Fieam propõe 2,5% do PIB do Norte para zerar isolamento logístico

Federação expõe prejuízos de R$ 1,4 milhão por dia à ZFM durante período de seca

Contêineres empilhados e guindastes operando no Porto Chibatão, em Manaus, com o rio ao fundo
Porto Chibatão | Foto: Divulgação/Grupo Chibatão

O isolamento geográfico do Polo Industrial de Manaus (PIM) cobra um preço alto das empresas locais, especialmente nos períodos de seca severa. Para tentar solucionar esse problema histórico, a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) defende a criação de um plano permanente de investimentos em infraestrutura. A proposta central da entidade é destinar, de forma obrigatória, 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da Região Norte para obras estruturantes que possam reduzir o chamado custo Amazônia.

A discussão ganha urgência diante dos gargalos logísticos que encarecem a produção e dificultam o escoamento de mercadorias da Zona Franca de Manaus (ZFM). Segundo dados divulgados pelo jornal Valor Econômico, o governo federal destinou cerca de R$ 1,2 trilhão para a infraestrutura do país desde 2021. No entanto, a Fieam avalia que esses recursos não foram suficientes para eliminar as deficiências que isolam o estado.

O peso da dependência dos rios

Atualmente, o transporte de insumos e produtos no Amazonas ocorre de forma quase exclusiva pelas hidrovias. Sem uma ligação terrestre eficiente com o restante do Brasil, as fábricas ficam expostas às variações do clima. Nos últimos anos, as fortes estiagens na bacia amazônica secaram os rios e impediram a passagem de navios de grande porte.

Essa paralisia parcial gera prejuízos em série. De acordo com estimativas da Fieam, nos momentos mais críticos da vazante, as indústrias da Zona Franca enfrentaram custos adicionais de aproximadamente R$ 1,4 milhão por dia. O prejuízo decorre de atrasos nas entregas e da necessidade de adotar medidas de emergência para manter as linhas de montagem abastecidas.

Para desviar dos rios secos, as empresas precisaram enviar cargas para os portos de Vila do Conde, no Pará, e Pecém, no Ceará. De lá, as mercadorias seguiram para Manaus em barcos menores, o que elevou o tempo de viagem e encareceu os fretes. Outro impacto financeiro foi a taxa da pouca água, uma sobretaxa cobrada pelas transportadoras marítimas que variou de US$ 1.500 a US$ 2.300 por contêiner, já que as embarcações precisavam navegar com menos peso para evitar encalhes. Em casos extremos, foi preciso gastar milhões de reais na instalação de portos flutuantes temporários.

Estradas ruins e integração de modais

O problema não se limita à água. O transporte terrestre também enfrenta barreiras severas que encarecem a produção. Um levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que mais de 60% das rodovias federais estão em condições ruins ou péssimas, o que desgasta a frota e atrasa as viagens.

Diante desse cenário, a Fieam aponta que a saída é um planejamento integrado que conecte rodovias, hidrovias, ferrovias, portos e aeroportos, reduzindo a dependência dos rios. A proposta de integração de modais é defendida também pelo Ministério de Portos e Aeroportos como forma de dar previsibilidade ao transporte de cargas.

Competitividade além dos incentivos

A cobrança por infraestrutura ocorre em um momento decisivo para o Polo Industrial de Manaus, com o avanço da regulamentação da Reforma Tributária. O presidente da Fieam, Antônio Silva, alerta que proteger as vantagens fiscais da região não basta para garantir o futuro das indústrias locais.

De acordo com Silva, manter os incentivos da Zona Franca de Manaus será inútil se o custo de transporte continuar inviabilizando os negócios. O diretor da federação, Augusto César Rocha, reforça a necessidade de uma ação firme do poder público para modernizar a região:

"Precisamos trazer o Estado brasileiro para o século 21 na Amazônia".