“Não façam esse investimento agora”: Sedecti pede a empresas que ouçam o Amazonas antes de investir fora
Segundo o secretário executivo da Sedecti, Anderson Grimm, a equipe estadual está à disposição para fazer simulações específicas com empresas interessadas na ZFM
Diante de empresários do setor farmacêutico reunidos em São Paulo, o Governo do Amazonas fez um pedido objetivo a quem esteja estudando levar uma nova fábrica para outro estado ou mesmo para fora do Brasil: antes de decidir, coloque a Zona Franca de Manaus (ZFM) na conta. A proposta é que a própria equipe estadual sente com cada companhia e mostre quanto os incentivos representam para o produto que ela pretende fabricar.
O convite foi feito pelo secretário executivo da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Anderson Grimm, durante o Amazonas Invest Farma, realizado nesta terça-feira (22), no AYA Hub.
Ao apresentar os incentivos federais administrados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), além dos benefícios estaduais, Grimm destacou que o crédito estímulo do ICMS (imposto estadual) possui faixas de 55%, 75%, 90,25% e 100%. Para medicamentos, segundo o secretário, a faixa é a máxima.
Como cada produto tem um cálculo diferente, a Sedecti se colocou à disposição para fazer uma simulação específica com cada empresa.
“Muitos optam até por contratar uma consultoria, mas a gente pode, resumidamente, mostrar para vocês um resultado. Nós temos uma planilha que a gente pode ali projetar algo para vocês”, disse Anderson Grimm.
A abordagem ajuda a explicar também uma das principais mensagens que o Governo quis deixar ao setor farmacêutico durante o encontro: a Reforma Tributária muda quem concede parte dos incentivos, mas não retira o Amazonas das negociações para atrair novas fábricas.
Pela manhã, ao responder a uma pergunta de Karine Atala, sócia-diretora da Atala&Denys e ex-diretora de incentivos fiscais do Amazonas, Grimm reconheceu que o Estado perderá uma ferramenta que hoje está diretamente em suas mãos.
“Pós-reforma tributária, infelizmente o Governo do Estado perde o poder da caneta. Não tem mais como conceder incentivo do ICMS”.
A mudança ocorre porque o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) substituirá o ICMS. No desenho estabelecido para a Zona Franca, a concessão dos incentivos para novos produtos ficará sob competência da Suframa. Isso não significa, segundo o que foi apresentado no painel, que o governo estadual deixe de participar das decisões. Grimm citou o artigo 439 da Lei Complementar nº 214/2025 para afirmar que o Estado continuará envolvido na fixação e na alteração dos Processos Produtivos Básicos (PPBs) e no acompanhamento dos projetos analisados pela autarquia federal.
Karine Atala observou que novos produtos continuarão tendo a possibilidade de receber tratamento incentivado, mas a decisão que hoje passa pela Sedecti será deslocada para a Suframa, com participação do Estado. O secretário afirmou que a estratégia estadual continuará sendo procurar empresas, apresentar o modelo e, quando necessário, atuar como interlocutor junto ao Governo Federal.
Essa transição tem uma importância particular para os medicamentos. Grimm lembrou que o Amazonas já havia colocado o produto na faixa de 100% do crédito estímulo antes mesmo de a Reforma Tributária entrar no horizonte e disse que esse tratamento foi preservado no novo modelo.
Para exemplificar o peso da decisão estadual no desenvolvimento da indústria farmacêutica, citou a chegada da Novamed, do Grupo EMS, a Manaus.
“Quando a Novamed confiou no Estado, ela passou por um bom tempo sem ter projeto aprovado na Suframa. Então, ela só ficou com o incentivo do Estado”, contou.
A dúvida seguinte era inevitável: se a legislação da Reforma faz referência aos produtos incentivados até 2023, o que acontece com uma farmacêutica que ainda não estava instalada em Manaus naquele período?
Karine levou a questão ao secretário destacando uma distinção importante para as empresas que hoje estudam novos investimentos. O incentivo, explicou Anderson, é relacionado ao produto, e não ao CNPJ que já estava instalado na Zona Franca, sempre respeitada a isonomia.
“Nós preservamos aqueles incentivos que foram realizados lá e também os investimentos futuros que estamos aguardando que sejam feitos”, afirmou.
O argumento ganha peso porque o setor já possui movimentos concretos no Amazonas. Na abertura do evento, o secretário-chefe do Escritório de Representação do Amazonas em São Paulo, Alfredo Lins de Albuquerque, afirmou que a Novamed estrutura uma segunda unidade fabril anexa à operação existente, depois de ampliar a fábrica e seu centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Lins também citou a Hypera Pharma, que, segundo ele, teve aprovado o projeto de incentivos estaduais para uma futura planta da subsidiária Brainfarma.
Para quem ainda está em uma etapa anterior e pretende fabricar em Manaus um produto sem PPB definido, a oferta do Estado é começar o caminho antes mesmo da instalação da fábrica.
“A gente pode trabalhar a fixação desse PPB. A gente inicia todo o trabalho, apresenta na Suframa e solicita a fixação do PPB”, explicou Grimm.
Depois da solicitação, o procedimento segue o rito da Suframa, que, segundo ele, dura atualmente cerca de 120 dias e inclui consulta pública.
A ideia apresentada no Amazonas Invest, portanto, não foi apenas colocar uma tabela de incentivos diante das farmacêuticas. O governo tentou mostrar que há uma estrutura montada para acompanhar o projeto desde a avaliação tributária até a interlocução com a Suframa e a definição do processo produtivo.
Anderson Grimm, inclusive, se disponibilizou a acompanhar empresários interessados em visitas a indústrias incentivadas e conhecer o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA). Entre os projetos desenvolvidos pelo Centro, citou uma pesquisa que incorpora o curauá, fibra da biodiversidade amazônica, ao plástico e que já possui parceria com a Tutiplast, empresa amazonense do setor termoplástico.
A Representação do Amazonas em São Paulo pretende cumprir função semelhante do lado de fora do Estado. Alfredo Lins apresentou o escritório como uma porta de entrada para o empresariado paulista, capaz de orientar investidores sobre incentivos, aproximá-los de órgãos reguladores, da Suframa e de centros de pesquisa e organizar visitas técnicas relacionadas à implantação de fábricas e biorrefinarias.
Esse trabalho de convencimento também passou pelos números do Polo Industrial de Manaus. Grimm argumentou que a trajetória dos últimos anos demonstra a capacidade do modelo de manter investimentos mesmo durante o longo debate em torno da Reforma Tributária.
Segundo ele, o faturamento anual do polo está hoje acima de US$ 40 bilhões e registrou US$ 23,5 bilhões entre janeiro e junho de 2026. Bens de informática e Eletroeletrônicos respondiam juntos por cerca de 40% do faturamento, duas rodas por cerca de 20% e o setor químico por aproximadamente 11%, este último grupo é onde a indústria farmacêutica está classificada.
Os investimentos do PIM também chegaram a patamares superiores a US$ 10 bilhões. Na composição dos insumos utilizados pelas fábricas, 60% vinham do exterior, 22% do restante do mercado nacional e 17% da própria região.
O destino da produção deixa claro outro traço do modelo: 85% seguem para o mercado nacional, 13,31% ficam no Amazonas e apenas 1,6% são exportados. Grimm lembrou que a Zona Franca foi estruturada principalmente para abastecer o mercado brasileiro e, por isso, não se deve esperar uma participação elevada das exportações.
Mão de obra
Segundo a Suframa, o Polo Industrial de Manaus registra média de aproximadamente 132 mil empregos em 2026. Grimm usou o dado para argumentar que a incorporação de automação e de tecnologias da indústria 4.0 não necessariamente reduz postos de trabalho. Segundo ele, há fábricas que mudam de forma significativa em poucos meses, incorporando braços robóticos e sistemas automatizados de controle de qualidade, enquanto aumenta a necessidade de qualificação dos trabalhadores.
Ao falar da preparação dessa mão de obra, relatou casos de empresas do setor de informática que teriam levado trabalhadores treinados em Manaus para capacitar equipes de outras unidades no país.
“Ao chegar lá, eles ficaram impressionados com a capacidade produtiva da mão de obra e trouxeram essa mão de obra para ensinar a sua matriz, em qualquer estado brasileiro, seja São Paulo e outros”, comentou Grimm.
Logística
Na logística, Grimm argumentou que a distância física continua existindo, mas deixou de significar ausência de solução. Ele citou as estiagens de 2023 e 2024, quando a redução do nível dos rios obrigou o setor a reorganizar a movimentação de cargas.
Uma das alternativas, realizada pelo Grupo Chibatão e Super Terminais, foi a utilização de estrutura flutuante em outro município, em área com calado para receber navios, com posterior transferência dos contêineres para balsas que seguiram até Manaus. Alfredo Lins reforçou a mesma avaliação na abertura do encontro, ao afirmar que a distância entre o Sudeste e o Norte não é mais uma barreira decisiva para os negócios.
O ponto que amarra essa apresentação à indústria farmacêutica está na forma como outras cadeias se desenvolveram dentro da Zona Franca. O polo de duas rodas foi usado como principal referência. A atividade começou com processos mais restritos e, ao longo dos anos, atraiu fornecedores, incorporou etapas produtivas e formou uma cadeia instalada ao redor das montadoras.
A Moto Honda foi citada como exemplo dessa verticalização. Hoje, segundo o secretário, etapas são realizadas dentro da própria fábrica ou por empresas terceirizadas ligadas à cadeia local. É um caminho semelhante ao que o governo espera ver no setor farmacêutico.
Na avaliação de Anderson Grimm, uma indústria pode chegar inicialmente cumprindo um processo produtivo mínimo e, nos cinco a dez anos seguintes, aumentar sua verticalização, criar raízes no Amazonas e induzir fornecedores a se instalarem perto dela. O primeiro investimento é tratado como o ponto de partida de um efeito multiplicador.
No caso farmacêutico, esse processo ainda poderia encontrar um componente que outras cadeias da Zona Franca não têm na mesma escala: a biodiversidade amazônica. A proximidade de fornecedores de matérias-primas regionais e de centros de pesquisa, segundo Anderson, pode abrir espaço para produtos de potencial farmacêutico e para novas cadeias ligadas à bioeconomia.
O governo reúne essa estratégia sob o conceito “Da Floresta ao Futuro”, que parte dos recursos do interior do Amazonas, passa pela criação de novas cadeias produtivas e chega à diversificação do Polo Industrial de Manaus.
Alfredo Lins associou esse movimento ao avanço do Plano Nacional da Bioeconomia e à expansão dos fitoterápicos no Sistema Único de Saúde (SUS). Na avaliação apresentada durante o evento, a abertura das compras públicas de saúde para produtos de base florestal pode criar mercado para que óleos, resinas e extratos da Amazônia sejam processados localmente e transformados em insumos certificados de maior valor agregado.
Resumo redes: Diante de empresários do setor farmacêutico em São Paulo, o secretário executivo da Sedecti, Anderson Grimm, pediu que empresas interessadas em abrir novas fábricas (no Brasil ou fora do país) coloquem a Zona Franca de Manaus na conta. Segundo ele, a equipe estadual está à disposição para fazer simulações específicas com cada empresa.