Importação de aço cai no Brasil, mas dispara 565% no Amazonas; Zona Franca ajuda a explicar movimento

Enquanto entrada de aços planos recuou quase 30% no país em julho, registros ligados ao Amazonas avançaram mais de seis vezes. Mudança tributária, logística e crescimento do aço que chega “escondido” dentro de produtos industrializados mudam a leitura do mercado

Importação de aço cai no Brasil, mas dispara 565% no Amazonas; Zona Franca ajuda a explicar movimento
Foto: Sinduscon-SP

A importação de aço está diminuindo no Brasil.

Mas basta olhar para o Amazonas para encontrar uma história bem diferente.

Em julho, enquanto o volume de aços planos importados pelo Brasil caiu 29,4% em relação a junho, para cerca de 225 mil toneladas, o volume registrado para o Amazonas avançou 565% no mesmo período, segundo levantamento da ESTEEL elaborado a partir dos dados do Comex Stat.

É uma diferença que chama atenção, mas que exige cuidado na interpretação.

O salto não significa necessariamente que indústrias e obras amazonenses passaram a consumir seis vezes mais aço em apenas um mês.

Segundo a análise da ESTEEL, parte relevante do movimento ocorreu por uma mudança de enquadramento tributário de operações que antes apareciam em Rondônia e passaram a utilizar o regime da Zona Franca de Manaus. A própria consultoria alerta que a UF registrada nos dados de comércio exterior não deve ser tratada automaticamente como local de consumo final do material.

O fenômeno ajuda a revelar algo maior: em 2026, entender o mercado brasileiro de aço exige olhar além da quantidade de bobinas, chapas e barras que entram diretamente no País.

E no Amazonas essa diferença é ainda mais relevante.

A importação caiu. Ou apenas mudou de forma?

A discussão começou a ganhar força depois que um relatório do Bradesco BBI mostrou que a queda das importações diretas de aço conta apenas parte da história.

Nos sete primeiros meses de 2026, o Brasil importou diretamente cerca de 3,3 milhões de toneladas de aço, uma redução de 21% em relação ao ano anterior. Medidas antidumping e a redução das cotas de importação ajudaram a frear a entrada do material.

Ao mesmo tempo, porém, ocorreu o movimento inverso dentro de outro grupo de mercadorias.

O volume estimado de aço contido em produtos industrializados importados, como automóveis, máquinas e autopeças, cresceu 19% e chegou a 4,2 milhões de toneladas.

Ou seja: pela estimativa do BBI, já entrou mais aço no Brasil dentro de produtos acabados do que na forma de aço propriamente dito.

Do crescimento das importações indiretas, aproximadamente dois terços vieram do setor automotivo. O aço contido em carros e veículos comerciais importados cresceu 69%.

Somadas as duas portas de entrada, o BBI estima que o aço estrangeiro poderá representar 40,4% da demanda brasileira em 2026, ante apenas 27% dez anos atrás. É justamente aqui que a discussão passa a ter uma particularidade amazonense.

No Amazonas, aço não entra apenas como aço

O Polo Industrial de Manaus é formado por cadeias que utilizam aço diretamente, mas também por fábricas que recebem componentes, subconjuntos, máquinas e equipamentos que já chegam ao estado incorporando o metal.

Motocicletas são o exemplo mais evidente.

Mas a mesma lógica aparece em estruturas metálicas, máquinas industriais, motores, componentes mecânicos, ferramentas, equipamentos de produção e inúmeros itens utilizados dentro das fábricas do PIM.

Nos seis primeiros meses de 2026, o Polo Industrial de Manaus registrou cerca de R$ 121,8 bilhões em faturamento.

O segmento de Duas Rodas respondeu por 19,77% desse valor, o setor Metalúrgico por 8,78% e o Mecânico por outros 6,33%. Juntos, são segmentos que representaram quase 35% do faturamento do PIM e possuem diferentes graus de exposição ao aço e seus derivados.

Isso significa que olhar apenas para os capítulos 72 e 73 da NCM (ferro, aço e suas obras) tende a subestimar a quantidade de aço estrangeiro que efetivamente chega à economia amazonense.

Uma motocicleta parcialmente montada, uma máquina industrial ou uma peça mecânica pode conter grande quantidade de aço sem aparecer nas estatísticas como importação de aço.

É exatamente o fenômeno apontado nacionalmente pelo Bradesco BBI, mas aplicado a uma economia fortemente industrializada como a de Manaus.

Foto: Reprodução/Internet

Amazonas virou rota importante para o aço importado

A relação entre a Zona Franca e o aço importado não começou em julho.

Em março de 2025, o Porto de Manaus chegou a receber cerca de 126 mil toneladas de aços planos em um único mês. No primeiro trimestre daquele ano, Manaus respondeu por 20,8% das importações brasileiras desse tipo de aço, segundo dados apresentados pelo Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda).

O número caiu bastante posteriormente.

Em março de 2026, foram aproximadamente 15 mil toneladas de aços planos entrando pelo Porto de Manaus, equivalentes a 5,2% das importações brasileiras do produto naquele mês. Ainda assim, Manaus apareceu como a quinta maior porta de entrada de aços planos do País.

Essa oscilação mostra por que os dados amazonenses precisam ser tratados com cuidado.

O fluxo pode responder não apenas ao consumo do mercado regional, mas à combinação de preço internacional, frete, câmbio, tributação, incentivos da Zona Franca e medidas de defesa comercial.

Uma operação economicamente vantajosa por Manaus pode mudar rapidamente de rota quando uma dessas variáveis se altera.

O que significa o salto de 565% de julho

É aqui que está provavelmente o dado mais interessante do mês.

A análise da ESTEEL identificou queda de aproximadamente 90% das importações registradas em Rondônia e, simultaneamente, aumento de 565% no Amazonas.

Segundo o levantamento, tratava-se do mesmo produto e da mesma origem. O que mudou foi o regime utilizado na operação, que teria migrado de incentivos de Rondônia para a estrutura da Suframa.

Isso muda completamente a interpretação.

O crescimento de 565% não significa que o consumo amazonense de aço aumentou 565%. Significa que o Amazonas ganhou peso como porta tributária e operacional da importação brasileira de aço.

Essa distinção é importante porque parte do material internalizado pelo estado pode posteriormente abastecer clientes fora do Amazonas. É também um exemplo concreto de como a estrutura tributária da Zona Franca influencia fluxos logísticos nacionais.

Um mercado sem siderúrgica, mas com grande demanda

O Amazonas possui outra característica importante: é um grande consumidor e transformador de aço, mas não é um grande centro siderúrgico produtor.

Boa parte do material utilizado na região precisa, portanto, chegar de fora. Isso coloca dois fornecedores em competição permanente.

De um lado estão grandes produtores nacionais, como Usiminas, CSN, Gerdau e ArcelorMittal, que precisam transportar o aço produzido principalmente no Sul e Sudeste até Manaus.

Do outro está o aço importado, sobretudo asiático, que pode chegar diretamente por via marítima e se beneficiar da estrutura tributária da Zona Franca dependendo da operação.

Para o comprador amazonense, portanto, a comparação relevante não é simplesmente: aço brasileiro x aço chinês.

É: preço da usina nacional + logística até Manaus x preço internacional + frete marítimo + câmbio + imposto + benefício fiscal.

E essa conta pode mudar rapidamente.

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A infraestrutura também sustenta a demanda local

Nem todo o aço que chega ao Amazonas está ligado ao Polo Industrial. Construção civil, estaleiros, estruturas metálicas e infraestrutura são consumidores relevantes.

Um exemplo recente é o novo Porto da Manaus Moderna. Somente nesse projeto, a Usiminas está fornecendo 16 mil toneladas de aço, em parceria com o Estaleiro Juruá.

Também há movimento de verticalização local. Em 2026, o governo estadual concedeu incentivos fiscais à Cidade do Aço para fabricação em Manaus de telas, estribos e estruturas metálicas voltadas principalmente à construção civil.

São sinais de que existe espaço econômico não apenas para distribuição, mas também para processamento e transformação local do aço.

Governo aperta a importação direta

O cenário ficou ainda mais complexo no segundo semestre. O governo federal renovou para 2026/2027 o sistema de cotas para diferentes produtos siderúrgicos. Entre os itens sujeitos às regras estão bobinas laminadas, produtos revestidos, perfis e tubos. Quando determinados limites são ultrapassados, a proteção tarifária aumenta.

Além disso, desde 27 de julho, sete novos produtos siderúrgicos passaram a ter Imposto de Importação de 25%, incluindo fios de aço, materiais para andaimes, telas galvanizadas e pregos. A medida permanece prevista até julho de 2027.

As medidas estão funcionando sobre a importação direta.

Em julho, o Brasil importou 383 mil toneladas de produtos siderúrgicos, queda de 37,8% frente ao mesmo mês de 2025.

No acumulado do ano, a retração chegou a 20,3%. Mas existe uma consequência inesperada.

A indústria protege o aço, mas o produto acabado continua entrando

O problema levantado pelo Bradesco BBI é que a barreira colocada na entrada da matéria-prima não necessariamente protege a cadeia industrial que utiliza aquela matéria-prima.

Nos sete primeiros meses do ano, 851 mil toneladas de aço deixaram de entrar diretamente no Brasil.

Segundo os cálculos do banco, porém, a produção doméstica recuperou apenas 6 mil toneladas desse espaço.

Enquanto isso, as importações indiretas — aço contido em produtos acabados — aumentaram em 678 mil toneladas.

Na prática, parte da competição pode estar simplesmente migrando um estágio adiante na cadeia.

Em vez de importar a chapa e fabricar o produto no Brasil, passa-se a importar o produto que já contém a chapa.

Para uma economia industrial como a de Manaus, esse ponto merece atenção.

Se máquinas, peças, equipamentos e subconjuntos completos se tornam relativamente mais competitivos que a matéria-prima utilizada para produzi-los localmente, a proteção da siderurgia pode acabar criando pressão justamente sobre as indústrias transformadoras.

E o preço do aço?

Para os compradores amazonenses, o cenário não aponta para uma disparada imediata.

Apesar da redução das importações diretas, estoques elevados e demanda doméstica mais fraca continuam limitando o poder das siderúrgicas brasileiras para reajustar preços.

O Bradesco BBI vê pouco espaço para aumentos relevantes no curto prazo e não descarta novas quedas caso a demanda se deteriore.

No mercado nacional, as vendas internas de aço ficaram praticamente estáveis no acumulado até julho, enquanto o consumo aparente recuou cerca de 5%.

No Amazonas, porém, há um componente adicional: frete. Mesmo quando o preço na usina é competitivo, levar material pesado por milhares de quilômetros até Manaus pode alterar a conta.

Isso ajuda a explicar por que o estado pode continuar sendo um mercado particularmente interessante para importadores mesmo em um ambiente nacional de maior proteção comercial.

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O número de 565% conta só metade da história

A leitura inicial dos dados poderia indicar um paradoxo:

  • Brasil: importação de aço em queda.
  • Amazonas: importação disparando.

Mas os dois movimentos podem coexistir.

O crescimento registrado no Amazonas parece estar fortemente influenciado pela própria estrutura tributária da Zona Franca e pela mudança da rota de importação.

Ao mesmo tempo, existe no estado uma base real de consumo relevante formada pelo Polo Industrial, construção civil, estaleiros e projetos de infraestrutura.

E há ainda uma terceira camada que as estatísticas tradicionais de aço não mostram: o metal que entra incorporado dentro dos produtos importados pelas fábricas amazonenses.

Essa pode ser justamente a parcela mais importante para acompanhar daqui para frente.

Porque, se a tendência identificada pelo Bradesco BBI continuar, o debate brasileiro deixará gradualmente de ser apenas sobre quanto aço o País importa. Passará a ser sobre quanto daquilo que o Brasil deixou de fabricar já está chegando pronto de fora.

Resumo redes: Enquanto entrada de aços planos recuou quase 30% no país em julho, registros ligados ao Amazonas avançaram mais de seis vezes. Mudança tributária, logística e crescimento do aço que chega “escondido” dentro de produtos industrializados mudam a leitura do mercado.