Novo leilão de gás pode abrir oportunidade para indústrias de Manaus, mas acesso esbarra em infraestrutura
MME definiu que termelétricas ligadas ao Sistema Interligado Nacional não poderão disputar o gás da União. Leilões de curto prazo serão voltados a consumidores industriais
A decisão do Ministério de Minas e Energia (MME) de direcionar os novos leilões de gás natural da União para consumidores industriais pode abrir uma nova frente de discussão para o Polo Industrial de Manaus (PIM).
O Ministério esclareceu, no último dia 31, que usinas termelétricas que geram energia para o Sistema Interligado Nacional (SIN) não poderão participar dos certames. Nos leilões de curto prazo, previstos para o período entre 2026 e 2030, a participação deverá ser aberta aos consumidores industriais livres.
A partir de 2030, os contratos de longo prazo deverão priorizar segmentos da indústria de base, entre eles os setores químico, siderúrgico e petroquímico. Para Manaus, o tamanho do parque industrial coloca o tema no radar.
Entre janeiro e maio de 2026, as empresas do PIM faturaram R$ 99,64 bilhões, equivalente a US$ 19,26 bilhões, e mantiveram uma média mensal de 130.605 empregos, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

O setor de duas rodas liderou a participação no faturamento, com 20,73% do total, seguido por bens de informática, com 20,58%, e eletroeletrônico, com 16,20%.
Segmentos com potencial relevante para utilização de gás em processos industriais também têm peso importante no Polo. O setor químico respondeu por 11,05% do faturamento, o termoplástico por 10,38% e o metalúrgico por 8,67%. Somados, representam 30,1% de todo o faturamento do PIM no acumulado até maio.
Indústria de Manaus já consome gás
O gás natural já ocupa espaço relevante na matriz energética do Amazonas e nos processos produtivos das fábricas instaladas no Polo Industrial de Manaus.
Os dados mais recentes consolidados da Companhia de Gás do Amazonas (Cigás) mostram que o Estado consumiu, em média, 5,7 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia em 2025, crescimento de 5,7% em relação ao ano anterior.
Na indústria, o consumo médio ficou em 190,5 mil m³ por dia. Atualmente, a Cigás atende 79 empresas do Polo Industrial de Manaus, abrangendo segmentos como eletroeletrônico, duas rodas, papel e papelão e químico.
O gás pode ser utilizado pelas indústrias em diferentes etapas da produção, incluindo geração de vapor e eletricidade, aquecimento de fornos e secadores, climatização e outros processos que demandam energia térmica.
Apesar da presença na indústria, a maior parte do gás distribuído no Amazonas ainda é direcionada à geração elétrica. As termelétricas consumiram, em média, 4,8 milhões de m³ por dia em 2025, contra 4,5 milhões de m³/dia no ano anterior, uma expansão de 6,7%. Na prática, as termelétricas responderam por aproximadamente 84% de todo o volume de gás distribuído pela Cigás no Estado.

A dependência também aparece na matriz elétrica amazonense. Em novembro de 2025, o gás natural representava 81,8% das fontes de geração de energia elétrica ligadas ao SIN no Amazonas, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) divulgados pela Cigás.
Amazonas tem uma diferença em relação ao restante do país
Apesar do tamanho do mercado industrial e da produção local de gás natural, o Amazonas possui uma particularidade importante em relação aos grandes centros consumidores do país.
O sistema que abastece Manaus a partir de Urucu (Coari), funciona separado da malha integrada de transporte de gás que conecta principalmente as regiões Nordeste, Sudeste e Sul.
Na prática, isso significa que uma indústria de Manaus participar juridicamente de um leilão de gás da União não necessariamente permite que a molécula adquirida em outra região do país seja transportada fisicamente até o Distrito Industrial.
Mas o isolamento físico não significa necessariamente que as empresas amazonenses estejam fora desse mercado. Uma possibilidade a ser discutida é a utilização de estruturas de swap, ou troca de gás, nas quais o fluxo físico pode ser diferente do fluxo contratual.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) define a troca operacional, conhecida como swap, como um serviço no qual os fluxos físico e contratual do gás diferem total ou parcialmente.
Em uma estrutura comercial, por exemplo, uma indústria de Manaus poderia adquirir economicamente determinado volume de gás da União em outra região e negociar com um agente que disponha de gás no Amazonas a entrega de um volume equivalente localmente. Isso evitaria a necessidade de transportar fisicamente a mesma molécula entre o Sudeste e Manaus.

A possibilidade, entretanto, não está garantida. O swap operacional previsto pela regulamentação da ANP é realizado dentro das instalações de transporte e depende das condições técnicas, contratuais e da oferta do serviço pelo transportador. Como a infraestrutura de Manaus não está conectada à malha integrada nacional, uma operação envolvendo o gás da União e uma entrega equivalente no Amazonas exigiria uma estrutura comercial própria e compatível com as regras dos novos leilões.
A regulamentação e os editais dos certames serão, portanto, determinantes para saber se as indústrias do Polo poderão capturar economicamente os benefícios do gás da União.
Rede de gás também avança em Manaus
A infraestrutura local de distribuição continua em expansão.
Em fevereiro de 2026, a Cigás possuía 367 quilômetros de rede de distribuição, presente em mais de 30 bairros de Manaus, e atendia mais de 28,7 mil unidades consumidoras. Em março, a companhia informou já ter ultrapassado a marca de 29 mil unidades consumidoras.
Para os próximos anos, o plano de negócios da concessionária prevê R$ 286 milhões em investimentos entre 2026 e 2030, com a expansão da rede para 482 quilômetros e a expectativa de superar 52 mil unidades consumidoras.
Urucu ganha importância na discussão
Além dos novos leilões nacionais, a expansão da produção de gás dentro do próprio Amazonas pode ter impacto direto sobre a competitividade energética do Polo Industrial.
Em maio deste ano, a Petrobras anunciou planos de investir cerca de R$ 2,5 bilhões no Polo de Urucu e aumentar em aproximadamente 20% a produção de óleo e gás da região nos próximos cinco anos.

O planejamento prevê a perfuração de 22 novos poços, sendo 17 convencionais e cinco remotos, além da implantação de aproximadamente 40 quilômetros de linhas para conectar as novas operações.
O movimento ocorre ao mesmo tempo em que o governo federal busca ampliar a oferta de gás natural e aumentar a concorrência no mercado brasileiro.
Para Manaus, a discussão passa, portanto, por duas frentes: aumentar a disponibilidade do gás produzido no próprio Amazonas e avaliar de que maneira as indústrias do PIM poderão acessar economicamente os novos volumes colocados à venda pela União.
A pergunta que fica para o Polo Industrial é direta:
As indústrias de Manaus poderão comprar o gás mais competitivo da União e receber, por meio de swap ou uma estrutura comercial equivalente, gás produzido no próprio Amazonas?
Com quase R$ 100 bilhões em faturamento apenas nos cinco primeiros meses de 2026 e mais de 130 mil trabalhadores, qualquer redução relevante no custo de energia pode se transformar em ganho de competitividade para a Zona Franca de Manaus.