Real mais forte em 2026 tem ajuda de commodities e juros altos; Para indústria de Manaus, câmbio alivia custo dos insumos

Estudo mostra que a moeda brasileira está mais valorizada do que sua relação histórica com os juros sugeriria. Para o PIM, um dólar mais baixo ajuda a baratear componentes importados. Se o movimento se inverter, parte do aumento tende a chegar ao consumidor pela inflação

Real mais forte em 2026 tem ajuda de commodities e juros altos; Para indústria de Manaus, câmbio alivia custo dos insumos
Distrito Industrial de Manaus | Foto: Reprodução/Internet

O real mais valorizado em 2026 tem ajudado a reduzir o custo de componentes e matérias-primas importados utilizados por indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM), mas parte desse cenário favorável pode estar perdendo força. Estudo divulgado pelo Itaú nesta terça-feira (1º) aponta que a moeda brasileira ficou mais forte do que sua relação histórica com os juros locais normalmente indicaria, sustentada principalmente pelos preços das commodities e pelo elevado diferencial de juros do Brasil em relação ao exterior.

Segundo o banco, petróleo, soja e minério de ferro representam juntos cerca de 40% da pauta de exportações considerada no estudo. A valorização desses produtos aumenta a entrada de dólares no País e tende a favorecer o real. Em 2026, o petróleo teve peso relevante nesse movimento, com a alta dos preços de energia provocada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã melhorando os termos de troca brasileiros, relação entre os preços dos produtos exportados e importados pelo País.

O Itaú identificou ainda que a influência das commodities sobre o câmbio aumentou nos últimos anos. Na amostra entre 2012 e 2026, o coeficiente estimado pelo banco foi de -0,00130, enquanto na janela de 2025 a 2026 chegou a -0,00242, quase o dobro em magnitude. O relatório associa a mudança, entre outros fatores, ao crescimento da participação do petróleo nas exportações brasileiras. Na análise mais recente, fatores globais, commodities e componentes domésticos explicaram cerca de 53% das variações do real capturadas pelo modelo.

Outro suporte veio dos juros brasileiros, ainda muito superiores aos praticados nas principais economias desenvolvidas. Essa diferença favorece operações de carry trade, nas quais investidores convertem recursos para reais e aplicam no mercado brasileiro em busca de retornos maiores. A entrada desse capital amplia a demanda pela moeda nacional e contribui para conter a cotação do dólar. O estudo encontrou relação significativa entre esse prêmio de juros e a parcela da valorização cambial que não era explicada pelos demais fatores analisados.

Para o Polo Industrial de Manaus, essa combinação tem efeito direto sobre a estrutura de custos. O PIM faturou cerca de R$ 121,8 bilhões no primeiro semestre de 2026 e reúne cadeias que compram no exterior placas eletrônicas, semicondutores, displays, motores, componentes mecânicos e outros insumos, enquanto grande parte da produção final é comercializada no mercado brasileiro. Com receitas em reais e parte dos custos em dólar, a valorização da moeda nacional tende a favorecer margens e competitividade.

A diferença pode ser expressiva mesmo sem alteração no preço cobrado pelo fornecedor estrangeiro. Uma compra de US$ 10 milhões em componentes representa R$ 50 milhões com o dólar a R$ 5,00, mas sobe para R$ 55 milhões se a moeda avançar para R$ 5,50. O efeito varia entre as empresas porque contratos de longo prazo, estoques, operações de proteção cambial e diferentes níveis de conteúdo nacional podem reduzir ou adiar o impacto.

O ponto de atenção levantado pelo Itaú é que os dois principais apoios do real começaram a perder intensidade. O impulso das commodities diminuiu nos últimos meses com a redução de parte do choque geopolítico, enquanto o componente associado ao carry trade também devolveu parcela dos ganhos acumulados. Ao mesmo tempo, fatores domésticos passaram a atuar de maneira mais desfavorável à moeda brasileira. Com isso, a diferença entre a valorização observada do real e aquela sugerida por sua relação histórica com os juros caiu para cerca de metade do pico registrado neste ano.

O estudo não projeta uma disparada do dólar nem busca definir uma cotação considerada ideal. A conclusão é que a força do real em 2026 contou com condições que podem mudar ao longo do tempo. Se commodities recuarem enquanto o Banco Central reduzir os juros, por exemplo, o câmbio pode perder simultaneamente dois dos vetores que ajudaram a sustentá-lo, aumentando o peso de questões domésticas como política fiscal, inflação e percepção de risco.

Para as indústrias de Manaus, uma desvalorização persistente do real faria o movimento atual funcionar no sentido contrário. Insumos importados ficariam mais caros, pressionando margens e, dependendo da duração e da intensidade da alta, parte desse aumento poderia chegar ao preço final de televisores, aparelhos de ar-condicionado, motocicletas, celulares e outros produtos fabricados no Polo. O repasse não ocorre de forma imediata nem integral, mas quanto mais prolongada a alta do dólar, maior tende a ser a pressão sobre os custos industriais e a inflação.

Resumo redes: Estudo mostra que a moeda brasileira está mais valorizada do que sua relação histórica com os juros sugeriria. Para o PIM, um dólar mais baixo ajuda a baratear componentes importados. Se o movimento se inverter, parte do aumento tende a chegar ao consumidor pela inflação.