Manaus supera Paraguai e outras cidades brasileiras e vai receber fábrica da Navvion
Plano divulgado em julho previa R$ 110 milhões na etapa inicial para a implantação de uma unidade de montagem de sistemas de armazenamento de energia. Segunda etapa pode elevar o investimento total para mais de R$ 1,1 bilhão, com fabricação de células de lítio
Depois de meses avaliando diferentes endereços no Brasil e até fora do país, a norte-americana Navvion definiu Manaus como sede de sua fábrica de sistemas de armazenamento de energia. A decisão encerra uma processo que chegou a envolver o Paraguai e outras localidades brasileiras e coloca a capital amazonense no centro de um projeto que, em divulgações anteriores da própria companhia, foi estimado em mais de R$ 1,1 bilhão (cerca de US$ 220 milhões), caso avance até sua segunda etapa.
A fábrica foi confirmada pela Navvion na última sexta-feira (4), durante o lançamento oficial da empresa no Brasil, realizado na Intersolar 2026, em São Paulo. A estratégia brasileira terá duas frentes: Manaus concentrará a fabricação dos equipamentos, enquanto Cuiabá (MT) receberá uma filial que funcionará como escritório e ponto de relacionamento e negócios, principalmente para atender o agronegócio e a indústria da região.
“A gente entende que o agronegócio e a indústria de Mato Grosso, que está próximo de estados como Goiás, Pará e Rondônia, favorecem essa estratégia. Ter os equipamentos perto do ponto de consumo é muito importante”, disse o presidente da Navvion para a América do Sul, Merivaldo Britto, em material divulgado à imprensa.
A escolha de Manaus resolve uma questão que vinha aberta pelo menos desde junho. Naquele momento, após uma missão técnica à China, a região de Manaus e o Paraguai apareciam como candidatos a receber uma fábrica de células de lítio na América do Sul. O projeto ainda estava em estágio inicial e havia sido antecedido pela assinatura de um memorando de entendimento para estudos e articulações em torno da unidade industrial.
Ao Jornal O POLO, a empresa confirmou que se trata do mesmo projeto e que a fábrica ficará somente em Manaus. A alternativa paraguaia foi descartada. Durante o processo de escolha, porém, a disputa foi mais ampla. Em entrevista ao portal BNamericas, em 17 de julho, Britto disse que a companhia estava percorrendo quatro localidades brasileiras: Camaçari (BA), Mato Grosso, Itajaí (SC) e Manaus, no Amazonas. Naquele momento, a empresa ainda avaliava onde concentraria a operação industrial.
Infraestrutura, segurança jurídica, incentivos, logística, localização estratégica e disponibilidade de mão de obra qualificada seriam os critérios considerados na decisão, segundo a companhia. Os fatores ajudam a explicar o tipo de ambiente industrial que a empresa estava buscando.

Projeto pode começar com R$ 110 milhões
Os números que deram dimensão bilionária ao empreendimento foram apresentados publicamente em julho. Inicialmente, a companhia previa R$ 110 milhões para implantação de uma unidade de montagem de sistemas de armazenamento de energia, com capacidade anual projetada de 1,5 gigawatt-hora (GWh) e geração de aproximadamente 150 empregos diretos.
Essa seria, porém, apenas a primeira parte do plano. Uma segunda etapa, destinada à fabricação das próprias células de lítio, poderia elevar os investimentos para mais de R$ 1,1 bilhão, com cerca de 500 empregos diretos ao longo de cinco anos, conforme as projeções divulgadas à época.
Os valores não foram atualizados pela Navvion após a definição de Manaus. O portal O POLO procurou a empresa para saber se os R$ 110 milhões previstos inicialmente e o potencial de mais de R$ 1,1 bilhão na segunda fase continuam mantidos. A companhia informou que não comentaria os investimentos neste momento. Por isso, os números permanecem como projeções divulgadas anteriormente para o mesmo projeto.
Na primeira fase, a Navvion pretende montar e integrar no Brasil os sistemas de armazenamento. Na etapa seguinte, a ideia é ir além na cadeia industrial e fabricar também a célula, que é a unidade básica da bateria. Várias células são agrupadas em módulos e packs e, depois, integradas com sistemas eletrônicos, controle e segurança para formar soluções maiores de armazenamento.
Na entrevista ao BNamericas, Britto explicou justamente essa mudança de patamar. “Hoje não existe fabricação nacional, existe montagem nacional. O que queremos é fabricar localmente”, ressaltou.

Da China para Manaus
A fábrica também faz parte de uma estratégia da Navvion para reduzir a concentração da cadeia de células de baterias na China. Em julho, Britto afirmou que a companhia trabalha em conjunto com a chinesa Manst Technology, fabricante de células. A própria Manst participou, ao lado da Navvion, de agendas realizadas no Brasil durante as negociações sobre a futura unidade industrial.
A lógica é combinar competências. A célula é produzida a partir de materiais que dão origem ao componente eletroquímico; depois vêm módulos, packs e sistemas completos, acompanhados de eletrônica e softwares de gerenciamento. Segundo Britto, a verticalização permitiria à operação brasileira atender não apenas o mercado nacional, mas também outros países latino-americanos e os Estados Unidos.
O movimento não depende apenas de um cliente ou de um único nicho. A Navvion trabalha com sistemas para residências, comércio, indústria e agronegócio, além dos projetos de grande porte ligados ao setor elétrico. No lançamento brasileiro, a companhia voltou a destacar justamente essa diversidade de mercados.
Site da empresa aponta montagem local entre 2027 e 2028
O cronograma disponível atualmente no próprio site da Navvion mostra que a nacionalização será feita em etapas. A primeira fase é o lançamento comercial; depois, entre 2026 e 2027, vêm estoque, peças de reposição, garantia e suporte de campo no Brasil. A montagem local aparece programada para 2027 a 2028, incluindo definição do local da fábrica, contratação de mão de obra, equipamentos, procedimentos, testes e implantação do sistema de controle da produção. A expansão pela América do Sul aparece no roteiro a partir de 2028 em uma quarta fase.
Leilão de baterias coloca fabricação nacional no centro do mercado
A decisão de fabricar no Brasil ocorre justamente quando o país prepara seus primeiros grandes leilões dedicados ao armazenamento de energia. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê dois certames para 2 e 4 de dezembro de 2026. O primeiro, chamado de Armazenamento Nacional, será exclusivo para sistemas que comprovem a utilização de baterias fabricadas no Brasil. O segundo, de Armazenamento Geral, não terá essa exigência.
Os dois leilões contratarão disponibilidade de potência por meio de Sistemas de Armazenamento de Energia Elétrica (SAEs) com baterias. Na prática, são grandes conjuntos capazes de guardar eletricidade quando há oferta disponível e devolvê-la ao sistema nos momentos em que a rede precisa de potência. Os contratos previstos terão 15 anos, com início de fornecimento em agosto de 2028.
O tamanho do interesse já apareceu antes mesmo das disputas. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) recebeu 6.091 projetos, que juntos somam 296.807 megawatts (MW) de potência cadastrada para os leilões de armazenamento de 2026, um recorde de participação em certames do setor elétrico brasileiro.
Britto já havia relacionado o avanço da Navvion ao novo mercado que começa a se formar no país, mas ponderou que a estratégia vai além do leilão. Segundo ele, a demanda existe também em países com instabilidade ou limitações na distribuição de energia e em atividades como indústria e agronegócio.
“A questão da Navvion vir para o Brasil e para a América do Sul tem lógica com o leilão de baterias, mas o nosso grande desafio é fazer um trabalho diferenciado na América do Sul”, afirmou em julho.

Resumo redes: Plano divulgado em julho previa R$ 110 milhões na etapa inicial para a implantação de uma unidade de montagem de sistemas de armazenamento de energia. Segunda etapa pode elevar o investimento total para mais de R$ 1,1 bilhão, com fabricação de células de lítio.