O que pensa a indústria do Amazonas sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos
Por Antonio Silva, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas
Os Estados Unidos (EUA) aplicaram uma sobretaxa de 12,5% a produtos brasileiros. A medida parece menos uma defesa comercial legítima e mais uma forma de pressão econômica e política amparada em justificativa social. Ao criticar o controle brasileiro sobre a entrada de bens produzidos com trabalho forçado, os EUA ignora avanços institucionais do país e transforma o tema em disputa comercial.
Em vigor 24 de julho, a tarifa substitui a taxa global de 10% e, somada à sobretaxa de 25%, eleva parte das exportações brasileiras a 37,5%. Na prática, cria uma barreira relevante, com risco às cadeias produtivas e aos empregos, sob alegação de fiscalização insuficiente.
A medida adotada após investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, dos EUA, inclui o Brasil entre 54 países com controle considerado inadequado, ao lado de economias como China, Argentina, Austrália, Japão, Índia, Reino Unido e África do Sul. Enquadramento amplo, pouco atento às realidades nacionais e preocupante pelo precedente que estabelece.
O relatório se contradiz ao reconhecer acordos brasileiros contra o trabalho escravo e a Lista Suja, afirmando que o país carece de mecanismos para barrar esses bens.
Para a Zona Franca de Manaus (ZFM) e o Polo Industrial de Manaus (PIM), o fato preocupa. Mesmo que o impacto direto seja limitado, qualquer retração do mercado brasileiro tende a repercutir no Amazonas, pois a força da ZFM depende do consumo interno e da estabilidade das cadeias produtivas.
Por isso, o desempenho do PIM deve ser visto como questão estratégica nacional, e não apenas regional. De janeiro a maio de 2026, o polo faturou R$ 99,64 bilhões, demonstrando resiliência, capacidade de adaptação e relevância em meio à instabilidade externa.
No acumulado do ano, Duas Rodas liderou o faturamento, com 20,7%. Bens de Informática respondeu por 20,6%. Também se destacaram Eletroeletrônicos (16,2%), Químicos (11%), Termoplásticos (10,4%), Metalúrgicos (8,7%) e Mecânicos (6,4%).
Esses dados reforçam que o PIM apresenta diversidade produtiva e ampliada, revelando um modelo industrial robusto e integrado.
As importações de componentes também indicam confiança empresarial. Em maio, os insumos destinados ao PIM somaram US$ 1,4 bilhão, alta de 9,2% ante abril. Ao ampliar compras externas e estoques, a indústria sinaliza expectativa de continuidade da produção — movimento que sustenta mais de 130 mil empregos diretos no PIM.
Os resultados operacionais reforçam essa leitura, pois outros indicadores confirmam a força da indústria amazonense. Em abril, o IBCR-AM, do Banco Central, cresceu 1% ante o mesmo período do ano anterior. A confiança industrial foi otimista, com 58 pontos no ICEI-AM, acima do indicador nacional.
O modelo sustenta produção, empregos, arrecadação e desenvolvimento regional. No cenário de pressão externa e disputas comerciais crescentes, o Brasil precisa defender com firmeza sua indústria, seus mecanismos de controle e a importância nacional da Amazônia produtiva.