El Niño coloca indústria de climatização em alerta e PIM se prepara para o verão

Expectativa de temperaturas mais altas já movimenta estoques, encomendas e planejamento do setor

Linha de produção de aparelhos de ar-condicionado em fábrica no Polo Industrial de Manaus, com trabalhadores em suas posições
Linha de produção de ar-condicionado na Elgin. Fábrica no Polo Industrial de Manaus | Foto: Divulgação/Elgin

O mercado de ar-condicionado pode estar diante de uma virada no segundo semestre. Enquanto a produção do Polo Industrial de Manaus (PIM) acumula queda neste ano, a possibilidade de um El Niño muito forte no fim de 2026 começa a mudar os planos de fabricantes e varejistas para os próximos meses. É o que informa reportagem da Folha de São Paulo.

Dados da Suframa mostram que a produção acumulada de aparelhos até maio ficou 42% abaixo do registrado no mesmo período de 2025. O cenário para o verão, no entanto, pode ser bem diferente. A perspectiva de um El Niño entre os mais fortes registrados desde 1950 colocou o setor em movimento: estoques foram reforçados, encomendas começaram a ser antecipadas e empresas passaram a preparar suas operações para uma eventual alta da procura.

Além de concentrar a fabricação de aparelhos de ar-condicionado de diferentes marcas, Manaus precisa colocar essa produção no restante do país, justamente em um período em que o nível dos rios amazônicos também pode se transformar em problema logístico.

Elgin reforça operação

A Elgin é uma das fabricantes que já se prepara. A empresa manteve seu planejamento para o segundo semestre, mas reforçou produção, abastecimento e logística para evitar problemas semelhantes aos registrados durante as ondas de calor dos últimos anos.

"As ondas de calor aumentaram significativamente a procura por equipamentos de climatização, especialmente pelos modelos inverter. Caso as previsões climáticas se confirmem, esperamos um mercado aquecido", diz Anderson Bruno, vice-presidente comercial da companhia.

A empresa não prevê aumentar preços simplesmente porque mais consumidores podem procurar aparelhos. Segundo o executivo, eventuais reajustes estarão ligados à evolução dos custos de matérias-primas, como cobre e alumínio, e às condições logísticas.

Uma eventual seca dos rios amazônicos entra nessa conta porque pode dificultar o escoamento dos produtos fabricados em Manaus.

Mercado praticamente dobrou produção de splits

O tamanho da oportunidade fica mais claro quando se olha para os últimos anos. A produção brasileira de aparelhos do tipo split saltou de 3,816 milhões de unidades em 2023 para 6,385 milhões em 2025.

O setor de aquecimento, ventilação, ar-condicionado e refrigeração faturou R$ 50,15 bilhões no ano passado. Para 2026, a Abrava, associação que representa o setor, projeta R$ 55,62 bilhões, avanço de 10%. Só que calor não significa automaticamente venda.

"A elevação das temperaturas trará, de fato, um impacto positivo para o setor, estimulando a procura por equipamentos de climatização e refrigeração. No entanto, outros fatores pesam negativamente, como o maior endividamento das famílias, já refletido na desaceleração do comércio, o que prejudica a demanda por bens duráveis, principalmente aparelhos de ar-condicionado", afirma Toríbio Rolon, diretor de economia da Abrava.

Essa é a principal trava para uma reação mais forte. Mesmo com melhora das expectativas empresariais no segundo trimestre e aumento dos novos pedidos, o faturamento do setor recuou 0,5% na comparação anual, enquanto os custos dos insumos cresceram quase 20%.

A Selic em 14% ao ano também pesa. Crédito mais caro afeta tanto o consumidor que pretende comprar um aparelho quanto as próprias empresas, pressionando investimentos e aumentando os riscos de inadimplência de clientes e fornecedores.

Tem gente comprando antes do calor chegar

Enquanto a indústria calcula quanto produzir, parte do varejo e dos consumidores decidiu não esperar pelo termômetro.

A experiência recente de prateleiras vazias e prazos maiores durante ondas de calor fez alguns compradores anteciparem a aquisição do ar-condicionado, segundo Felipe Colombo, gerente-executivo de compras e importação da Webcontinental.

"Muitos consumidores continuam aproveitando as promoções da baixa temporada para garantir seus equipamentos pelos melhores preços, evitando os reajustes típicos da alta demanda do verão. Ainda existe, porém, uma parcela significativa que prefere esperar a chegada das temperaturas mais elevadas para realizar a compra", informa Colombo.

O movimento não se limita aos aparelhos de ar-condicionado. Os ventiladores, opção mais barata para enfrentar temperaturas elevadas, também começaram a aparecer antecipadamente nas encomendas das grandes redes.

A Mallory projeta crescimento superior a 30% nas vendas em 2026 e já iniciou entregas para grandes varejistas. Uma projeção da Mordor Intelligence aponta ainda crescimento do mercado global de ventiladores e sopradores entre 2026 e 2031.

"Os varejistas já estão antecipando as encomendas de ventiladores. A companhia projeta crescimento superior a 30% nas vendas em 2026 e já iniciou entregas para grandes redes. Em períodos de calor intenso, como os provocados pelo El Niño, deixar a compra para a última hora pode significar rupturas e perdas de vendas, como já aconteceu em 2024 e no início de 2025", ressalta Marcelo Perin, diretor comercial da Mallory.