TBT: durante quase 4 décadas, Sony fez de Manaus a sua casa. Fábrica produziu de Walkman a TVs Trinitron

Se você já teve uma TV Trinitron, uma câmera Cyber-shot ou um Walkman, existe uma boa chance de ele ter sido produzido em Manaus

TBT: durante quase 4 décadas, Sony fez de Manaus a sua casa. Fábrica produziu  de Walkman a TVs Trinitron
Foto: Reprodução/Internet

Quem viveu as décadas de 1980, 1990 e 2000 provavelmente se lembra do peso que o nome Sony carregava nas lojas brasileiras. Televisores Trinitron, aparelhos de som, filmadoras, câmeras Cyber-shot e, mais tarde, as TVs Bravia estavam entre os produtos mais conhecidos da fabricante japonesa. O que muita gente fora do Amazonas talvez não soubesse é que uma parte importante dessa história saía todos os dias de linhas de produção instaladas em Manaus.

A Sony já estava no Brasil desde 1972, inicialmente voltada à importação e distribuição de equipamentos. A virada industrial ocorreu em 1984, quando a companhia instalou sua fábrica na Zona Franca de Manaus.

Televisão foi uma das linhas que ajudaram a construir a imagem da Sony no país. Em 1994, a empresa produziu cerca de 200 mil televisores no Brasil e, no ano seguinte, colocou em andamento um investimento de US$ 10 milhões para aumentar em aproximadamente 40% a capacidade da fábrica de Manaus para TVs, videocassetes e sistemas de áudio. Naquele período, a indústria brasileira de televisores crescia rapidamente com o Plano Real, o avanço do consumo e a disputa entre algumas das maiores fabricantes do mundo instaladas no PIM.

Foi ali que ganharam escala nacional diferentes gerações da Trinitron e, posteriormente, da Wega. Documentos do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mostram contratos envolvendo a fabricação em Manaus de televisores de tela plana de 21, 25, 29, 34 e 38 polegadas utilizando a tecnologia Wega FD Trinitron. Ou seja: aqueles aparelhos pesados, de tubo, que ocuparam as salas de milhares de famílias brasileiras não eram apenas produtos comercializados pela Sony no país, havia produção efetiva no Polo Industrial de Manaus.

E a fábrica não ficou presa à televisão. No começo dos anos 2000, o portfólio já incluía aparelhos de som, DVDs, som automotivo, filmadoras e câmeras digitais. Em 2001, por exemplo, a Sony iniciou em Manaus a fabricação da Cyber-shot DSC-P20, de 1,3 megapixel, num momento em que fotografar sem filme ainda era novidade para boa parte dos consumidores. Poucos anos depois, novas gerações de câmeras digitais também passaram pelas linhas locais.

A linha Walkman também teve produção nacional em sua fase digital. Em 2005, anúncios brasileiros do HD Walkman, capaz de armazenar milhares de músicas, identificavam o aparelho como produzido no Polo Industrial de Manaus.

Uma fábrica que movimentava mais de R$ 1 bilhão

Os números ajudam a dimensionar o tamanho que a operação alcançou. Dados oficiais da Suframa mostram que a unidade da Sony em Manaus faturou R$ 1,02 bilhão em 2004, R$ 1,01 bilhão em 2005 e R$ 980,2 milhões em 2006. Somente nesses três anos, foram cerca de R$ 3 bilhões em faturamento.

No mesmo período, a empresa registrou investimentos anuais de R$ 8,2 milhões, R$ 9,1 milhões e R$ 7,8 milhões, respectivamente, aproximadamente R$ 25 milhões somados entre 2004 e 2006. A média de mão de obra da fábrica também superava mil trabalhadores: eram 1.001 em 2004 e aproximadamente 1.130 tanto em 2005 quanto em 2006.

Mas a operação ainda cresceria bastante: em 2008, no embalo da expansão das TVs LCD, a Sony anunciou que pretendia dobrar a produção desse tipo de aparelho no país. O quadro da fábrica de Manaus chegou naquele ano a aproximadamente 2,2 mil funcionários, cerca do dobro do registrado no início daquele ciclo de expansão. Ao fim de 2007, a empresa dizia deter 15% do mercado brasileiro de televisores LCD.

A crise financeira internacional de 2008 interrompeu temporariamente aquele ritmo. A Sony reduziu produção e realizou demissões em Manaus enquanto promovia cortes em sua divisão de eletrônicos ao redor do mundo. Era uma amostra de uma característica que acompanharia a unidade até os últimos anos: a fábrica amazonense precisava se adaptar não apenas às mudanças tecnológicas, mas também aos movimentos globais de uma das maiores empresas de eletrônicos do planeta.

Do tubo à alta definição

Se as Trinitron ajudaram a marcar uma época, a própria Sony tratou de substituí-las. A produção de televisores de tubo foi encerrada no fim de 2007, enquanto as telas LCD ganhavam espaço. Em 2009, Manaus já fabricava televisores Full HD da linha Bravia, incluindo o modelo XBR9, além da quarta geração de players Blu-ray da companhia.

Em 2011, por sua vez, a Sony anunciou a produção local das câmeras NEX, modelos mais sofisticados, com recursos próximos aos de equipamentos profissionais e gravação de vídeo em alta definição. A nacionalização permitiria, segundo a empresa na época, reduzir em até 30% o preço da linha, com expectativa de comercializar 20 mil unidades naquele ano.

O Brasil vivia então um dos melhores momentos da Sony. Entre os anos fiscais de 2010 e 2011, a companhia praticamente dobrou de tamanho no país e chegou a figurar como sua quarta principal subsidiária no mundo, atrás de Estados Unidos, China e Japão. Para aproveitar o crescimento do consumo e a aproximação da Copa do Mundo de 2014, anunciou um plano superior a R$ 500 milhões em investimentos no Brasil até 2014, envolvendo expansão produtiva, novos produtos, lojas e marketing. Parte dos recursos seria destinada à fábrica amazonense.

A ambição era tanta que, em 2012, a companhia falava em quadruplicar a capacidade produtiva da unidade no Amazonas. Naquele momento, segundo o então presidente da Sony Brasil, Osamu Miura, 67 produtos diferentes já eram fabricados em Manaus. A unidade também foi ampliada naquele período e, às vésperas da Copa, empregava cerca de 1,9 mil trabalhadores.

O Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas chegou a afirmar que a unidade chegou perto de 3 mil trabalhadores por volta de 2010, mas depois iniciou uma trajetória de redução. Em 2020, a própria Sony informava que restavam 220 funcionários na planta.

E até o PlayStation saiu de Manaus

Talvez uma das partes mais curiosas dessa história tenha começado em 2013. Depois de anos vendendo seus consoles importados, a Sony passou a fabricar o PlayStation 3 em Manaus. O videogame de 250 GB chegou ao varejo brasileiro por R$ 1.099, cerca de 30% abaixo do preço da versão importada, que custava R$ 1.399.

A operação tinha uma particularidade: segundo reportagem do UOL publicada à época, a unidade de Manaus tornou-se a primeira fábrica fora da China a produzir o PS3. As dez primeiras unidades nacionais chegaram inclusive a ser usadas em uma campanha promocional da própria PlayStation. A fabricação direta pela Sony durou até 2015, quando o console passou a ser produzido em Manaus por uma operação terceirizada.

A essa altura, a velha fábrica que começara produzindo eletrônicos numa época dominada por televisores de tubo já havia atravessado o videocassete, o DVD, a câmera digital, a alta definição, o Blu-ray, o 3D, o 4K e os videogames. Em 2013, a Suframa ainda aprovou um projeto de diversificação para que a Sony produzisse projetores de vídeo em Manaus. No ano seguinte, outro projeto autorizou a fabricação de componentes de cristal líquido para TVs e monitores, além de fones de ouvido.

A queda acompanhou transformações profundas no mercado. As fabricantes sul-coreanas Samsung e LG ganharam escala no segmento de televisores; câmeras compactas perderam espaço para os smartphones; DVDs e Blu-rays passaram a enfrentar o streaming; e o negócio global de eletrônicos de consumo da própria Sony entrou em sucessivos processos de reorganização. Quando comunicou a decisão de fechar Manaus, porém, a empresa não apontou um único produto ou concorrente como responsável. Disse que considerava o ambiente recente de mercado e as tendências esperadas para seus negócios.

Sony encerrou produção em Manaus, mas fábrica continuou produzindo

Em setembro de 2020, veio o anúncio: a Sony encerraria a produção em Manaus até o fim de março de 2021 e interromperia a comercialização direta de TVs, câmeras e equipamentos de áudio pela Sony Brasil. A decisão colocava fim a 36 anos de produção da companhia no Amazonas.

Mas as máquinas não ficaram paradas. Em dezembro daquele mesmo ano, a Mondial comprou os ativos industriais da Sony. O negócio envolveu a fábrica, equipamentos, laboratórios, salas de testes, estruturas de fabricação de moldes e linhas de montagem. A área total do complexo era de aproximadamente 55 mil metros quadrados, dos quais 27 mil m² construídos. O valor da transação não foi divulgado.

A Mondial assumiu a estrutura a partir de 1º de fevereiro de 2021, inicialmente para transferir sua produção de áudio e vídeo e, depois, abrir novas linhas. Naquele momento, a companhia brasileira já dizia que a aquisição permitiria antecipar em poucos meses projetos que levariam anos para serem implantados do zero. A antiga fábrica japonesa acabaria se tornando também a base da retomada da marca Aiwa no Brasil.

Anos depois, um dado divulgado sobre a nova operação ajudou a dimensionar o que havia passado por aquelas linhas: a antiga fábrica da Sony teria produzido 9,8 milhões de televisores durante sua trajetória.