Arco Norte: como assegurar que via permaneça segura e eficiente para o País?
Por Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) e do Conselho de Infraestrutura (Coinfra) da CNI
A consolidação do Arco Norte como o principal eixo de escoamento do agronegócio brasileiro é um marco estrutural incontestável. Segundo o Anuário Agrologístico 2026 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os portos acima do paralelo 16º Sul foram responsáveis por 39,5% das exportações nacionais de soja e milho em 2025.
No período, o corredor movimentou 48% das exportações de milho e 36,2% das remessas de soja em um ecossistema multimodal, com ganhos de eficiência em toda a cadeia. Um exemplo é o Porto do Itaqui (MA), cujo volume de embarque de grãos saltou de 11,55 milhões de toneladas em 2021 para 20,14 milhões em 2025, impulsionando também as operações em terminais como os de Santarém, Barcarena e Itacoatiara.
Contudo, a viabilidade dessa matriz enfrenta um estresse climático. A intensificação do El Niño ameaça a navegabilidade amazônica e a produtividade do agronegócio. A estiagem compromete rios estratégicos como Madeira, Tapajós e Solimões-Amazonas, limitando o calado, encarecendo o frete e fazendo as empresas enfrentarem limitações de navegação e atrasos na exportação.
O colapso estende-se ao plano institucional. O corte de R$ 44,9 milhões na Agência Nacional de Águas (ANA) prejudica o monitoramento hidrológico, essencial para a segurança hídrica e a previsibilidade produtiva, justamente quando a resposta a secas extremas é mais necessária.
Há, ainda, a perspectiva social: a estiagem severa isola ribeirinhos, inviabiliza o abastecimento urbano, com risco de escassez alimentar, gera inflação e paralisa o suprimento de insumos industriais, como da Zona Franca de Manaus.
Esse cenário configura um risco macroeconômico sistêmico, que desarticula cadeias, compromete a competitividade da indústria e eleva preços ao consumidor. É o aumento do custo Brasil e do “custo Amazônia”, penalizando investimentos. A vulnerabilidade logística da região é um problema de alcance nacional.
O esgotamento da via fluvial comprova que a resiliência do agronegócio não virá apenas da expansão de frota. Como política preventiva, o governo federal deve consolidar um programa permanente de dragagem de manutenção. Paralelamente, a solução logística reside em novos aportes em ferrovias estruturantes, como Fico, Fiol e Transnordestina, para reduzir a dependência rodoviária.
O Brasil precisa sustentar seu protagonismo por meio de um Plano Nacional de Integração Logística e Resiliência Climática. Esta solução deve integrar inteligência orçamentária ao planejamento de adaptação rigoroso, respeitando o ecossistema amazônico e assegurando que o Arco Norte permaneça uma via segura e eficiente para o País.