ANP mira preço do gás; Disputa pode mexer no custo de 79 fábricas do Polo Industrial de Manaus

Amazonas produz cerca de 14 milhões de m³ de gás natural por dia e tem a maior reserva terrestre do país. Enquanto ANP tenta aumentar a concorrência nacional, discussão ganha importância para indústrias da ZFM

Tubulações de gás natural em uma instalação industrial, com válvulas e medidores visíveis
Foto: ANP

Uma disputa nacional sobre o preço do gás natural pode ter reflexos importantes para a competitividade do Polo Industrial de Manaus (PIM).

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) colocou em consulta pública nesta sexta-feira (7) uma proposta para criar um programa de gás release, obrigando a Petrobras a disponibilizar ao mercado parte dos volumes de gás que atualmente comercializa. A intenção da agência é reduzir a concentração do setor e aumentar a concorrência entre fornecedores.

A proposta prevê leilões anuais entre 2027 e 2030, começando com aproximadamente 8 milhões de metros cúbicos de gás por dia e chegando a 9,2 milhões de m³/d no último certame. Segundo dados apresentados pela ANP, a Petrobras ainda possui cerca de 59% do mercado brasileiro de gás natural.

Para o Polo Industrial de Manaus, a discussão interessa diretamente: atualmente, 79 empresas do PIM são atendidas com gás natural, em setores como eletroeletrônico, duas rodas, químico e papel e papelão.

Foto: Divulgação

Em 2025, essas indústrias consumiram uma média de 190,5 mil metros cúbicos de gás natural por dia, segundo dados divulgados pela Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) em fevereiro de 2026.

ANP questiona margem da Petrobras

O debate ganhou força após o diretor da ANP, Pietro Mendes, afirmar que a Petrobras compra gás de terceiros por cerca de US$ 3,80 por milhão de BTU e vende o produto para distribuidoras e consumidores livres por aproximadamente US$ 12,40.

No mercado termelétrico, segundo os números apresentados pelo diretor, o preço seria de aproximadamente US$ 9,20.

Para Pietro, a concentração na comercialização ajuda a explicar por que o gás natural brasileiro continua caro.

A Petrobras contesta essa avaliação e argumenta que simplesmente redistribuir os volumes já disponíveis entre diferentes empresas não resolve o problema estrutural de oferta do gás no País.

Amazonas tem gás — e muito

No caso amazonense, a discussão ganha um componente adicional.

O Amazonas possui a maior reserva terrestre de gás natural do Brasil e atualmente é apontado como o terceiro maior produtor nacional.

A produção estadual gira em torno de 14 milhões de metros cúbicos por dia, equivalente a aproximadamente 10% da produção brasileira, segundo informações atualizadas do Invest Amazonas com base em dados da ANP.

Boa parte desse gás está associada à Bacia do Solimões e ao complexo de Urucu, ligado a Manaus pelo gasoduto Coari-Manaus.

Complexo de Urucu | Foto: Agência Petrobras

Apesar dessa abundância, o consumo industrial representa apenas uma das utilizações do gás no Estado.

Em 2025, o mercado amazonense demandou cerca de 5,7 milhões de m³/dia de gás natural. Desse total, aproximadamente 4,8 milhões de m³/dia foram destinados à geração termelétrica. A indústria do PIM ficou com os já mencionados 190,5 mil m³/dia.

Mercado livre já começou no Amazonas

Outro ponto importante é que o Amazonas já começou a dar os primeiros passos na abertura do mercado.

Em abril de 2025, a Cigás e a Companhia Energética Amazonense (CEA) assinaram o primeiro contrato do mercado livre de gás natural do Estado. No modelo, a CEA compra o gás e utiliza a infraestrutura de distribuição da Cigás por meio do Serviço de Movimentação de Gás.

O gás será destinado à Usina Termelétrica Manaus I, instalada no Distrito Industrial. Os testes de comissionamento do empreendimento estavam programados para ocorrer entre abril e junho de 2026.

A Petrobras já possui autorização como comercializadora no Amazonas e, em 2025, a Eneva também recebeu autorização da Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados e Contratados do Estado do Amazonas (Arsepam) para atuar nessa atividade.

Na prática, portanto, o arcabouço para um mercado com diferentes fornecedores começa a existir.

Para as fábricas do PIM, entretanto, a questão central será saber se essa abertura conseguirá gerar competição real pela molécula de gás e preços menores para o consumidor industrial.

PIM fatura R$ 121,7 bilhões no 1° semestre

O peso dessa discussão aumenta quando se observa o tamanho atual da indústria de Manaus. Entre janeiro e junho de 2026, o Polo Industrial de Manaus faturou R$ 121,76 bilhões, segundo os dados disponibilizados nesta sexta-feira (7) pela Suframa. Na comparação anual, houve crescimento de aproximadamente 10%.

Os segmento de Bens de Informática, Duas Rodas e Eletroeletrônico mantiveram a liderança no período. Juntos, os três segmentos concentraram 57,68% de tudo o que foi faturado pelas indústrias no período.

Foto: Positivo

Reduções estruturais no custo de energia, portanto, podem ter impacto relevante sobre um parque industrial que deve novamente superar a marca de R$ 240 bilhões em faturamento anual caso mantenha o atual ritmo.

Cigás prevê R$ 286 milhões em investimentos

A Cigás aprovou um plano de negócios para 2026 a 2030 que prevê R$ 286 milhões em investimentos e a construção de aproximadamente 126 quilômetros adicionais de gasodutos. A meta é ultrapassar 50 mil unidades consumidoras no Amazonas até o fim da década.

No início de 2026, a rede de distribuição possuía aproximadamente 367 quilômetros de extensão, e a Cigás figurava como a terceira maior distribuidora brasileira em volume comercializado entre as empresas acompanhadas pela Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás).

O que muda para a Zona Franca?

O programa proposto pela ANP não significa que as indústrias de Manaus passarão automaticamente a pagar menos pelo gás.

A formação do preço para uma fábrica depende da molécula, da disponibilidade de fornecedores, dos contratos de transporte e da utilização da infraestrutura de distribuição até o consumidor.

Mas a discussão nacional coloca uma questão importante para a Zona Franca de Manaus. Se a abertura do mercado reduzir o custo energético de fábricas instaladas no Sudeste e no Nordeste, mas essa competição não chegar ao Amazonas, empresas concorrentes do PIM podem ganhar uma vantagem adicional.

Por outro lado, se novos fornecedores conseguirem disputar também o consumidor amazonense, o Estado reúne uma combinação pouco comum: grandes reservas de gás, produção local relevante, infraestrutura já conectada ao Distrito Industrial e um parque fabril que movimentou R$ 121,76 bilhões apenas nos seis primeiros meses do ano.

Para o PIM, portanto, o debate iniciado pela ANP não é apenas sobre Petrobras ou regulação. É sobre quanto custará produzir em Manaus nos próximos anos.