Grupo Chibatão prepara píer em Itacoatiara para enfrentar seca e estima custo extra de R$ 80 milhões
Estrutura de 277 metros deve sair de Manaus entre setembro e outubro e começar a operar em novembro; Estratégia permitirá transferir cargas de navios para balsas durante período de águas mais rasas
O Grupo Chibatão prepara uma operação logística especial para manter o transporte de cargas no Amazonas diante da previsão de uma estiagem mais severa na região. À Folha de São Paulo, a companhia estimou um custo adicional de R$ 80 milhões para voltar a utilizar um píer temporário em Itacoatiara, a cerca de 270 quilômetros de Manaus.
A estrutura está atualmente na capital amazonense e deve ser deslocada para Itacoatiara entre setembro e outubro. A previsão é que entre em operação em novembro, período em que a redução do nível dos rios pode impor maiores restrições à navegação de grandes embarcações.
O píer tem 277,5 metros de comprimento por 24 metros de largura e capacidade para realizar sete movimentos de guindaste por hora. Na prática, funcionará como um ponto de transferência das cargas transportadas pelos navios.
Quando a profundidade do rio dificultar a continuidade da viagem, os contêineres poderão ser retirados das embarcações e colocados em balsas. Menores e mais leves, elas conseguem navegar com menos profundidade e seguir com a carga pela hidrovia.
Segundo o diretor-executivo do Grupo Chibatão, Johny Fidelis Ramos, os R$ 80 milhões estimados para a operação incluem despesas com pessoal, alimentação, hospedagem, combustível e transporte.
A estratégia não é inédita. O mesmo píer foi utilizado em 2024, quando o Amazonas enfrentou outro período de estiagem severa e a redução do nível dos rios afetou a logística de cargas.
"Se não tem navio para descarregar, o impacto financeiro é gigantesco, porque toda a estrutura fica parada. Com o advento de movimentar parte dessa estrutura para Itacoatiara, não para o porto Chibatão. O impacto é mínimo possível", afirmou Ramos.
Segundo ele, levar parte da operação para Itacoatiara permite reduzir os efeitos da limitação de navegação sobre o terminal do Chibatão, em Manaus.
Seca já pressiona transporte de cargas
A preparação ocorre em um momento de preocupação crescente com as condições de navegação na Amazônia. A previsão de redução dos níveis dos rios já levou armadores a anunciar novas cobranças para cargas com origem ou destino em Manaus.
A MSC Brasil informou que aplicará, a partir de 5 de setembro, a chamada Low Water Surcharge, sobretaxa por baixo nível da água, aos embarques destinados à capital amazonense. O valor será de US$ 1.400 por contêiner seco e US$ 1.900 por contêiner refrigerado.
A Ocean Network Express (ONE) também anunciou uma taxa de US$ 1.458 por contêiner. A cobrança valerá a partir de setembro para importações de todas as origens destinadas a Manaus e, em outubro, para exportações da capital amazonense a todos os destinos.
As empresas atribuem as medidas à perspectiva de condições mais restritivas de navegação nos próximos meses.
Augusto César Rocha, coordenador da Comissão de Logística do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), avalia que a cabotagem, transporte de cargas entre portos brasileiros, também poderá ser atingida por cobranças adicionais caso a situação dos rios se agrave.
"A cabotagem muito provavelmente vai cobrar também essa sobretaxa, só que, como as viagens dentro do Brasil são muito próximas, eles conseguem fazer isso muito mais perto do evento", pontuou.
Além da estiagem amazônica, outro ponto de atenção está fora do país. O Canal do Panamá reduzirá, a partir de 3 de setembro, o calado máximo permitido para navios nas eclusas Neopanamax, de 50 pés (15,24 metros) para 47,5 pés (14,48 metros).
A restrição pode atingir rotas utilizadas no abastecimento da Zona Franca de Manaus. Segundo Leandro Carelli, sócio da consultoria Solve Shipping, boa parte das cargas provenientes da Ásia com destino a Manaus e ao Nordeste passa pelo canal.
"Hoje a Zona Franca de Manaus e o Nordeste são atendidos majoritariamente por navios que saem da Ásia e cruzam o canal do Panamá. Essas limitações de calado significam menor capacidade nesses navios. Num primeiro momento, o impacto é sobre essas cargas", ressaltou.