Jornalista do RJ ataca ZFM e diz que motocicletas seriam 35% mais baratas se montadas no Sudeste, mas não apresenta estudo para embasar afirmação
Publicação no Instagram do jornalista Pedro Doria questiona logística, incentivos fiscais e eficiência do modelo; Advogado e ex-deputado Marcelo Ramos rebate argumentos e propõe debate público sobre a Zona Franca
Um dos principais setores do Polo Industrial de Manaus (PIM) entrou no centro de uma nova crítica à Zona Franca de Manaus (ZFM). O jornalista carioca Pedro Doria questionou a lógica econômica do modelo usando como exemplo a produção de motocicletas na capital amazonense e afirmou que os veículos poderiam custar 35% menos caso fossem fabricados no Sudeste.
A declaração ganha dimensão pelo tamanho da atividade colocada em discussão. Somente no primeiro semestre de 2026, o PIM produziu 1,15 milhão de motocicletas, motonetas e ciclomotores. O segmento de Duas Rodas respondeu por 19,77% do faturamento industrial de Manaus no período, atrás apenas de Bens de Informática. Em 2025, a atividade movimentou R$ 44,74 bilhões.
Em uma publicação nas redes sociais, Doria descreveu uma cadeia na qual uma peça fabricada na China atravessaria o oceano até Manaus, seria incorporada a uma motocicleta e, depois, seguiria com o veículo para o mercado consumidor do Sudeste. Para ele, esse deslocamento estaria ligado à estrutura de incentivos que mantém a atividade industrial na ZFM.
O jornalista argumentou ainda que o consumidor arcaria tanto com a renúncia tributária concedida ao modelo quanto com o custo do produto no mercado. Foi nesse contexto que sustentou que a mesma motocicleta poderia sair 35% mais barata se fosse produzida no Sudeste, percentual que atribuiu à própria indústria. Nas publicações repercutidas até agora, porém, não foi apresentado um estudo ou cálculo detalhado que permita verificar de forma independente como se chegou aos 35%.
Doria também colocou na discussão o tamanho dos incentivos fiscais. Segundo ele, a renúncia associada à Zona Franca poderia variar entre R$ 7,5 bilhões e R$ 55 bilhões por ano, a depender da metodologia utilizada. O jornalista citou ainda o economista Marcos Lisboa ao questionar a produtividade efetiva do Polo quando os subsídios são considerados na análise.
Em sua conta no Instagram, o jornalista diz ser vinculado aos veículos O Globo, CBN e Canal O Meio.
Produção em Manaus vai além da montagem
O exemplo usado por Doria provocou reação especialmente por apresentar a fabricação de motocicletas a partir da chegada de componentes estrangeiros. Embora a indústria instalada em Manaus utilize também insumos importados, uma das principais fabricantes do setor mantém na cidade processos que vão além da montagem final dos veículos.
A própria Honda classifica sua fábrica de Manaus como a unidade de produção de motocicletas mais verticalizada do grupo no mundo. Na planta são produzidos internamente componentes como motores, chassis, rodas e assentos. A unidade fabrica cerca de 7 motos por dia, mantém mais de 9 mil trabalhadores diretos e produz 20 modelos no Amazonas.
Em fevereiro deste ano, a fábrica alcançou a marca de 32 milhões de motocicletas produzidas em Manaus desde o início da operação, em 1976. A unidade abastece o mercado brasileiro e também exporta para outros países. A fabricante está, ainda, em um ciclo de R$ 1,6 bilhão em investimentos até 2029, que inclui ampliação da capacidade produtiva da planta amazonense para 1,6 milhão de unidades por ano.
Marcelo Ramos reage
A publicação de Doria levou o advogado tributarista e ex-deputado federal pelo Amazonas Marcelo Ramos a entrar na discussão. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ele contestou a forma como a produção de motocicletas em Manaus foi apresentada e acusou o jornalista de reproduzir argumentos marcados, na avaliação dele, por preconceito e desinformação sobre a Zona Franca.
Ramos também questionou diretamente o percentual de 35% usado pelo jornalista e colocou em dúvida por que, diante de uma diferença de custos dessa magnitude, a produção não teria migrado para São Paulo.
“Se São Paulo é capaz de produzir 35% mais barato do que a Zona Franca de Manaus, por que São Paulo não compra as peças da China e fabrica as motos?”.
Na manifestação, o ex-deputado argumentou ainda que tratar a produção realizada na ZFM como algo separado da indústria brasileira cria, segundo ele, uma falsa oposição. Ramos sustentou que as fábricas instaladas em Manaus fazem parte da indústria nacional e lembrou que os incentivos estão amparados pela Constituição.
Incentivos até 2073 também entram na discussão
Doria também direcionou críticas à duração do modelo. A Zona Franca teve seus incentivos prorrogados por mais 50 anos pela Emenda Constitucional nº 83, de 5 de agosto de 2014, levando o prazo até 2073.
Na publicação, o jornalista questionou como essa extensão ocorreu e argumentou que uma decisão de tamanho impacto econômico atravessará décadas sem ter sido submetida diretamente ao eleitorado. Ramos respondeu que a prorrogação passou pelo Congresso Nacional e que, em uma democracia representativa, deputados e senadores exercem justamente essa função em nome dos eleitores.
A discussão terminou, por enquanto, com uma proposta de confronto direto de argumentos. Ramos convidou Doria para discutir publicamente a Zona Franca e deixou ao jornalista a escolha do espaço e das condições.
“Eu quero fazer um debate com você sobre Zona Franca no seu canal e nas suas regras, como você quiser, a hora e o dia que você determinar”.
Até as publicações consultadas nesta segunda-feira (7), não havia sido registrada uma resposta pública de Pedro Doria ao convite.
Resumo redes: Publicação no Instagram do jornalista questiona logística, incentivos fiscais e eficiência do modelo. Advogado e ex-deputado Marcelo Ramos rebate argumentos e propõe debate público sobre a Zona Franca.