A história do Grupo Simões começa com um menino de 12 anos e o sonho de ter sua própria sorveteria
Antônio de Andrade Simões transforma seu sonho no primeiro negócio aos 19 anos, em 1943, quando abre o Bar e Sorveteria Moderna, em Manaus. Décadas depois, em parceria com Petrônio Pinheiro e Osmar Pacífico, espalha fábricas, Coca-Cola e negócios pela Amazônia
Em 12 de agosto de 1970, um navio da companhia britânica Booth Line chamado Clement chegou a Manaus trazendo uma carga que entraria para a história empresarial da cidade. A bordo estavam as máquinas destinadas à fabricação de Coca-Cola e Fanta pela Refrigerantes da Amazônia S.A. O registro apareceu no Jornal do Comércio do dia seguinte e foi recuperado décadas depois pelo Instituto Durango Duarte em uma extensa cronologia da Manaus daquele período. A empresa responsável por receber e montar os equipamentos era identificada pelo jornal como pertencente ao “Grupo Papaguara”.
Quase quatro meses depois, em 7 de dezembro, outro registro da imprensa local marcava a abertura da fábrica. A Refrigerantes da Amazônia, presidida pelo industrial Antônio de Andrade Simões, inaugurava a unidade na avenida João Coelho (atual Constantino Nery), ao lado da Papaguara, em projeto assinado pelo arquiteto Severiano Porto. A Coca-Cola já havia começado a chegar ao mercado manauara pouco antes da solenidade. Naquele dia, a empresa também apresentava aos consumidores locais as versões laranja e uva da Fanta. A coluna Sim e Não, do jornal A Crítica, chegou a destacar que Manaus seria a quinta cidade brasileira a receber a Fanta Uva, depois de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília.
A fábrica de 1970 é um bom ponto para enxergar o tamanho da mudança que havia ocorrido na vida de Antônio Simões. Mas não é o começo dela.






Fotos: Memorial Petrônio Pinheiro
Quando aquelas máquinas desembarcaram em Manaus, Antônio já acumulava quase três décadas como empresário, tinha passado do pequeno comércio à indústria de alimentos, ajudado a criar a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas e estava no fim de um mandato de cinco anos à frente da própria Fieam. A Coca-Cola ampliaria enormemente a escala dos negócios que viriam depois, mas encontrou um empresário que já conhecia de perto o comércio, a produção e as instituições industriais da cidade.
A história que o próprio Grupo Simões preserva começa atrás do balcão de uma padaria. Antônio tinha 12 anos quando começou a trabalhar no negócio, já com um grande sonho em mente: ter uma sorveteria. O Memorial Petrônio Pinheiro, ao reconstruir posteriormente a trajetória dos fundadores, registra que ele passou pelas diferentes tarefas da atividade (da panificação à fabricação de bolachas) e atribui a Simões uma frase que ajuda a entender essa formação prática:
“Se alguém deseja ter sucesso em algum negócio, que lhe conheça bem os segredos”.
Aos 19 anos, em 1943, veio o primeiro empreendimento próprio, justamente fruto de seu grande sonho: o Bar e Sorveteria Moderna, marco que o Grupo Simões adota oficialmente como início de sua história empresarial. Era uma Manaus bastante diferente da capital industrial construída nas décadas seguintes. A economia amazonense ainda sentia as consequências da perda da posição que havia ocupado durante o primeiro ciclo da borracha. A Fieam, em sua própria reconstrução histórica, descreve o período posterior à derrocada da economia gomífera como marcado por longos intervalos de estagnação, interrompidos por uma retomada na década de 1940, quando a Segunda Guerra Mundial voltou a elevar a demanda pela borracha amazônica.
Foi nesse mercado que Simões saiu da condição de trabalhador para a de comerciante. O passo seguinte foi mais significativo porque mudou a natureza do negócio. Em 1957, a cronologia oficial do Grupo Simões registra a inauguração da Panificação e Pastifício Guarani Ltda., apresentada pela companhia como a primeira fábrica de massas e biscoitos de Manaus. Mais tarde, aquela operação ficaria conhecida como Papaguara Massas Alimentícias.


Fotos: Memorial Petrônio Pinheiro
Há uma diferença entre registros posteriores sobre essa fase da vida de Simões. Enquanto o Grupo Simões fixa 1957 como a inauguração da Panificação e Pastifício Guarani, posteriormente Papaguara, o Memorial Petrônio Pinheiro menciona 1962 ao narrar uma reorganização dos negócios e a abertura de uma fábrica de massas e bolachas sob o nome Papaguara. Como as fontes descrevem marcos diferentes e a cronologia empresarial atualmente adotada pelo próprio grupo situa a origem industrial em 1957, é essa a data usada aqui para o início da operação.
O que importa para compreender a trajetória é que a passagem para a fabricação aconteceu antes de a Zona Franca assumir a configuração industrial que hoje caracteriza Manaus. E essa distinção precisa ser feita com cuidado: a Zona Franca de Manaus (ZFM) já existia juridicamente desde 1957, criada pela Lei nº 3.173 como um porto livre voltado ao armazenamento, beneficiamento e retirada de produtos estrangeiros. A regulamentação veio em 1960. O modelo foi profundamente reformulado apenas em 28 de fevereiro de 1967, com o Decreto-Lei nº 288, que estabeleceu os incentivos e definiu a ZFM como centro industrial, comercial e agropecuário. Foi também a partir dessa mudança que nasceu a Suframa no formato que passaria a administrar o modelo.
Antônio Simões, portanto, não entrou na atividade industrial quando as grandes fábricas incentivadas começaram a aparecer. Quando o Decreto-Lei nº 288 foi publicado, a fábrica de massas já estava em sua trajetória havia uma década. E sua presença na organização empresarial do Estado já era ainda mais visível.
Em 3 de agosto de 1960, cinco lideranças sindicais empresariais assinaram a ata de criação da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, a Fieam. Antônio estava entre elas como representante do Sindicato de Panificação. Petrônio Augusto Pinheiro, personagem que voltaria à história de Simões pouco depois, representava o Sindicato das Indústrias de Bebidas. Francisco das Chagas Menezes falava pela extração de borracha; Alcides Ramos Paes, pelo setor de calçados; e Moysés Benarrós Israel, pelas indústrias de carpintarias e serrarias.
A composição daquela reunião diz bastante sobre a indústria amazonense anterior ao atual Polo Industrial de Manaus (PIM). Não havia ainda a concentração em eletroeletrônicos, motocicletas, informática, termoplásticos ou aparelhos de ar-condicionado que se tornaria característica das décadas posteriores. A Fieam descreve a base industrial daquele momento como uma combinação do beneficiamento de produtos extrativistas com a produção de bens de consumo: borracha, madeira, calçados, bebidas e panificação eram alguns dos setores que estavam formalmente representados.
A primeira diretoria da Federação também colocou Simões e Petrônio lado a lado. Abrahão Sabbá assumiu a presidência; Moysés Israel ficou na primeira vice-presidência; Carmine Aronne, na segunda; Petrônio Pinheiro tornou-se primeiro-secretário; Francisco Menezes, segundo-secretário; e Antônio Simões assumiu como primeiro-tesoureiro. A sede provisória funcionava no prédio da Associação Comercial do Amazonas (ACA). A Carta Sindical seria expedida em maio de 1961, e a primeira diretoria regular seria eleita naquele ano.
A atuação de Simões na entidade não terminou na fundação. Um registro oficial do Senai Amazonas informa que ele presidiu tanto o Sindicato dos Panificadores quanto a Fieam, entre 1966 e 1971. Seu mandato na Federação, portanto, atravessou exatamente a reformulação de 1967 e os primeiros anos da implantação do novo desenho industrial da Zona Franca. Em 1968, um ano depois do Decreto-Lei nº 288, foi lançada a pedra fundamental do Distrito Industrial; até o fim daquela década, pelo menos 35 empresas já haviam recebido aprovação da Suframa para entrar em atividade.
Há também um registro federal da atuação de Simões no Sistema Indústria. Uma ata do Tribunal de Contas da União, referente a uma tomada de contas, identifica Antônio de Andrade Simões como diretor regional do Sesi no Amazonas no exercício de 1967. O processo foi levado ao plenário do TCU em setembro de 1970, e o voto foi pela regularidade das contas e quitação dos responsáveis.
Foi nesse ambiente que a relação empresarial com Petrônio ganhou outra dimensão.
Os dois não eram desconhecidos quando decidiram fazer negócios juntos. Já apareciam na mesma diretoria provisória da Fieam em 1960 e participavam das discussões sobre a indústria regional. O Memorial Petrônio Pinheiro relata que Antônio convidou Petrônio a ingressar como sócio cotista da Papaguara Comercial e descreve a relação entre os dois como marcada por grande confiança. A Brasil Norte Bebidas, fonte institucional da antiga divisão de bebidas do grupo, fixa 1968 como o ano em que Petrônio se tornou sócio de Antônio.
Naquele mesmo ano, segundo a empresa, os dois começaram a negociar com a The Coca-Cola Company e deram início à construção de uma fábrica de refrigerantes. Há até um registro público que ajuda a mostrar que a ligação patrimonial entre os dois já existia naquele período: um ato publicado posteriormente pelo Estado do Amazonas faz referência a uma escritura pública de janeiro de 1969 relativa a um imóvel pertencente conjuntamente a Antônio Simões e Petrônio Pinheiro.

Petrônio Pinheiro e Antônio Simões | Foto: Memorial Petrônio Pinheiro
A cronologia oficial do Grupo Simões marca 1970 como o ano da aquisição da franquia da Coca-Cola em Manaus. Não há choque necessário entre as duas datas: a Brasil Norte Bebidas descreve 1968 como o começo da sociedade, das negociações e da construção, enquanto o Grupo registra 1970 como o marco da franquia. Os documentos de imprensa daquele ano completam o percurso: equipamentos chegando de navio em agosto e a fábrica presidida por Antônio sendo inaugurada em dezembro.
A Refrigerantes da Amazônia S.A. nasceu com 30 mil metros quadrados de área construída, capital de 400 mil cruzeiros, sete caminhões, 104 funcionários e um Crown-Cork 28 (equipamento de envase de refrigerantes com 28 válvulas de enchimento, acoplado a uma máquina de colocação de tampas tipo “crown”, a conhecida tampinha metálica de garrafa). São números modestos quando comparados à escala que a divisão de bebidas atingiria décadas depois, mas já significavam uma estrutura industrial e logística que ia muito além dos negócios de alimentação dos anos anteriores.

O momento em que a fábrica entrou em operação também é significativo para entender a Manaus em que ela nasceu. Na mesma semana em que o jornal A Crítica registrava a inauguração da Refrigerantes da Amazônia, jornais locais noticiavam fábricas começando a ser implantadas no Distrito Industrial. O novo modelo da Zona Franca tinha pouco mais de três anos. A cidade estava no início da transformação que atrairia projetos industriais e mudaria a composição de sua economia nas décadas seguintes.
Para Simões e Petrônio, a fabricação de refrigerantes trouxe um conjunto novo de necessidades. Uma delas era o gás carbônico usado na carbonatação. Naquele período, a unidade fornecedora mais próxima ficava em Belém, a cerca de 1.293 quilômetros de distância, e que o transporte levava aproximadamente cinco dias. A solução encontrada foi incorporar essa etapa à própria estrutura empresarial; 1974 marca o ano de inauguração, em Manaus, da fábrica de gás carbônico Carboman, ou Gás da Amazônia Ltda.
O mesmo ano trouxe outro movimento importante. Em vez de trabalhar exclusivamente com marcas internacionais licenciadas, o grupo começou a produzir uma bebida própria: o Guaraná Tuchaua. A marca seguiria no portfólio da divisão de bebidas por décadas e, quase meio século depois, entraria na combinação de ativos com a Solar Coca-Cola.



Fotos: Memorial Petrônio Pinheiro
A sociedade ainda ganharia um terceiro nome: em 1976, Osmar Alves Pacífico entrou no negócio ao lado de Antônio e Petrônio. A Brasil Norte Bebidas o identificava como economista e contador. Osmar havia trabalhado com assessoria a projetos de implantação de indústrias na então recém-reformulada Zona Franca. A entrada ocorreu no mesmo ano em que o grupo passou a operar a franquia da Coca-Cola em Belém, por meio da Companhia Paraense de Refrigerantes.
A partir dali, falar apenas em uma fábrica de Coca-Cola em Manaus já seria pouco para descrever o negócio.

O avanço pela Região Norte foi acontecendo por etapas e exigiu instalações físicas em mercados separados por enormes distâncias. Em 1979, veio uma unidade de refrigerantes em Rio Branco, no Acre. Em 1982, foram construídas fábricas em Porto Velho, em Rondônia, e Santarém, no Pará. No ano seguinte, Macapá e Marabá receberam novas unidades. Em 1984, começou o envase e a comercialização da Água Mineral Belágua, em Benevides, no Pará; em 1985, Boa Vista ganhou outra fábrica de refrigerantes. Três anos depois, Porto Velho também recebeu uma unidade da Carboman para produção de gás carbônico.
Não era uma expansão baseada apenas em escritórios comerciais ou representantes. A estrutura industrial efetivamente se espalhava. E o problema logístico acompanhava essa escala. Anos mais tarde, quando a divisão operava sob a marca Brasil Norte Bebidas, a própria empresa descrevia sua rotina como o desafio de levar produtos por meios terrestres e fluviais aos pontos de venda mais distantes da região. Em agosto de 2021, antes da associação com a Solar, a divisão informava três fábricas de bebidas, sete centros de distribuição, uma engarrafadora de água mineral e aproximadamente 60 mil clientes espalhados pelo Norte.



Fotos: Memorial Petrônio Pinheiro
Esse desenho ajuda a entender por que a Carboman deixou de ser apenas uma solução interna para uma fábrica de refrigerantes. A unidade de Manaus ganhou companhia em Porto Velho em 1988 e, depois da morte de Antônio, em Belém, em 1995. Com o tempo, o negócio de gases ampliou sua clientela para além do setor de bebidas e passou a atender também atividades como metalurgia, extintores e indústria automotiva. É uma das poucas frentes criadas ainda no período dos fundadores que continuam diretamente dentro do Grupo Simões atual.
Comunicação
Na primeira metade dos anos 1980, a sociedade formada por Simões, Petrônio e Osmar já havia construído uma malha empresarial que ligava vários estados. Foi também nessa fase que o grupo resolveu entrar em um setor completamente diferente: comunicação.
O registro federal da concessão ajuda a reconstruir essa história com mais precisão do que as memórias posteriores. A emissora que acabaria conhecida como RBN havia recebido concessão federal originalmente como Sociedade de Televisão Ajuricaba Ltda., por decreto de agosto de 1976. Registros oficiais situam em 1984 a entrada do Grupo Simões no controle da TV Ajuricaba. Dois anos depois, em 1º de outubro de 1986, uma portaria federal formalizou a mudança da denominação social para RBN, sigla para Rede Brasil Norte de Televisão Ltda.
Antônio não era apenas um investidor distante nesse negócio. O quadro societário aprovado pelas autoridades de radiodifusão em 1986 mostra Antônio de Andrade Simões e Walderez de Paula Simões, sua esposa, como os dois maiores cotistas individuais da RBN, cada um com 562,5 milhões das 1,875 bilhão de cotas então registradas. Petrônio aparecia com 375 milhões; Iclé Baraúna Pinheiro, sua esposa, com 187,5 milhões; e Osmar Pacífico e Renato de Paula Simões (filho de Antônio), com 93,75 milhões cada. Na diretoria, Antônio ocupava formalmente o cargo de diretor-presidente, enquanto Petrônio era diretor-superintendente. Osmar, Renato e Walderez também integravam a direção.

Além disso, o grupo também controlou a Cegrasa, ligada a dezenas de repetidoras no interior do Amazonas, além de atuar com rádio e produção audiovisual. A RBN tornou-se afiliada da Rede Manchete, grupo existente entre 1983 e 1999. A permanência do Grupo Simões nesse setor, porém, seria relativamente curta quando comparada à operação de bebidas: em 1993, já depois da morte de Antônio, o complexo de comunicação foi transferido. Um documento legislativo de 2025 que reconstitui a história da atual Rede Boas Novas informa que o pacote negociado compreendia uma rádio AM, a estação de TV em Manaus, 35 emissoras de televisão no interior do Amazonas, além de uma rádio FM e uma emissora de TV em Porto Velho.

Sucessão
Enquanto avançava para novos estados e novos setores, o grupo começava a lidar com outro problema: os três sócios que haviam construído a organização não estariam para sempre na administração.
Esse movimento começou antes de qualquer sucessão forçada por morte ou doença. O Grupo Simões informa que seu modelo de governança teve origem no fim da década de 1980, quando Antônio, Petrônio e Osmar começaram a preparar a passagem dos negócios. Cada um organizou uma holding familiar, na qual os integrantes de seu núcleo passaram a ocupar a posição de acionistas controladores das empresas.
O Memorial Petrônio dá uma data mais precisa para o início desse trabalho: 1986. Naquele ano, os sócios contrataram o consultor Renato Bernhoeft, especializado em empresas familiares, para auxiliá-los num plano de sucessão, transmissão da herança e proteção patrimonial por meio das holdings familiares. Não se tratava apenas de escolher quem sentaria na cadeira do fundador; a estrutura precisava acomodar três famílias diferentes dentro da mesma sociedade.
A mudança ganhou forma institucional em 1990. O Grupo Simões inaugurou sua sede administrativa em Manaus, criou o Conselho de Administração e colocou o filho de Antônio, Renato de Paula Simões, na presidência da Diretoria Executiva, enquanto o primeiro conselho era formado justamente pelos três sócios: Antônio, Petrônio e Osmar.

O ano trouxe também uma medida objetiva do tamanho que a operação de bebidas havia atingido. O Grupo Simões foi escolhido pela Coca-Cola como “Fabricante da Década de 80”, em uma seleção entre os fabricantes do Sistema Coca-Cola Brasil. Na página em que registra suas premiações, o próprio grupo informa que havia conquistado 70% do mercado regional e produzia mais de 170 milhões de litros de refrigerante.
É uma distância considerável em relação à estrutura descrita na inauguração de 1970, quando a Refrigerantes da Amazônia tinha sete caminhões e 104 empregados. Em 20 anos, o negócio que começou em Manaus havia instalado fábricas e unidades em diferentes pontos da Amazônia, criado marcas próprias e uma operação de gases, entrado na televisão e estruturado mecanismos para transferir a gestão à geração seguinte.
Antônio de Andrade Simões morreu em Manaus no dia 13 de janeiro de 1992. Três dias depois, sua morte chegou ao plenário da Câmara dos Deputados. Em discurso registrado no Diário do Congresso Nacional, o deputado amazonense José Dutra citou a Coca-Cola da Amazônia, a Papaguara e a Rede Brasil Norte entre os negócios associados à trajetória do empresário e destacou que sua atuação já havia alcançado Pará, Amapá, Rondônia, Roraima e Acre.
O pronunciamento também registra a composição mais próxima da família. Antônio, que era casado com Walderez de Paula Simões, deixou cinco filhos: Juarez, Renato, Marcelo, Norma e Célia. O interesse desse dado para a história empresarial não está apenas na genealogia. Dois anos antes da morte do fundador, Renato já havia assumido a presidência executiva; e, com a morte de Antônio, Walderez passou a ocupar a presidência do Conselho de Administração.
Aquele janeiro ainda traria outro golpe para a primeira geração. Sete dias após a morte de Antônio, Petrônio sofreu um acidente vascular cerebral. As sequelas impediram seu retorno à função executiva, e Iclé Baraúna Pinheiro passou a ocupar a posição do marido no Conselho de Administração. Osmar Pacífico morreria em 1994; Petrônio, em 1998. Em poucos anos, a estrutura concebida na segunda metade da década anterior deixou de ser uma preparação teórica para se tornar o mecanismo que sustentaria a continuidade da sociedade entre os herdeiros.
Os negócios continuaram se mexendo e ,em 1994, o grupo abriu a Murano Veículos, concessionária Fiat em Manaus. Em 1995, instalou outra unidade da Carboman em Belém. Em 1997 começou a distribuição da cerveja Kaiser e, em 1999, veio a Shizen Veículos, concessionária Honda na capital amazonense. A organização formada essencialmente em torno de alimentos e bebidas ganhava uma presença mais clara no mercado automotivo.


Fotos: Memorial Petrônio Pinheiro
A mudança de geração também obrigou os descendentes de três famílias que não tinham parentesco entre si a responder a uma questão que os fundadores haviam começado a enfrentar: como continuar sócios quando os herdeiros não haviam escolhido pessoalmente aquela sociedade?
Em 2004, os acionistas e herdeiros assinaram um novo Acordo Societário. Foram instalados um novo Conselho de Administração e o Conselho de Família, este último criado especificamente para tratar dos interesses e expectativas dos núcleos familiares em relação aos negócios. O Grupo Simões informa que o órgão é composto por cinco familiares e funciona separado da Diretoria Executiva, com a responsabilidade de representar as famílias diante da administração e do conselho.
A distinção era importante. A família continuava proprietária, mas isso já não significava necessariamente ocupar a gestão operacional. Um relato da consultoria Höft, que acompanha a governança do grupo, aponta que a segunda geração migrou progressivamente para posições nos conselhos, enquanto executivos não pertencentes às famílias passaram a conduzir áreas operacionais. A terceira geração também entrou nas estruturas de governança e a quarta passou a ser preparada para o papel de acionista. Vanessa Simões Silva Cavalcanti, neta de Antônio, tornou-se presidente do Conselho de Família, uma função que coloca uma descendente direta do fundador numa estrutura criada para administrar justamente a relação entre propriedade familiar e empresa.

Walderez permaneceu ligada ao patrimônio empresarial durante esse processo. Quando faleceu, em outubro de 2021, era descrita como principal acionista do Grupo Simões, embora já estivesse afastada da direção cotidiana, exercida por meio da estrutura de governança. Àquela altura, a operação de bebidas que Antônio ajudara a iniciar mais de meio século antes estava às vésperas da maior transformação societária de sua história.
A dimensão alcançada por esse negócio pode ser medida nos documentos divulgados quando começaram as tratativas com a Solar.
Dados de 2020 apresentados em prospecto protocolado na Comissão de Valores Mobiliários mostram que a operação de bebidas do Grupo Simões registrava R$ 1,481 bilhão de receita líquida, EBITDA ajustado de R$ 183 milhões e lucro líquido ajustado de R$ 90 milhões. O volume indicado era de 97 milhões de caixas unitárias; no padrão usado pelo sistema, cada unidade corresponde a 5,678 litros.
O desenho empresarial também havia mudado muito em relação à antiga Refrigerantes da Amazônia. A divisão era formada por companhias como Brasil Norte Bebidas S.A., Benevides Águas S.A. e Companhia Paraense de Refrigerantes, com produção, engarrafamento e distribuição de produtos da Coca-Cola e distribuição de marcas da Heineken nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima.
Em 9 de agosto de 2021, Solar e Grupo Simões assinaram o Contrato de Associação que estabeleceu as condições para combinar as operações de bebidas. O acordo foi ajustado em dezembro e implementado no início de 2022, com a incorporação da Sipasa S.A. (engarrafadora Coca-Cola ligada ao Grupo Simões) à Solar.

A operação é importante também porque costuma ser resumida de maneira imprecisa como uma venda da Coca-Cola do Grupo Simões. A estrutura anunciada foi diferente. Quando a transação foi concluída em 2 de fevereiro de 2022, a Solar informou que o controle da empresa combinada passaria a ser compartilhado entre as famílias que já controlavam a Solar e as famílias do Grupo Simões, enquanto a The Coca-Cola Company continuaria com participação relevante.
O tamanho da empresa resultante dá outra medida da distância percorrida desde aquela fábrica inaugurada na avenida João Coelho. No fechamento da combinação, a Solar passou a informar 13 fábricas, 44 centros de distribuição, cerca de 15 mil empregados e aproximadamente 400 mil pontos de venda, numa área equivalente a 70% do território brasileiro. O faturamento bruto combinado de 2021 era de aproximadamente R$ 9,8 bilhões. A transação colocou a Solar como segunda maior fabricante do Sistema Coca-Cola no Brasil e, naquele momento, a 13ª maior do sistema global.
Os números mudaram novamente desde então. Em atualização de junho de 2026, a Solar informa capacidade para produzir mais de 4 bilhões de litros de bebidas por ano, cerca de 20 mil trabalhadores, 13 fábricas e 73 centros de distribuição, mantendo atuação em aproximadamente 70% do território nacional. A companhia continua se apresentando como resultado das combinações que formaram a Solar, entre elas a realizada com o Grupo Simões.

A ligação da família com a empresa combinada também permanece visível na governança. A biografia corporativa disponibilizada atualmente pela Solar informa que Renato de Paula Simões, filho de Antônio e aquele que havia assumido a presidência executiva do Grupo em 1990, integra o Conselho de Administração da Solar desde janeiro de 2022.
Para o Grupo Simões, a combinação significou que bebidas deixaram de aparecer entre as divisões operacionais mantidas diretamente pela estrutura empresarial que leva o nome dos fundadores. O grupo atual informa ser formado por seis empresas e uma sede administrativa, organizadas em três áreas: Gases Industriais, Veículos e Logística Portuária. As operações estão localizadas no Amazonas, Pará e Rondônia e geram mais de 500 empregos diretos, segundo a companhia.
A Carboman permanece como ligação direta com uma decisão tomada ainda no período de Antônio. Hoje são duas unidades produtoras de gases, em Manaus e Belém, e um centro de distribuição em Porto Velho, com fornecimento de CO₂ e nitrogênio para diferentes indústrias. No segmento automotivo permanecem negócios que nasceram após a morte do fundador, como Murano e Shizen. E, desde 2020, a companhia também passou a desenvolver uma frente de logística portuária a partir do Terminal Portuário Novo Remanso, em Itacoatiara.