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# Novo leilão de gás pode abrir oportunidade para indústrias de Manaus, mas acesso esbarra em infraestrutura
- URL: https://www.jornalopolo.com.br/novo-leilao-de-gas-pode-abrir-oportunidade-para-industrias-de-manaus-mas-acesso-esbarra-em-infraestrutura/
- Published: 2026-08-07T14:27:08.000Z
- Updated: 2026-08-07T14:27:08.000Z
- Description: MME definiu que termelétricas ligadas ao Sistema Interligado Nacional não poderão disputar o gás da União. Leilões de curto prazo serão voltados a consumidores industriais
- Author: Redação
- Tags: Energia, Gás, Zona Franca, PIM, #instagram-ok, #story-ok, #facebook-ok

A decisão do Ministério de Minas e Energia (MME) de direcionar os novos leilões de gás natural da União para consumidores industriais pode abrir uma nova frente de discussão para o Polo Industrial de Manaus (PIM).

O Ministério esclareceu, no último dia 31, que usinas termelétricas que geram energia para o Sistema Interligado Nacional (SIN) não poderão participar dos certames. Nos leilões de curto prazo, previstos para o período entre 2026 e 2030, a participação deverá ser aberta aos consumidores industriais livres.

A partir de 2030, os contratos de longo prazo deverão priorizar segmentos da indústria de base, entre eles os setores químico, siderúrgico e petroquímico. Para Manaus, o tamanho do parque industrial coloca o tema no radar.

Entre janeiro e maio de 2026, as empresas do PIM faturaram R$ 99,64 bilhões, equivalente a US$ 19,26 bilhões, e mantiveram uma média mensal de 130.605 empregos, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

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Distrito Industrial de Manaus | Foto: Fecomércio Amazonas

O setor de duas rodas liderou a participação no faturamento, com 20,73% do total, seguido por bens de informática, com 20,58%, e eletroeletrônico, com 16,20%.

Segmentos com potencial relevante para utilização de gás em processos industriais também têm peso importante no Polo. O setor químico respondeu por 11,05% do faturamento, o termoplástico por 10,38% e o metalúrgico por 8,67%. Somados, representam 30,1% de todo o faturamento do PIM no acumulado até maio.

### Indústria de Manaus já consome gás

O gás natural já ocupa espaço relevante na matriz energética do Amazonas e nos processos produtivos das fábricas instaladas no Polo Industrial de Manaus.

Os dados mais recentes consolidados da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) mostram que o Estado consumiu, em média, 5,7 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia em 2025, crescimento de 5,7% em relação ao ano anterior.

Na indústria, o consumo médio ficou em 190,5 mil m³ por dia. Atualmente, a Cigás atende 79 empresas do Polo Industrial de Manaus, abrangendo segmentos como eletroeletrônico, duas rodas, papel e papelão e químico.

O gás pode ser utilizado pelas indústrias em diferentes etapas da produção, incluindo geração de vapor e eletricidade, aquecimento de fornos e secadores, climatização e outros processos que demandam energia térmica.

Apesar da presença na indústria, a maior parte do gás distribuído no Amazonas ainda é direcionada à geração elétrica. As termelétricas consumiram, em média, 4,8 milhões de m³ por dia em 2025, contra 4,5 milhões de m³/dia no ano anterior, uma expansão de 6,7%. Na prática, as termelétricas responderam por aproximadamente 84% de todo o volume de gás distribuído pela Cigás no Estado.

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Consumo de gás natural na indústria do AM em 2025 ficou em 190,5 mil m³/dia | Foto: Ghis/Vecteezy

A dependência também aparece na matriz elétrica amazonense. Em novembro de 2025, o gás natural representava 81,8% das fontes de geração de energia elétrica ligadas ao SIN no Amazonas, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) divulgados pela Cigás.

### Amazonas tem uma diferença em relação ao restante do país

Apesar do tamanho do mercado industrial e da produção local de gás natural, o Amazonas possui uma particularidade importante em relação aos grandes centros consumidores do país.

O sistema que abastece Manaus a partir de Urucu (Coari), funciona separado da malha integrada de transporte de gás que conecta principalmente as regiões Nordeste, Sudeste e Sul.

Na prática, isso significa que uma indústria de Manaus participar juridicamente de um leilão de gás da União não necessariamente permite que a molécula adquirida em outra região do país seja transportada fisicamente até o Distrito Industrial.

Mas o isolamento físico não significa necessariamente que as empresas amazonenses estejam fora desse mercado. Uma possibilidade a ser discutida é a utilização de estruturas de swap, ou troca de gás, nas quais o fluxo físico pode ser diferente do fluxo contratual.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) define a troca operacional, conhecida como swap, como um serviço no qual os fluxos físico e contratual do gás diferem total ou parcialmente.

Em uma estrutura comercial, por exemplo, uma indústria de Manaus poderia adquirir economicamente determinado volume de gás da União em outra região e negociar com um agente que disponha de gás no Amazonas a entrega de um volume equivalente localmente. Isso evitaria a necessidade de transportar fisicamente a mesma molécula entre o Sudeste e Manaus.

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Base de Urucu | Foto: Agência Petrobras

A possibilidade, entretanto, não está garantida. O swap operacional previsto pela regulamentação da ANP é realizado dentro das instalações de transporte e depende das condições técnicas, contratuais e da oferta do serviço pelo transportador. Como a infraestrutura de Manaus não está conectada à malha integrada nacional, uma operação envolvendo o gás da União e uma entrega equivalente no Amazonas exigiria uma estrutura comercial própria e compatível com as regras dos novos leilões.

A regulamentação e os editais dos certames serão, portanto, determinantes para saber se as indústrias do Polo poderão capturar economicamente os benefícios do gás da União.

### Rede de gás também avança em Manaus

A infraestrutura local de distribuição continua em expansão.

Em fevereiro de 2026, a Cigás possuía 367 quilômetros de rede de distribuição, presente em mais de 30 bairros de Manaus, e atendia mais de 28,7 mil unidades consumidoras. Em março, a companhia informou já ter ultrapassado a marca de 29 mil unidades consumidoras.

Para os próximos anos, o plano de negócios da concessionária prevê R$ 286 milhões em investimentos entre 2026 e 2030, com a expansão da rede para 482 quilômetros e a expectativa de superar 52 mil unidades consumidoras.

### Urucu ganha importância na discussão

Além dos novos leilões nacionais, a expansão da produção de gás dentro do próprio Amazonas pode ter impacto direto sobre a competitividade energética do Polo Industrial.

Em maio deste ano, a Petrobras anunciou planos de investir cerca de R$ 2,5 bilhões no Polo de Urucu e aumentar em aproximadamente 20% a produção de óleo e gás da região nos próximos cinco anos.

![](https://storage.ghost.io/c/ee/22/ee22109b-9ce5-4834-97e4-3d381d4390d0/content/images/2026/08/Novo-leil--o-de-g--s-pode-abrir-oportunidade-para-ind--strias-de-Manaus--mas-acesso-esbarra-em-infraestrutura-4.jpg)

Petrobras deve investir R$ 2,5 bilhões no Polo de Urucu | Foto: Divulgação/Petrobras

O planejamento prevê a perfuração de 22 novos poços, sendo 17 convencionais e cinco remotos, além da implantação de aproximadamente 40 quilômetros de linhas para conectar as novas operações.

O movimento ocorre ao mesmo tempo em que o governo federal busca ampliar a oferta de gás natural e aumentar a concorrência no mercado brasileiro.

Para Manaus, a discussão passa, portanto, por duas frentes: aumentar a disponibilidade do gás produzido no próprio Amazonas e avaliar de que maneira as indústrias do PIM poderão acessar economicamente os novos volumes colocados à venda pela União.

A pergunta que fica para o Polo Industrial é direta:

As indústrias de Manaus poderão comprar o gás mais competitivo da União e receber, por meio de swap ou uma estrutura comercial equivalente, gás produzido no próprio Amazonas?

Com quase R$ 100 bilhões em faturamento apenas nos cinco primeiros meses de 2026 e mais de 130 mil trabalhadores, qualquer redução relevante no custo de energia pode se transformar em ganho de competitividade para a Zona Franca de Manaus.