Amazonas fica em penúltimo lugar em ranking de mercado livre de gás e acende alerta para o Polo Industrial de Manaus

Estado recebeu 30,95 pontos e rating D no Relivre 2026

Vista aérea de instalações industriais com tubulações e tanques de armazenamento de gás natural, em Manaus
Foto: Cigás

O Amazonas aparece entre os estados com pior ambiente regulatório para o mercado livre de gás natural no Brasil, segundo a nova edição do Ranking do Mercado Livre de Gás (Relivre). Com 30,95 pontos e rating D, o estado ocupa a 19ª posição entre os 20 estados monitorados, ficando à frente apenas do Pará, único classificado com rating E.

O Relivre é elaborado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), pela Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip) e pela Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace). A nova metodologia acompanha 40 itens regulatórios divididos em quatro pilares.

Para o Amazonas, o resultado ganha peso por causa do Polo Industrial de Manaus (PIM), onde o gás natural é utilizado por grandes fábricas em processos como geração de energia e vapor, aquecimento de fornos e secadores e outras aplicações industriais.

Amazonas está na parte de baixo do ranking

Nenhum dos 20 estados avaliados recebeu rating A em 2026. A distribuição ficou assim:

  • 3 estados com rating B: Alagoas, Sergipe e Minas Gerais;
  • 4 com rating C: Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Paraná;
  • 12 com rating D, incluindo Amazonas, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul;
  • 1 com rating E: Pará.

Isso significa que 65% dos estados avaliados ainda estão nas faixas D ou E, abaixo de 50% de atendimento aos critérios considerados pelo Relivre. Mas o Amazonas está na ponta inferior desse grupo.

A plataforma não apresenta, na tabela principal, a média aritmética das notas dos 20 estados. Ainda assim, é possível afirmar que os 30,95 pontos do Amazonas estão abaixo da média nacional.

Um cálculo conservador, atribuindo a cada estado apenas a pontuação mínima de sua respectiva faixa de rating, já produziria uma média de 35,5 pontos. A média efetiva, portanto, é superior a esse valor.

Onde o Amazonas perde pontos

Dos quatro pilares analisados pelo Relivre, a maior pontuação do Amazonas veio da isonomia entre consumidores cativos e livres.

O desempenho ficou assim:

  • Isonomia entre consumidores cativos e livres: 16,07 pontos;
  • Facilidade de migração: 7,14 pontos;
  • Comercialização: 6,55 pontos;
  • Desverticalização: 1,19 ponto.

Total: 30,95 pontos

Um dos pontos que chama atenção está justamente na facilidade de migração.

No item “consumidor parcialmente livre”, o Amazonas recebeu zero ponto.

Esse mecanismo permite, em ambientes regulatórios que o adotam, que um grande consumidor mantenha parte do seu fornecimento no mercado regulado enquanto negocia outra parcela no mercado livre.

Para uma indústria, essa flexibilidade pode facilitar a entrada gradual no mercado livre e reduzir o risco de uma mudança integral de fornecedor.

O menor desempenho do Amazonas, porém, aparece na desverticalização, com apenas 1,19 ponto.

Esse critério busca avaliar a separação entre diferentes atividades da cadeia, reduzindo potenciais conflitos entre distribuição e comercialização e criando condições para a entrada de novos agentes.

Por que isso importa para o Polo Industrial de Manaus

A discussão está longe de ser apenas regulatória.

O próprio Governo do Amazonas reconhece o gás natural como um insumo relevante para o parque industrial local. No relatório de atividades referente a 2025, o governo aponta o segmento industrial como o segundo maior mercado consumidor de gás em volume no estado e destaca seu uso por empresas de grande porte do PIM.

Dados da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) referentes aos nove primeiros meses de 2024 mostram que o setor industrial consumiu, em média, 191 mil metros cúbicos de gás natural por dia, alta de 9,21% sobre o mesmo período do ano anterior.

Naquele momento, a companhia contabilizava 77 unidades consumidoras industriais, incluindo empresas como Moto Honda, Yamaha, PCE, Caloi, Coca-Cola, Metalfino e Ambev.

É nesse ponto que a abertura do mercado pode afetar a competitividade do Distrito Industrial. Um mercado com mais fornecedores e menos barreiras regulatórias pode ampliar a capacidade das indústrias de negociar contratos, comparar fornecedores e estruturar diferentes formas de suprimento.

Por outro lado, regras que dificultem a entrada de comercializadores ou a migração dos consumidores tendem a reduzir essas alternativas.

A nota do Relivre, porém, não mede diretamente o preço do gás. Também não considera isoladamente fatores como infraestrutura, disponibilidade física do produto ou custo de transporte. Portanto, um rating baixo não significa automaticamente que o gás no Amazonas seja mais caro.

O ranking mede o quanto a regulação estadual facilita ou dificulta o desenvolvimento da concorrência.

Amazonas já havia perdido posições em 2025

O desempenho de 2026 ocorre depois de o Amazonas já ter perdido posições no Relivre no ano passado. Em fevereiro de 2025, ainda sob a metodologia anterior, o estado caiu da 7ª para a 13ª posição, com a nota passando de 48,1% para 43,4%.

Na ocasião, o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip) e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) apontaram como problemas a criação de uma taxa de fiscalização e a exigência de comprovação de volumes de gás pelos comercializadores, previstas em regulamentação da Arsepam. Segundo as entidades, essas exigências reduziam a atratividade do mercado amazonense.

As pontuações de 2025 e 2026 não devem ser comparadas diretamente porque o Relivre alterou sua metodologia neste ano. Mas os resultados mostram que o ambiente regulatório do Amazonas continua distante dos estados mais bem posicionados.

Energia pode ganhar ainda mais peso na disputa por novas indústrias

A questão pode se tornar mais relevante nos próximos anos. Com a implementação da Reforma Tributária e a tendência de redução das diferenças tributárias entre os estados, fatores ligados ao custo de produção, infraestrutura e energia podem ganhar peso na escolha de onde uma empresa instalará uma nova fábrica.

Durante o lançamento do novo Relivre, o presidente da Abpip, Márcio Félix, afirmou que gás natural, preço, disponibilidade e ambiente regulatório tendem a assumir papel maior na atração de investimentos industriais.

Para o Polo Industrial de Manaus, que compete por novos projetos com outros centros industriais do país, o ranking aponta uma agenda clara: não basta ter gás disponível. É necessário criar regras que permitam maior competição pelo fornecimento desse gás.

Hoje, com 30,95 pontos e a penúltima colocação nacional, esse é justamente um dos pontos em que o Amazonas ainda tem espaço para avançar.