Super Terminais já soma mais de R$ 70 milhões em investimentos para manter logística do Polo Industrial de Manaus em períodos de seca

Em entrevista a O POLO, diretor-geral Marcello Di Gregorio fala sobre medidas adotadas para enfrentar períodos de vazante, expansão da capacidade, novos equipamentos, inteligência artificial e projetos para Manaus e Itacoatiara

Guindastes verdes operando em píer flutuante do Super Terminais durante movimentação de navio de contêineres em Manaus.
Foto: Divulgação

Para a indústria de Manaus, a descida dos rios deixou de ser apenas um fenômeno acompanhado no calendário amazônico. Depois de duas secas históricas consecutivas, a vazante passou a entrar cada vez mais cedo no planejamento de fábricas, transportadoras, armadores e terminais responsáveis por manter funcionando uma cadeia que depende do transporte aquaviário para trazer insumos e escoar produtos do Polo Industrial de Manaus (PIM).

Foi nesse cenário que o Super Terminais já direcionou mais de R$ 70 milhões para aumentar a resiliência de sua operação diante de eventos climáticos extremos, segundo revelou o diretor-geral da companhia, Marcello Di Gregorio, em entrevista ao portal O POLO. O valor envolve medidas adotadas após as experiências de 2023 e 2024, como ampliação de áreas retroportuárias, aquisição de equipamentos e aumento da capacidade e da flexibilidade operacional.

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Aqui, falar em resiliência hídrica aplicada à logística significa preparar a estrutura para continuar operando mesmo quando o comportamento dos rios altera calados, rotas, prazos e a forma como as cargas chegam ou deixam Manaus. A preocupação ganhou dimensão depois que o Rio Negro atingiu 12,70 metros em 2023, então a menor marca registrada em Manaus, e voltou a quebrar o recorde no ano seguinte, chegando a 12,26 metros em 12 de outubro de 2024, a mínima observada em 122 anos de medições.

Em 2024, a resposta do terminal incluiu uma operação emergencial que levou parte de seu píer flutuante de Manaus para Itacoatiara. Quatro módulos formaram uma estrutura de aproximadamente 240 metros para permitir a continuidade da movimentação de cargas durante o período mais crítico da estiagem. A companhia informou à época que a operação envolveu cerca de R$ 15 milhões. Ou seja, com os mais de R$ R$ 70 milhões agora citados por Di Gregorio, é possível dizer que o Super Terminais aumentou em quase 5 vezes os investimentos em resiliência logística.

“Se nós estávamos preparados para enfrentar os desafios da seca anterior, hoje estamos ainda mais preparados do que em 2023 e 2024”, afirmou o diretor-geral durante a entrevista.

Para ele, as mudanças realizadas desde então deram ao terminal mais margem para reagir a situações extremas sem depender apenas de soluções emergenciais.

A preocupação continua presente em 2026. No início deste mês, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informou que a vazante permanecia, naquele momento, dentro da faixa de normalidade na maior parte da Bacia Amazônica, mas apresentou cenários que exigem atenção para os próximos meses.

Nesta terça-feira (8), o Rio Negro fechou em 23,02 metros, baixando 1.07 metros em uma semana. Dependendo do ritmo de descida, os modelos admitem níveis bastante baixos no auge da seca; em um dos cenários mais severos, a cota pode ficar abaixo de 13 metros no fim de outubro.

Fonte: Porto de Manaus

O próprio Super Terminais voltou ao assunto nos primeiros dias de setembro. A empresa afirmou que ainda não sabe se será necessário repetir em 2026 a transferência de parte do píer para Itacoatiara. A decisão dependerá da evolução da vazante e das condições de navegabilidade, mas a companhia diz manter a estrutura preparada caso a alternativa volte a ser necessária.

Expansão vai além da preparação para a seca

Os R$ 70 milhões voltados à resiliência estão inseridos em um movimento bem maior de modernização do Super Terminais. A companhia trabalha com um ciclo de aproximadamente R$ 400 milhões em investimentos, envolvendo equipamentos, infraestrutura, tecnologia, áreas retroportuárias e projetos de transição energética. Em 2026, diferentes anúncios da empresa passaram a detalhar partes desse pacote.

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Na entrevista a O POLO, Di Gregorio informou que a frota de equipamentos para movimentação de contêineres cheios passou de nove para 19 unidades, enquanto a destinada aos vazios cresceu de oito para 13. O número de veículos operacionais utilizados dentro da estrutura também aumentou de cerca de 40 para mais de 60. Paralelamente, a companhia abriu novas áreas de apoio fora do terminal e reforçou seu centro de controle operacional.

Uma das etapas mais visíveis desse ciclo foi a chegada, em julho, de três novos guindastes elétricos da Konecranes, investimento anunciado em R$ 120 milhões. Com os equipamentos, o terminal passou a contar com seis guindastes elétricos. As máquinas têm capacidade para içar até 125 toneladas, alcance de lança de 64 metros e podem atender embarcações com até 19 fileiras de contêineres.

Outra frente é a ampliação do píer em 120 metros, dos atuais 600 para 720 metros. A mudança elevará de quatro para seis o número de berços e permitirá o atendimento simultâneo de até seis embarcações. A estimativa divulgada pela companhia é de ganho de aproximadamente 30% na capacidade operacional com a expansão.

Também está no plano a implantação de uma usina de gás natural para as operações portuárias, em parceria com a Companhia de Gás do Amazonas (Cigás). O projeto foi anunciado com investimento aproximado de R$ 30 milhões e previsão de fornecimento de energia para dez guindastes elétricos. A estimativa divulgada é de redução de cerca de 17 mil toneladas de CO₂ por ano.

Mais carga do Polo pressiona capacidade

O reforço da estrutura acompanha um terminal que já vem recebendo mais carga. Em 2025, o Super Terminais movimentou 300.723 TEUs, 13% acima do ano anterior, segundo dados do Estatístico Aquaviário da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Em peso, o volume passou de 1,8 milhão para 2,4 milhões de toneladas, crescimento de 33,3%.

Di Gregorio contou a O POLO que a demanda não está concentrada em um único segmento. O terminal percebe aumento principalmente em cargas ligadas aos setores de eletroeletrônicos, duas rodas, bens de consumo, embalagens, polímeros, produtos químicos e componentes industriais. Também ganharam espaço as chamadas cargas de projeto, máquinas, estruturas e equipamentos destinados à implantação ou ampliação de fábricas.

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Esse movimento muda também o tipo de serviço procurado pelas indústrias. Segundo o executivo, a demanda já não se resume a receber o contêiner no porto. As empresas passaram a cobrar mais integração entre terminal, armazenagem e transporte, além de informação operacional em tempo real e maior previsibilidade.

“Mais do que um aumento de volume, estamos observando uma demanda por soluções logísticas completas. O cliente não busca apenas uma estrutura para receber a carga; ele quer agilidade, segurança, informação em tempo real e integração entre porto, armazenagem e transporte”, disse Di Gregorio.

Segundo ele, considerando a área alfandegada e as novas retroáreas colocadas em operação, o Super Terminais aumentou em mais de 50% a capacidade de recebimento e armazenagem de contêineres. A expansão inclui áreas desenvolvidas mais próximas de pontos estratégicos do PIM e do eixo da avenida Torquato Tapajós, numa tentativa de distribuir melhor os fluxos fora da área principal do porto.

Inteligência artificial começa a entrar na operação

A expansão física não é a única frente em andamento. Uma parte menos visível da transformação ocorre nos sistemas do terminal. Desde julho de 2024, o Super Terminais mantém o River Port Hub, plataforma que concentra informações operacionais e permite a clientes, despachantes e parceiros consultar e acompanhar processos logísticos em ambiente digital.

Agora, a empresa tenta levar inteligência artificial para dentro dessas rotinas. Di Gregorio revelou que o terminal trabalha com ferramentas para monitoramento de métricas, emissão de alertas e identificação de riscos operacionais e desenvolveu um assistente capaz de interpretar comandos em linguagem natural.

“A gente implantou um assistente inteligente no nosso sistema, que vai permitir consultar informações operacionais e executar ações, como agendamentos, por meio de comandos em linguagem natural. E estamos lançando um assistente virtual em 3D, capaz de interagir por voz, compreender perguntas e reconhecer pessoas e objetos”, contou.

O assistente 3D está instalado no prédio do Uaká, nome também utilizado pelo mascote da companhia. Segundo Di Gregorio, os projetos vêm sendo desenvolvidos in-house, pela própria equipe de tecnologia da informação do Super Terminais, em um trabalho iniciado em 2025. A estratégia é automatizar tarefas repetitivas sem limitar a tecnologia a uma ferramenta voltada apenas ao atendimento ao cliente.

Novos serviços e armadores estão em negociação

Outra frente tratada na entrevista envolve a conectividade de Manaus com outras rotas. Di Gregorio confirmou que o Super Terminais mantém conversas para novos serviços, aumento de frequências e maior oferta de navios, embora tenha evitado antecipar nomes de armadores ou possíveis rotas por causa das negociações comerciais em andamento.

Segundo ele, o objetivo é aumentar as alternativas disponíveis às empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus e reduzir a dependência de poucas opções logísticas. As tratativas, porém, ainda envolvem análises operacionais e comerciais e cláusulas de confidencialidade, o que impede a divulgação de parceiros antes de eventuais acordos serem concluídos.

Super Terminais defende hidrovias navegáveis o ano inteiro

Para Di Gregorio, investimentos dentro dos portões do terminal resolvem apenas uma parte do problema. Quando questionado sobre a principal medida para tornar a logística amazônica mais competitiva, ele colocou a navegabilidade dos rios durante os 365 dias do ano no topo das prioridades.

A posição ganhou atualidade depois da entrevista. Em 18 de agosto, a Antaq iniciou o ciclo de reuniões participativas para discutir a modelagem da futura Hidrovia Verde, projeto de concessão envolvendo um corredor de 1.602 quilômetros entre Manaus e a Barra Norte, na foz do Rio Amazonas. A proposta ainda está em fase de estudos e participação social.

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“Defendemos o avanço do projeto de concessão dos serviços hidroviários da Amazônia. Não é privatização, é uma concessão de serviços. A melhoria da infraestrutura fluvial, com investimentos permanentes em dragagem e manutenção, é fundamental para reduzir os custos logísticos e aumentar a competitividade do Polo Industrial de Manaus”, afirmou.

O executivo também apontou custos elevados, burocracia e baixa previsibilidade entre os gargalos da logística regional. Na avaliação dele, a dependência de Manaus da navegação faz com que qualquer alteração relevante em rotas ou prazos atravesse rapidamente a cadeia industrial, o que exige não apenas dragagem, mas digitalização e simplificação de processos.

Itacoatiara vira uma nova frente de negócios

Enquanto mantém Itacoatiara como alternativa de contingência em períodos de seca extrema, o Super Terminais também passou a enxergar o município como uma frente permanente de expansão. A empresa estruturou no Rio Amazonas um novo terminal privado para transbordo de granéis, voltado principalmente ao fluxo de grãos e fertilizantes.

Batizado de Super Porto Verde, o sistema tem um píer flutuante de 240 metros de comprimento por 18 metros de largura e três guindastes elétricos. Segundo informações divulgadas pela empresa, os equipamentos podem movimentar conjuntamente até 2.100 toneladas por hora, e a expectativa é de um fluxo entre 100 mil e 200 mil toneladas mensais quando a estrutura estiver em operação. O empreendimento é associado pela companhia a investimentos da ordem de R$ 250 milhões.

Do ponto de vista regulatório, a Antaq já autorizou o início da operação integral do Super Terminais Itacoatiara para movimentação de granéis sólidos. O ato ressalva, entretanto, que a liberação da agência não substitui licenças e autorizações exigidas por outros órgãos. Durante julho e agosto, a companhia ainda descrevia a estrutura como em fase final de preparação operacional.

As duas operações em Itacoatiara têm funções diferentes. Uma é a alternativa já testada para manter o fluxo de contêineres do PIM quando a seca prejudica a chegada de embarcações a Manaus. A outra é um novo negócio voltado a granéis, que insere o grupo de forma mais direta no corredor do Arco Norte.

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Resumo redes: O valor envolve medidas adotadas após as experiências de 2023 e 2024, como ampliação de áreas retroportuárias, aquisição de equipamentos e aumento da capacidade e da flexibilidade operacional.