Amazonas segue como o estado mais atingido pela seca no Brasil e ameaça volta a preocupar logística e economia
Rios baixos isolam comunidades, encarecem fretes e voltam a pressionar a Zona Franca de Manaus
Na Amazônia, a estiagem não é percebida primeiro no céu. Ela aparece quando os rios começam a desaparecer. E é justamente esse cenário que continua colocando o Amazonas na liderança de um ranking nada positivo. O estado segue com a maior extensão territorial afetada pela seca no Brasil, de acordo com o Monitor de Secas (junho de 2026), coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

O levantamento traz uma notícia que parece boa à primeira vista: a área atingida diminuiu em comparação com os momentos mais críticos dos últimos anos. Segundo o Monitor, entre maio e junho, a área com seca no Amazonas diminuiu significativamente de 60% para 30% do estado com maior território do Brasil.
Mas basta olhar para os rios para perceber que ainda não há muito o que comemorar. A recuperação é parcial e os efeitos da estiagem continuam sendo sentidos em praticamente todos os cantos do estado.

Na Amazônia, quando a água baixa, não é apenas a paisagem que muda. Comunidades inteiras ficam mais distantes porque as estradas daqui são os rios. O barco que leva alimentos demora mais. O combustível custa mais caro para chegar. O atendimento de saúde vira um desafio. Em alguns casos, o isolamento passa a fazer parte da rotina.
Zona Franca
A cada grande vazante, navios precisam reduzir a carga para conseguir navegar sem encalhar. O espaço perdido dentro das embarcações acaba virando um custo extra no frete: a chamada "taxa de pouca água". O resultado aparece no Polo Industrial de Manaus (PIM): matérias-primas chegam mais caras, produtos demoram mais para sair das fábricas e a competitividade da Zona Franca volta a ser colocada à prova.

O histórico recente mostra que a preocupação está longe de ser exagero: em 2023, o Amazonas enfrentou a pior seca desde o início dos registros. Um ano depois, outra estiagem severa voltou a atingir praticamente toda a bacia amazônica. O intervalo entre eventos extremos ficou menor, e essa talvez seja a parte mais preocupante da história.
No ano de 2023, os custos de transporte de insumos e do escoamento da produção chegaram a subir entre 40% e 50% durante a seca histórica, segundo avaliações do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam). À época, mais de 35 empresas do PIM anteciparam férias coletivas. Entre 15 mil e 17 mil trabalhadores foram afetados pela paralisação temporária.
Segundo o setor, a indústria amazonense acumulou mais de R$ 1,4 bilhão em custos adicionais provocados pelas dificuldades logísticas, enquanto a importação pelo modal aquaviário caiu 83% durante o período mais crítico da estiagem.
Agora, os olhos também estão voltados para o Pacífico, com a possibilidade de um novo El Niño, o que reacende o temor de mais uma temporada de rios em níveis críticos, queimadas e dificuldades para quem depende da navegação, seja para trabalhar, produzir ou simplesmente chegar em casa.