes portes e setores e agora está sendo direcionada também aos provedores de data centers.

“Entendemos que esse pode ser um grande projeto para o grupo. Vemos uma expansão grande de data centers, puxada pela inteligência artificial (IA), e grandes players internacionais do setor vindo para o Brasil, além dos projetos de clientes que já atuam no País”, disse.

A companhia ainda não revelou detalhes sobre escala ou capacidade de produção da nova linha. Os equipamentos foram desenvolvidos em parceria com a ZTE, empresa com a qual a Multilaser já mantém atuação conjunta no segmento de telecomunicações para provedores de serviços de internet (ISPs), com produtos como equipamentos e fibra óptica.

André Poroger, CEO da Multilaser | Foto: Alex Silva/Estadão

B2B já responde por 63% da receita

A aposta em servidores ocorre em meio ao crescimento da área corporativa dentro dos negócios da Multilaser. No segundo trimestre de 2026, a receita do B2B avançou 29,4%, chegando a R$ 607,5 milhões.

O segmento passou a representar 63,3% dos R$ 959,8 milhões de receita total registrados pela companhia no período. A receita geral cresceu 3,2%.

“Hoje, temos dois motores no grupo, mas muito da sustentação da nossa receita tem sido ancorada nesse segmento corporativo. Nós conseguimos ter um equilíbrio de forças e ela acaba sendo uma alavanca para podermos ser mais resilientes e não dependermos 100% do varejo”.

O movimento contrasta com o desempenho das operações voltadas ao consumidor. A receita da divisão Consumer Tech caiu 20%, para R$ 281,2 milhões, enquanto a Consumer Especializou recuou 34,6%, para R$ 71,1 milhões.

“Conseguimos uma ampliação importante dentro do corporativo, o que permitiu manter o crescimento da receita total, mesmo com uma redução drástica do portfólio de Consumer. Mas isso não foi algo que caiu do céu. Nós fomos construindo e nos especializando aos poucos no B2B”, declarou.

Multilaser reduziu portfólio

A mudança de estratégia começou após André Poroger assumir o comando da Multilaser, em abril de 2025. Naquele momento, o grupo vinha de dois anos de prejuízos anuais que, somados, ultrapassavam R$ 1,1 bilhão.

A empresa passou a priorizar rentabilidade em vez de volume e reduziu o número de produtos. A Multilaser tinha 4,4 mil SKUs (Unidade de Manutenção de Estoque) no início da gestão de Poroger e atualmente trabalha com cerca de 1,75 mil. A companhia também deixou categorias como papelaria, utilidades domésticas e produtos para pets para voltar a concentrar o portfólio em tecnologia.

Foto: Reprodução/Internet
“Naquele momento, dobramos de tamanho, tanto em faturamento como em complexidade e estrutura. Fomos entrando em tudo basicamente porque tudo o que você fazia dava certo”, disse Poroger sobre o período da pandemia. “Aí veio a ressaca pós-pandemia e ficamos com muito estoque. Chegamos a ter mais de 5 mil SKUs”.

No segundo trimestre deste ano, a Multilaser registrou lucro líquido de R$ 142,2 milhões, crescimento de 619,1%. O Ebitda chegou a R$ 119,2 milhões, alta de 286,6%, enquanto a margem Ebitda passou de 3,3% para 12,4%.

A companhia também saiu de uma dívida líquida de R$ 157,9 milhões no segundo trimestre de 2025 para um caixa líquido de R$ 405,9 milhões no fim de junho deste ano.

“Antes, tínhamos que trocar o telhado no meio de uma tempestade. Agora, o clima é mais favorável e temos uma operação mais saudável. Obviamente, nosso mercado ainda é cheio de desafios. Nunca é uma linha reta. Mas esse caixa pode nos ajudar a acelerar algumas frentes”.

Produção para outras marcas

Além dos servidores, o B2B da Multilaser reúne PCs e tablets destinados ao governo, memórias e componentes, equipamentos de fitness e produtos de áudio profissional.

Outra frente são os contratos pelos quais a companhia fica responsável pela fabricação de parte do portfólio de multinacionais no mercado brasileiro. Entre os acordos citados pela empresa estão Oppo, de smartphones, Hisense, de televisores, e DJI, de drones.

Foto: Reprodução/Internet

A Multilaser também controla a Watts, empresa de mobilidade elétrica adquirida em 2022. Por meio dessa operação, produz o portfólio brasileiro da indiana Royal Enfield e mantém linhas próprias. O grupo tem direcionado essa frente principalmente para bicicletas e scooters elétricas diante do crescimento da demanda por veículos de baixa velocidade.

Apesar da melhora nos resultados e do avanço do B2B, a companhia mantém uma postura de cautela. Poroger citou os juros no Brasil e os conflitos internacionais que afetam a cadeia de fornecedores como fatores de atenção para os próximos meses.

“Nossa toada ainda é de cautela, pois o mercado ainda não permite. Mas estamos mais preparados para esse momento, pois agora temos um colchão e muitos aprendizados que tiramos do que passamos”, afirmou.