De US$ 753 a US$ 1,9 mil: quatro armadoras põem cobranças no caminho de Manaus antes da seca. Comércio e Indústria do AM reagem
ACA e Fieam se unem contra cobranças sem comprovação dos custos, enquanto Antaq diz acompanhar o caso; Eventual disputa pode acabar na Justiça
Quem depende de contêiner para trazer insumos a Manaus ou mandar produtos daqui para outros mercados ganhou um custo a mais para acompanhar de perto na estiagem de 2026. Maersk, MSC, CMA CGM e Hapag-Lloyd já anunciaram cobranças adicionais relacionadas à redução do nível dos rios na rota da capital amazonense, com valores que chegam a US$ 1,9 mil por contêiner refrigerado.
Mas, desta vez, a reação no Amazonas também ganhou peso.
De um lado está o comércio, representado pela Associação Comercial do Amazonas (ACA), que já levou o assunto à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Do outro está a indústria, por meio da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), que decidiu apoiar a iniciativa e admite recorrer à Justiça caso as regras estabelecidas para a cobrança não sejam cumpridas.
No centro da discussão está a chamada Low Water Surcharge (LWS), sobretaxa aplicada pelas companhias de navegação para compensar custos adicionais provocados pela redução do nível dos rios.
Ninguém no setor produtivo amazonense está dizendo que um custo extraordinário comprovadamente provocado pela estiagem não possa existir. O questionamento é outro: por que anunciar a cobrança antes de as restrições de navegação efetivamente aparecerem e como as empresas chegaram aos valores apresentados?
Quatro gigantes
A lista chegou a quatro companhias na última quinta-feira (13), depois que a Hapag-Lloyd anunciou uma LWS de US$ 1.350 por contêiner, para cargas com origem ou destino em Manaus.

A cobrança está prevista para começar em 12 de setembro e alcança todos os tipos de contêineres, tanto nas importações quanto nas exportações. A companhia justificou a medida pelos custos adicionais e desafios operacionais esperados durante a redução do nível dos rios.
Antes dela, Maersk, MSC e CMA CGM já haviam anunciado suas próprias sobretaxas para a rota de Manaus.
A MSC comunicou cobrança de US$ 1,4 mil para contêineres de carga seca e US$ 1,9 mil para refrigerados, com aplicação prevista a partir de setembro.
A CMA CGM anunciou US$ 753 por TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) para cargas de longa distância. A vigência começa em 6 de setembro para embarques destinados a Manaus e em 5 de outubro para cargas com origem na capital amazonense.
Já a Maersk comunicou cobrança de US$ 1.228 por contêiner de 20 ou 40 pés relacionada à estiagem deste ano.
Ou seja: embora todas estejam olhando para o mesmo problema — as limitações logísticas que podem surgir com a vazante —, não existe um valor único para a chamada taxa da seca. Cada companhia apresentou sua própria cobrança.
E é justamente aí que comércio e indústria querem explicações.
Comércio do Amazonas foi à Antaq
A Associação Comercial do Amazonas foi uma das primeiras entidades a reagir aos anúncios.
A ACA protocolou uma petição na Antaq em 4 de agosto, após o comunicado da Maersk. Depois dos anúncios da MSC e da CMA CGM, voltou à agência com uma nova manifestação, apresentada em 10 de agosto.
A discussão chegou também à direção da Antaq. Em reunião com o diretor-geral da agência, Frederico Dias, a associação e seu corpo jurídico apresentaram a preocupação do comércio amazonense com os impactos econômicos das sobretaxas.
O argumento da ACA passa principalmente pelo momento escolhido para anunciar as cobranças.
Em decisão adotada no ano passado, a Antaq estabeleceu parâmetros para a aplicação da LWS, entre eles a referência de 17,7 metros ou menos para o nível do Rio Negro, além da necessidade de fundamentação dos custos extraordinários relacionados às dificuldades de navegação.
Quando a discussão ganhou força nesta semana, porém, o Rio Negro ainda estava vários metros acima dessa referência. Nesta sexta-feira (14), o Rio fechou em 26,6 metros.
A ACA não contesta a possibilidade de existir um custo adicional caso a vazante realmente provoque despesas extraordinárias. O que a entidade exige é que a conta seja demonstrada.
“Não discutimos a possibilidade de uma cobrança quando ela estiver devidamente fundamentada. O que defendemos é transparência”, disse o presidente da ACA, Bruno Pinheiro.

Indústria entra na briga e fala em ir à Justiça
Agora, a ACA ganhou o apoio da indústria amazonense.
O presidente da Fieam, Antonio Silva, confirmou, nesta sexta-feira (14), que a federação está alinhada à associação e afirmou que o setor industrial está preparado para buscar medidas judiciais caso seja necessário.
A manifestação ocorreu antes da abertura da 324ª reunião ordinária do Conselho de Administração da Suframa (CAS), em Manaus.
“Antes de acontecer o evento (seca), já estão ensaiando cobrar. Mas isso a ACA já está acompanhando, está tendo apoio da Fieam e, se necessário buscarmos o efeito jurídico, nós faremos também. Ou seja, estamos preparados para o que der e vier, seja no entendimento, o melhor caminho, seja na forma de recorrer à Justiça”, declarou Antonio Silva.
A preocupação da indústria é especialmente sensível porque a logística aquaviária está diretamente ligada ao funcionamento do Polo Industrial de Manaus (PIM).
As fábricas precisam trazer componentes, matérias-primas e outros insumos para suas linhas de produção e, depois, enviar boa parte do que produzem em Manaus para os grandes mercados consumidores do país.
Qualquer custo adicional no transporte, portanto, pode aparecer tanto na entrada quanto na saída das mercadorias.

Fieam quer ver a conta
Mais do que discutir se a cobrança pode ou não existir, a Fieam quer saber como cada empresa chegou ao valor que pretende cobrar.
Para Antonio Silva, os custos extraordinários precisam ser apresentados de forma transparente para que possam ser analisados pelo setor produtivo.
“Já montamos as tratativas para como a gente vai agir se efetivamente acontecer. Eles têm que montar uma planilha de custos para que a gente possa estudar. Não podemos absorver nenhum custo a mais”, afirmou.
A diferença entre os próprios valores anunciados pelas companhias torna essa discussão ainda mais importante.
Há cobranças divulgadas em dólares por contêiner, outras calculadas por TEU e diferenças conforme o tipo de carga. No caso da MSC, por exemplo, o adicional anunciado para um contêiner refrigerado chega a US$ 1,9 mil.
Para o setor produtivo, portanto, não basta dizer que haverá custos adicionais durante a vazante: é necessário demonstrar quais despesas justificam cada valor.
Por se tratar da agência responsável pela regulação do transporte aquaviário, o órgão está no centro da discussão entre as companhias de navegação e as entidades empresariais do Amazonas.
Após ser procurada pela ACA, a agência indicou que acompanhará a aplicação das sobretaxas e que as companhias precisam fundamentar a necessidade da cobrança.

Segundo a ACA, as regras vigentes estabelecem procedimentos que devem ser cumpridos pelas empresas, incluindo comunicação prévia, apresentação dos critérios operacionais e documentação capaz de demonstrar os custos adicionais.
E é o eventual descumprimento dessas exigências que pode levar a discussão para outro endereço: o Judiciário.
Levar a discussão à Justiça é uma possibilidade condicionada ao cumprimento das regras em vigor. As entidades pretendem recorrer ao Judiciário apenas se identificarem que as armadoras deixaram de seguir as exigências estabelecidas pela Antaq para a cobrança.
A discussão não é simplesmente “pagar ou não pagar”
Apesar do tom de reação, ACA e Fieam não defendem que as companhias arquem sozinhas com qualquer custo extraordinário que efetivamente apareça durante a estiagem.
O próprio presidente da Fieam reconheceu que despesas adicionais comprovadamente necessárias para manter a navegação podem precisar ser absorvidas pela cadeia logística.
“Não somos incoerentes de não atender (a cobrança) para não causar prejuízo na navegabilidade”, ponderou Antonio Silva.
A linha estabelecida pelas entidades é outra: se existe um custo extraordinário, ele precisa ser comprovado.
Essa diferença é importante porque a estiagem de 2026 ainda está em andamento. As companhias estão se preparando para um cenário de redução mais acentuada dos rios nas próximas semanas, enquanto o setor produtivo questiona a antecipação das sobretaxas antes de as restrições mais severas à navegação se materializarem.
No fim, quem pode sentir é toda a cadeia
A discussão pode parecer restrita a armadores, indústrias, importadores e grandes operadores logísticos, mas o impacto potencial vai além.
Quando uma empresa precisa pagar mais para trazer matéria-prima, componentes ou produtos para Manaus, esse custo entra na operação. O mesmo ocorre quando uma indústria precisa gastar mais para escoar sua produção.
Dependendo dos contratos e das negociações entre as empresas, parte desse valor pode ser absorvida internamente ou distribuída ao longo da cadeia.
Foi justamente esse risco que levou o presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado Adjuto Afonso, a entrar na discussão e apoiar a movimentação da ACA.
“Quem vai pagar essa taxa? Os consumidores, os valores serão colocados nas mercadorias”, declarou o parlamentar.

Para quem produz, vende, importa ou exporta a partir de Manaus, a pergunta deixa de ser apenas quanto cada armadora pretende cobrar.
A questão que comércio e indústria colocam sobre a mesa é mais simples: se a conta vai chegar ao Amazonas, quem está cobrando terá de mostrar de onde ela veio.