Produção manejada de pirarucu cresce mais de 1.800% no Médio Juruá e busca novos mercados institucionais
Previsão para 2026 é de 7,7 mil peixes, equivalentes a cerca de 380 toneladas; Cadeia já abastece escolas de Manaus, rede estadual e Exército e vê espaço para avançar nas compras públicas pelo PNAE e PAA
A produção manejada de pirarucu no Médio Juruá, no Amazonas, passou de 140 peixes, em 2011, para uma previsão de 7,7 mil unidades em 2026. O volume estimado para este ano é de cerca de 380 toneladas, distribuídas por aproximadamente 170 áreas de pesca. Em cerca de 15 anos, a cota autorizada cresceu mais de 1.800%.
O avanço amplia a capacidade da cadeia de atender mercados institucionais e outros compradores fora das comunidades produtoras. Uma das organizações envolvidas nesse processo é a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC), parceira da marca coletiva Gosto da Amazônia e responsável por aproximar o pescado manejado de diferentes canais de comercialização.
Hoje, parte dessa produção já chega à alimentação escolar de Manaus. A ASPROC participa há nove anos de chamadas públicas da Secretaria Municipal de Educação por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). O pirarucu é fornecido em filés sem espinhas, com peças de 1 a 1,5 quilo, formato que facilita o preparo em escala e reduz perdas.
Segundo a nutricionista da Semed Joseline de Almeida Araújo, a compra de alimentos de produtores locais ajuda a movimentar a economia e, ao mesmo tempo, abastece a rede com produtos frescos e nutritivos.
“É importante destacar a importância da agricultura familiar na merenda escolar da rede municipal de Manaus. Ao adquirir alimentos de produtores locais, o município fortalece a economia regional, gera renda para as famílias do campo e garante alimentos mais frescos, nutritivos e de qualidade para os estudantes”, destaca.
Ela também chama atenção para as características do produto fornecido às escolas.
“Além de ser um peixe característico da Amazônia, rico em proteínas e nutrientes essenciais, sua apresentação sem espinhas oferece mais segurança para as crianças, reduzindo o risco de acidentes durante as refeições. Também proporciona mais praticidade para as equipes responsáveis pelo preparo da merenda, agilizando o processamento dos alimentos, diminuindo desperdícios e garantindo maior eficiência na produção das refeições”, complementa.
A relação da ASPROC com compras públicas começou antes da entrada na rede municipal. Em 2014, a Secretaria de Educação do Estado do Amazonas lançou um edital para aquisição do pescado no âmbito do PNAE. No ano seguinte, o Exército Brasileiro também passou a comprar o produto. As duas instituições continuam entre os mercados atendidos pela marca.

Manejo em 13 regiões
O pirarucu comercializado pela Gosto da Amazônia é resultado do manejo sustentável realizado por pescadores locais em 13 regiões do Amazonas. O processo inclui vigilância dos ambientes aquáticos, planejamento, avaliação e contagem dos peixes nos lagos.
A pesca depende de autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que define, para cada região, a quantidade de exemplares que pode ser retirada. É a chamada cota de pesca.
Além de gerar renda, o modelo está ligado à conservação da espécie e à segurança alimentar das comunidades envolvidas. O aumento da produção, porém, não elimina os gargalos da cadeia.
Distâncias geográficas, falta de infraestrutura e dificuldades de processamento, comercialização e distribuição ainda limitam o alcance do pescado. Para a ASPROC, o crescimento das cotas abre espaço justamente para ampliar a presença do pirarucu em políticas públicas de compra de alimentos.
PNAE e PAA como caminho de expansão
A coordenadora de Comercialização da ASPROC, Ana Brito, aponta o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) como instrumentos capazes de ampliar o mercado para a produção familiar amazônica.
“O pirarucu chegou no prato dos nossos alunos pra ficar. Com a demanda gerada por este mercado e o aumento da produção, se cria uma relação justa e equilibrada entre demanda e oferta. Com o controle da pesca, os volumes de pescado crescem a cada ano e com potencial pra atender todos os estados brasileiros que recebem recurso do PNAE e do PAA para compras públicas. O consumo do pirarucu manejado apoia as cadeias produtivas da Amazônia brasileira e a sociobiodiversidade”, afirma.
A estratégia é aproveitar o aumento da oferta para ampliar a presença do produto em escolas, órgãos públicos e outros mercados institucionais, reduzindo a dependência de canais mais restritos de comercialização e criando demanda mais previsível para os pescadores.
Pirarucu também ganha espaço na alimentação escolar
O pescado já faz parte da alimentação escolar da rede municipal de Manaus desde 2017. A presença do produto nas escolas também ganhou projeção nacional.
A receita “steak de pirarucu com banana-pacovã”, preparada no Centro Municipal de Educação Infantil Manuel Bandeira, venceu a etapa estadual do 3º Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, promovido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, ligado ao Ministério da Educação.
O concurso reconheceu, por votação popular, receitas preparadas em escolas públicas atendidas com recursos do PNAE.
Resumo redes: A produção passou de 140 unidades de pirarucu, em 2011, para uma previsão de 7,7 mil unidades em 2026. O volume estimado para este ano é de cerca de 380 toneladas, distribuídas por aproximadamente 170 áreas de pesca, segundo informa a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC).