Projeto de terras raras no Amazonas leva mineradora a comprar fábrica na Bahia

Brazilian Critical Minerals (BCM) assumirá 90% da Sais Nordeste, em Feira de Santana (BA), para garantir sulfato de magnésio ao Ema, projeto de terras raras localizado na região de Apuí

Vista aérea de uma área de mineração com terra avermelhada e um caminhão trafegando por uma estrada de terra.
Foto: Bloomberg

O projeto de terras raras Ema, desenvolvido no Amazonas pela mineradora australiana Brazilian Critical Minerals (BCM), levou a companhia a buscar na Bahia uma peça importante para a futura operação. A empresa fechou um acordo vinculante, nesta segunda-feira (5), para adquirir 90% da Sais Nordeste Indústria e Comércio, fabricante de sulfato de magnésio instalada em Feira de Santana.

A ligação entre uma fábrica baiana e o empreendimento amazonense está justamente no produto fabricado pela Sais Nordeste. O sulfato de magnésio é o principal reagente previsto pela BCM para o processo de recuperação das terras raras encontradas no Ema, localizado na região de Apuí. Em termos simples, é uma das substâncias necessárias para retirar esses elementos das argilas que formam o depósito mineral.

A operação será feita pela Mineração BBX do Brasil, subsidiária brasileira da BCM. Pelo acordo, a companhia pagará um valor nominal de R$ 1 pelos 90% da empresa, mas o negócio envolve uma operação financeira bem maior: a Sais Nordeste está em recuperação judicial e possui aproximadamente R$ 15,3 milhões em passivos tributários federais e estaduais, além de outras obrigações. A maior parte deverá ser renegociada para pagamento ao longo de dez anos.

A fábrica está com as atividades suspensas desde fevereiro de 2026. A BCM informou que financiará e acompanhará a reestruturação financeira e operacional da unidade para colocá-la novamente em condições de produzir. A transferência definitiva dos 90% ainda depende do cumprimento das condições previstas no acordo e de aprovações judiciais, regulatórias e societárias. Os atuais sócios permanecerão com os outros 10%.

Metade da demanda já na primeira etapa

A importância da fábrica para o projeto no Amazonas aparece nos números apresentados pela mineradora. A capacidade inicial da unidade de Feira de Santana deverá ser suficiente para fornecer aproximadamente 50% de todo o sulfato de magnésio necessário ao Ema nos primeiros anos de produção.

Com modificações na estrutura da fábrica, a BCM estima que a produção poderá superar 100% da demanda prevista pelo projeto, o que permitiria à própria companhia controlar no Brasil o fornecimento de praticamente todo o reagente utilizado nessa etapa da operação.

A empresa também fechou acordos para obter no mercado brasileiro as matérias-primas usadas para fabricar o sulfato de magnésio. O ácido sulfúrico deverá vir da unidade da Unigel em Camaçari, a cerca de 80 quilômetros de Feira de Santana, enquanto o óxido de magnésio será fornecido a partir da região de Brumado, também na Bahia.

Na avaliação da BCM, montar essa cadeia dentro do país reduz a exposição do Ema a fornecedores estrangeiros, especialmente à China. A mineradora relaciona a decisão ao aumento dos controles chineses sobre exportações ligadas à cadeia de terras raras, incluindo equipamentos, insumos e conhecimento técnico.

“Antes de podermos fornecer para a emergente indústria de separação e refino de terras raras fora da China, precisamos primeiro garantir que Ema possa produzir MREC de forma confiável”, afirmou Andrew Reid, diretor-executivo da BCM.

O que será produzido no Amazonas

O projeto Ema concentra mineralização de terras raras em argilas de adsorção iônica. A BCM pretende utilizar uma solução com sulfato de magnésio para recuperar esses elementos e, posteriormente, produzir o chamado carbonato misto de terras raras, conhecido pela sigla MREC. Esse material é um produto intermediário que depois segue para etapas de separação e refino.

Entre os elementos presentes no depósito estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, utilizados principalmente na fabricação de ímãs permanentes empregados em motores elétricos, geração de energia renovável e outros equipamentos de alta tecnologia. Segundo a atualização mais recente publicada pela própria BCM, o Ema possui recurso mineral estimado em 1,07 bilhão de toneladas, das quais 392 milhões já estão classificadas na categoria indicada, de maior nível de conhecimento geológico.

Resumo redes: A Brazilian Critical Minerals (BCM) assumirá 90% da Sais Nordeste, em Feira de Santana (BA), para garantir sulfato de magnésio ao Ema, projeto de terras raras localizado na região de Apuí. A planta deve atender metade da demanda inicial do empreendimento e poderá superar 100% após ajustes. O negócio inclui a reestruturação de cerca de R$ 15,3 milhões em passivos e busca reduzir a dependência de insumos chineses.