Em 1998, parceria entre Gradiente e Nokia na Zona Franca deu origem ao primeiro celular digital produzido no Brasil
Relembre o início do SkyWay no país
Você consegue imaginar a sua rotina hoje sem um celular por perto? O aparelho que agora cabe na palma da mão e resolve quase toda a nossa vida (do trabalho ao pagamento do almoço, passando pelas fotos e redes sociais) nem sempre foi esse 'computador de bolso'. No final dos anos 1990, ter um telefone móvel era um luxo para poucos e uma novidade que assustava pelo tamanho. E você sabia que o Polo Industrial de Manaus (PIM) foi o berço do primeiro celular digital totalmente fabricado no Brasil?
Para o nosso TBT de hoje, vamos voltar para 1998. Foi nesse ano que a Zona Franca de Manaus colocou no mercado o SkyWay, o pioneiro da tecnologia digital no padrão TDMA (Acesso Múltiplo por Divisão de Tempo) feito em solo nacional. O modelo saía das linhas de montagem da Nokia Gradiente Industrial (NGI), uma joint venture que unia a força de duas gigantes da época.
União
De um lado da mesa estava a brasileira Gradiente, que já era de casa: operava em Manaus desde 1972 e conhecia o chão de fábrica do Amazonas como poucas, sendo responsável pela produção de uma diversidade de equipamentos eletroeletrônicos, como televisores, videocassetes, toca-fitas e videogames. Do outro lado estava a finlandesa Nokia, que despontava no planeta como a grande potência da telefonia móvel, e que se encontrava em uma disputa com a Motorola pela liderança do setor.
Para fazer o SkyWay acontecer, o investimento foi pesado. O projeto do aparelho consumiu cerca de US$ 6 milhões, inserido no plano maior da nova fábrica da NGI em Manaus. No total, as duas empresas investiram aproximadamente US$ 20 milhões para erguer uma planta de 10 mil metros quadrados. A estrutura tinha capacidade inicial para produzir 6 mil aparelhos por mês e gerou cerca de 600 empregos diretos no PIM.
Tecnologia de ponta (para a época)
Mas o que o SkyWay tinha de tão especial? Naquela época, a grande novidade era a transição do sistema analógico para o digital. O padrão TDMA prometia ligações mais limpas, com menos quedas e um consumo de bateria muito menor. De acordo com registros da revista TeleBrasil, em sua edição de janeiro/fevereiro de 1998, o aparelho vinha com um codificador de voz chamado EFRC, integrado ao padrão digital IS-136 Revisão A, que garantia uma qualidade de áudio surpreendente para os padrões de 28 anos atrás.
Além de fazer chamadas, o SkyWay ostentava recursos que faziam inveja. Ele tinha função de pager, identificador de chamadas (o famoso Bina), menu totalmente em português, nove teclas de discagem rápida e um botão exclusivo para emergências.
E a bateria? Em um tempo em que ninguém andava com carregador portátil na mochila, o celular da NGI aguentava até 83 horas em modo de espera ou cerca de 210 minutos de conversa sem parar. Tudo isso pesando "apenas" 226 gramas com a bateria fina (um verdadeiro peso-pena para a época, acredite). O kit ainda oferecia opcionais como bateria que vibrava e carregador rápido bivolt.
Conectados ao futuro
Olhando para trás, o SkyWay pode parecer um tijolo pré-histórico perto dos modelos ultrafinos que usamos hoje. Mas foi exatamente essa tecnologia que abriu as portas para a revolução dos smartphones.
Em 2000, a Nokia adquiriu a parte da Gradiente por US$ 415 milhões, entrando em carreira solo. Daí em diante, vivenciou um dos maiores auges de sua história, liderando o mercado de celulares em diversas ocasiões. Segundo a consultoria Gartner, em 2007, a Nokia chegou a cerca de 40% de participação no mercado global de celulares, vendendo aproximadamente 435 milhões de unidades.
E no Brasil não foi diferente: uma reportagem de 2008 do Jornal do Brasil mostrou que a companhia ultrapassou 50 milhões de unidades comercializadas no país, com cerca de 30% de participação naquele ano.
Nos anos 2000, os aparelhos Nokia passaram a dominar as lojas e as mãos dos consumidores. Modelos como o Nokia 3310 e outros da linha 1100, 2100 e 6100 ficaram populares pela resistência, bateria duradoura e facilidade de uso. A marca chegou a ser associada ao próprio conceito de telefone celular: para muita gente, “Nokia” era praticamente sinônimo de aparelho móvel.
O TBT chega ao fim lembrando que, muito antes das telas de toque, dos aplicativos de mensagens e da internet móvel de alta velocidade, o Polo Industrial de Manaus e seus trabalhadores já ajudavam a moldar o futuro da comunicação no Brasil. Uma história que começou com circuitos integrados e soldas manuais e que, hoje, nos permite carregar o mundo inteiro no bolso.