El Niño pode ser um dos mais fortes desde 1950, alerta agência dos EUA

Entre os efeitos associados ao fenômeno estão estiagens na Região Norte

Vista aérea do leito seco do rio Solimões, com bancos de areia expostos e pequenas embarcações, ao lado de uma comunidade
Vista aérea do leito seco do rio Solimões próximo à comunidade indígena Porto Praia, em Tefé (AM, 2023) | Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

A possibilidade de o atual El Niño alcançar intensidade muito forte aumentou nos últimos meses. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), agência federal dos Estados Unidos, agora estima em 93% a chance de o fenômeno atingir essa categoria entre setembro e novembro. A projeção vem sendo elevada desde a confirmação do El Niño.

Em junho, a probabilidade era de 63% para o período entre novembro e janeiro. No mês seguinte, subiu para 81%, considerando outubro a dezembro. Na atualização mais recente, além dos 93% entre setembro e novembro, a NOAA aponta 90% de possibilidade de a condição extrema continuar até janeiro.

O El Niño ocorre a partir do aquecimento da superfície do Oceano Pacífico equatorial. Para ser classificado como muito forte, a temperatura precisa ficar mais de 2°C acima da média histórica.

Atualmente, o aquecimento está em 1,4°C. Apesar de ainda estar abaixo desse patamar, outro dado chama atenção: abaixo da superfície do oceano existem áreas com temperaturas até 10°C superiores ao normal.

A diferença é maior do que a observada em episódios anteriores. No El Niño de 2015-2016, por exemplo, essa região abaixo da superfície chegou a ficar 6°C acima da média.

Os registros históricos também mostram que eventos dessa intensidade são pouco frequentes. Desde o início da série, em 1950, o patamar de 2°C foi superado cinco vezes. O episódio mais recente ocorreu em 2023-2024. Já o mais intenso foi registrado em 2015-2016, quando a anomalia de temperatura chegou a 2,6°C.

Diante do cenário atual, a NOAA projeta que o El Niño de 2026 pode ficar entre os mais fortes registrados desde 1950.

Efeitos já aparecem em diferentes regiões

Chris Funk, diretor do Centro de Riscos Climáticos da Universidade da Califórnia, classifica o cenário como um “El Niño de início precoce”, cujos efeitos já aparecem em diferentes partes do mundo.

No Panamá, algumas regiões não registram chuvas intensas desde o começo de maio, apesar dos elevados volumes de precipitação normalmente observados no país. Na Etiópia, o atual verão está entre os mais secos das últimas quatro décadas.

Partes do Sudeste Asiático também enfrentam seca. A falta de chuva tem atrasado a semeadura de arroz e de outras culturas agrícolas.

No Brasil, o fenômeno traz risco para as safras, com possibilidade de reflexos sobre a inflação. Entre os efeitos associados ao El Niño estão estiagens nas regiões Norte e Nordeste e chuvas fortes no Sul. No Sudeste, podem ocorrer as duas situações.

Governo discute resposta ao fenômeno

Diante das projeções, o Ministério do Meio Ambiente se reuniu na quarta-feira (19) com secretários estaduais da área para discutir uma atuação coordenada.

As preocupações envolvem medidas de combate a incêndios, reforço de infraestrutura e preparação do sistema de saúde para possíveis consequências das condições climáticas.

Em julho, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) emitiu um alerta regional apontando risco elevado de estresse térmico e desidratação, além do agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e de arboviroses, como a dengue.

O último El Niño ocorreu em 2023-2024. Em 2024, o Brasil registrou 5.873 mortes por dengue. O número superou a soma das mortes registradas nos oito anos anteriores, que chegou a 4.992. Naquele período, alertas semelhantes haviam sido emitidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com informações da Folha de São Paulo