Após 15 anos de concessões, governo mira aeroportos do interior; Amazonas entra no centro da nova fase
Manaus, Tefé e Tabatinga já são operados pela iniciativa privada. Barcelos, Itacoatiara e Parintins avançam para modelo de concessão regional enquanto demanda aérea cresce e Eduardo Gomes mantém papel estratégico para o Polo Industrial
Quinze anos depois da primeira concessão de um aeroporto federal no Brasil, o setor entra em uma fase bem diferente daquela que marcou o início do programa. Os grandes terminais já foram praticamente todos transferidos à iniciativa privada. Agora, o governo tenta levar investimentos para aeroportos menores, principalmente no interior do Norte e do Nordeste, onde o fluxo de passageiros e voos nem sempre é suficiente para sustentar uma operação privada convencional.
No Amazonas, essa nova etapa já começou. Manaus, Tefé e Tabatinga fazem parte do grupo de aeroportos federais concedidos, enquanto Barcelos, Itacoatiara e Parintins foram qualificados em fevereiro deste ano no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), dentro da estratégia de incorporar terminais regionais a contratos já existentes.
A discussão tem um peso maior em um Estado onde o avião não serve apenas para transportar passageiros. Em vários municípios, a aviação é uma das principais formas de conexão com a capital. Em Manaus, ainda existe um componente industrial importante: o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes é hoje o terceiro maior terminal de cargas aéreas do país e possui 45,6 mil metros quadrados de área destinada a essa operação, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
Boa parte da carga está diretamente ligada ao Polo Industrial de Manaus (PIM), que utiliza o modal para componentes de alto valor, eletrônicos, peças urgentes e mercadorias em que o tempo de transporte faz diferença para a produção.
O terminal de cargas do Eduardo Gomes tem capacidade para receber aproximadamente 300 toneladas simultaneamente e estrutura para processamento de unidades de carga aeronáutica. Isso coloca o aeroporto também dentro da cadeia de suprimentos da indústria.

72 aeroportos já estão sob gestão privada
A história das concessões começou em 2011, com o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte. Desde então, sete rodadas transferiram dezenas de terminais para empresas privadas.
Hoje, 72 aeroportos funcionam sob esse modelo e concentram cerca de 96% dos passageiros dos mercados doméstico e internacional, além de 98% das cargas movimentadas no país, segundo dados apresentados pelo Ministério de Portos e Aeroportos.
Ao mesmo tempo, o mercado cresceu. Os aeroportos brasileiros movimentavam cerca de 99 milhões de passageiros em 2011. Em 2025, o total chegou a aproximadamente 130 milhões. Nos sete primeiros meses de 2026, foram 77,1 milhões, avanço de 5% sobre o mesmo período do ano passado e o maior volume já registrado para o intervalo.
Só que os aeroportos que ficaram de fora das grandes rodadas têm outra realidade. Estão, em geral, em cidades menores, com menos voos, menos passageiros e pouca capacidade de gerar receitas comerciais. É justamente nesse grupo que estão vários terminais do interior amazonense.

Manaus entrou na sexta rodada
O Aeroporto Internacional Eduardo Gomes foi concedido em 2021, dentro do Bloco Norte, vencido pela francesa Vinci Airports. Além de Manaus, o pacote reuniu Tefé e Tabatinga, no Amazonas; Porto Velho, em Rondônia; Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre; e Boa Vista, em Roraima.
A Vinci ofereceu R$ 420 milhões pelo bloco, com contrato de 30 anos. Na época, os investimentos estimados ao longo da concessão chegavam a aproximadamente R$ 1,5 bilhão. Entre 2022 e 2024, a concessionária executou um ciclo de modernização nos sete aeroportos que somou cerca de R$ 1,4 bilhão.
No Amazonas, o Eduardo Gomes recebeu R$ 133,9 milhões em reformas e ampliação do terminal de passageiros. Em Tefé, foram R$ 75,9 milhões, enquanto Tabatinga recebeu R$ 49,6 milhões.
A partir daí, porém, aparece uma dificuldade que obra nenhuma resolve sozinha. Um aeroporto reformado continua dependendo de passageiros, companhias aéreas e frequências regulares para manter a operação.
Manaus tem escala para isso. O Eduardo Gomes movimentou aproximadamente 3,3 milhões de passageiros em 2025, segundo a Vinci, e começou 2026 em alta. No primeiro trimestre, foram cerca de 851 mil passageiros, crescimento de 9,1% sobre igual período do ano anterior, de acordo com dados da concessionária divulgados pela Amazonastur.
O movimento internacional também avançou. No primeiro semestre, a Região Norte ultrapassou pela primeira vez 100 mil embarques internacionais, alta de 30,7%. Manaus apareceu como o segundo aeroporto mais movimentado da região nesse mercado, atrás de Belém.

Tabatinga opera em outra escala
A pouco mais de mil quilômetros da capital, a realidade muda bastante. Tabatinga registrou 28,1 mil passageiros embarcados em 2024. Entre janeiro e setembro de 2025, foram cerca de 24,7 mil.
Em setembro daquele ano, o aeroporto tinha 4.663 assentos disponíveis, mas aproximadamente 2,8 mil passageiros embarcaram, o equivalente a uma ocupação próxima de 60%. Um estudo do Ministério do Turismo apontava ainda que apenas uma companhia mantinha voos regulares de passageiros para o município naquele momento.
É esse tipo de operação que torna a próxima etapa das concessões mais complicada. O aeroporto pode ser fundamental para a cidade e, ainda assim, não movimentar gente suficiente para pagar sozinho a conta de investimentos, manutenção e operação.

Novo modelo tenta viabilizar aeroportos menores
O Programa AmpliAR foi criado justamente para tentar contornar essa limitação. Em vez de realizar uma concessão isolada de um pequeno aeroporto, o governo permite que o terminal seja incorporado ao contrato de uma empresa que já administra um aeroporto de maior porte.
A concessionária assume a operação e os investimentos e pode receber, em contrapartida, mecanismos de reequilíbrio econômico do contrato, como redução de obrigações financeiras ou extensão do prazo da concessão.
A primeira rodada já começou a sair do papel. Em abril, 12 aeroportos foram incorporados ao contrato da concessionária de Guarulhos, com aproximadamente R$ 630 milhões em investimentos previstos. Os terminais estão concentrados principalmente no Nordeste e na Amazônia Legal.
Barcelos, Itacoatiara e Parintins foram qualificados neste ano para avançar pelo programa no Amazonas. Os três municípios, no entanto, têm perfis de demanda bastante diferentes.
Barcelos possui forte ligação com a pesca esportiva e o ecoturismo, atividades que podem ganhar espaço com melhores condições aeroportuárias. Parintins vive uma situação diferente: durante o Festival Folclórico, a demanda por voos dispara, mas cai no restante do ano.
Em 2026, o município iniciou tratativas com companhias aéreas para ampliar as frequências semanais entre Manaus e Parintins, além dos voos extras realizados durante o festival. A dificuldade é transformar uma demanda concentrada em poucos dias em movimento suficiente para sustentar mais frequências durante o ano inteiro.
Coari recebe R$ 90 milhões com recursos públicos
Nem todos os aeroportos do interior seguirão o mesmo caminho. Coari, um dos principais polos de petróleo e gás do Amazonas, está recebendo cerca de R$ 90 milhões do Fundo Nacional de Aviação Civil para a reconstrução do aeroporto.
As obras incluem pista, pátio e terminal de passageiros e devem permitir a operação de aeronaves a jato. Também estão previstos projetos e intervenções em aeroportos como Parintins, Carauari, Eirunepé, Iauaretê e São Gabriel da Cachoeira, além de equipamentos de apoio à navegação em Barcelos.
O desenho que começa a surgir no Estado mistura concessões tradicionais, aeroportos incorporados a blocos privados e terminais que continuarão dependendo de investimento público direto.

Resumo redes: Manaus, Tefé e Tabatinga já são operados pela iniciativa privada. Barcelos, Itacoatiara e Parintins avançam para modelo de concessão regional enquanto demanda aérea cresce e Eduardo Gomes mantém papel estratégico para o Polo Industrial.