Operação da Motorola em Manaus está no nível das mais modernas do mundo, diz CEO da marca no Brasil

Multinacional produz smartphones no PIM por meio de estrutura da Flextronics; Por ano, Manaus e Jaguariúna (SP) fabricam entre 11 e 12 milhões de aparelhos da marca

Linha de produção de smartphones em uma fábrica, com equipamentos modernos e funcionários em atividade
Foto: Divulgação

A Motorola, empresa estadunidense controlada pela chinesa Lenovo, coloca sua operação no Polo Industrial de Manaus (PIM) no mesmo patamar de produtividade das demais unidades da companhia espalhadas pelo mundo.

A avaliação é do presidente da Motorola Brasil, Rodrigo Vidigal, que classificou a estrutura instalada na capital amazonense, gerida pela Flextronics, como “moderníssima” e de “primeiro mundo”.

Em entrevista ao programa É Negócio, da CNN Brasil em parceria com o NeoFeed, o executivo destacou as duas operações da empresa no Brasil, em Manaus e Jaguariúna (SP), ao falar sobre a capacidade da indústria nacional de smartphones.

“Nós temos duas fábricas espetaculares: uma em Jaguariúna e outra em Manaus. Moderníssimas, de primeiro mundo. São fábricas impressionantes do ponto de vista de produtividade e de qualidade. O nosso nível de produtividade é tão alto quanto o de qualquer outra fábrica da Motorola no mundo”, afirmou.

E os números apresentados por Vidigal ajudam a dimensionar o tamanho dessa operação: atualmente, a produção nacional gira em torno de 11 milhões a 12 milhões de smartphones por ano.

O problema, segundo ele, aparece quando os aparelhos deixam a linha de produção e precisam disputar outros mercados. Vidigal afirma que a indústria brasileira reúne estrutura, tecnologia e capacidade para atender outros países, mas perde competitividade por causa da carga tributária.

De acordo com o executivo, os impostos representam aproximadamente 40% do preço dos smartphones no Brasil, dificultando a exportação dos aparelhos produzidos no país.

“Hoje, eu consigo atender o Brasil, mas não consigo exportar, porque o produto brasileiro é muito pouco competitivo para exportação pela carga tributária. A carga tributária inviabiliza a exportação”.
Rodrigo Vidigal, CEO da Motorola no Brasil | Foto: Reprodução/Internet

Para mostrar o tamanho dessa diferença, Vidigal comparou a produção brasileira com os aparelhos enviados da Ásia para outros mercados latino-americanos.

“É mais barato para o consumidor do Chile receber um produto da Motorola que vem da China do que o meu, que estou aqui do lado”, disse.

Na avaliação do presidente da Motorola Brasil, retirar essas barreiras abriria espaço para praticamente dobrar a produção nacional da companhia.

“Se a gente produz hoje mais ou menos 11, 12 milhões, a gente poderia ir para 20 milhões [de unidades]”, projetou. O salto representaria um crescimento de aproximadamente 67% sobre o teto atual.

Esse crescimento permitiria utilizar a capacidade brasileira para abastecer também outros países da América Latina, transformando as operações nacionais em uma plataforma de produção para além do mercado interno.

Enquanto isso, o mercado nacional movimenta, em média, cerca de 35 milhões de smartphones por ano. A Motorola responde por aproximadamente um terço desse volume, segundo Vidigal. Com essa participação, a companhia ocupa, de acordo com o executivo, a segunda colocação isolada no mercado brasileiro, atrás apenas da Samsung.

Contrabando já representa quase 20% do mercado

A carga tributária não é o único problema apontado pelo presidente da Motorola Brasil.

Outro gargalo está no mercado informal de smartphones, que, segundo ele, já representa quase 20% das vendas realizadas no país. E a forma de comercialização desses aparelhos mudou.

Forma de comercialização de celulares contrabandeados mudou, diz CEO da Motorola no Brasil | Foto: Reprodução/Internet

Se antes os produtos contrabandeados estavam associados principalmente ao comércio informal físico, Vidigal afirma que parte desse mercado migrou para grandes plataformas digitais.

“Com os marketplaces, esse camelódromo subiu para a internet, para o e-commerce. Você pode comprar um produto na sua casa, muitas vezes sem saber que é um produto oriundo de contrabando, porque está comprando em uma plataforma que você confia”, explicou.

O executivo defende maior responsabilização das plataformas pela origem dos aparelhos comercializados. Para a Motorola, reduzir o espaço ocupado pelo mercado irregular também teria impacto direto sobre sua produção e suas vendas no Brasil.

“A gente venderia mais uns 10%, 15% a mais”, estimou Vidigal. Isso, segundo ele, significaria “mais emprego, mais geração de impostos, mais P&D (Pesquisa, Desenvolvimento) para o país”.

R$ 3 bilhões em Pesquisa e Desenvolvimento

A Motorola afirma ter investido R$ 3 bilhões em P&D no país ao longo da última década e mantém cerca de 1.200 engenheiros trabalhando na área.

O Brasil abriga ainda um dos quatro centros de inovação da Motorola no mundo, instalado em Jaguariúna (SP). Os outros ficam nos Estados Unidos, Índia e China.

Unidade da Motorola em Jaguariúna | Foto: Divulgação/Motorola

A estrutura ajuda a mostrar que a operação brasileira vai além da montagem de smartphones. O país participa também do desenvolvimento tecnológico da companhia, enquanto as fábricas de Manaus e Jaguariúna concentram a produção nacional.

Esse ecossistema atende a um mercado que está entre os mais importantes da Motorola globalmente. O Brasil é atualmente o terceiro maior mercado da companhia no mundo, atrás apenas de Índia e Estados Unidos.

Em Manaus, a companhia mantém uma rede de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e formação de profissionais na Amazônia Ocidental, principalmente por meio dos recursos de P&D vinculados à Lei de Informática da Zona Franca de Manaus.

Em balanço divulgado pela própria Motorola, no fim de 2023, a empresa informou ter destinado mais de R$ 500 milhões, em cinco anos, a parcerias com universidades e Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) da Amazônia Ocidental. Os projetos começaram em 2018 e já resultaram na implantação de laboratórios, desenvolvimento de pesquisas e capacitação de estudantes.

Parceria com a Ufam

Uma das principais parcerias da Motorola ocorre com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), para a qual já destinou R$ 25 milhões ao Instituto de Computação (IComp), investimento destinado à expansão da estrutura de ensino e pesquisa, incluindo oito novas salas de aula e quatro laboratórios de P&D.

Inauguração de laboratórios no Icomp/Ufam (2023) | Foto: Divulgação/Ufam

As pesquisas desenvolvidas nesse ecossistema alcançam áreas diretamente relacionadas à tecnologia utilizada em dispositivos móveis, como inteligência artificial, testes e desempenho de software, fotografia computacional e detecção de malware em aparelhos Android.

Em abril deste ano, foi iniciada a sétima turma do Web Academy, programa de formação em desenvolvimento Web Full Stack, desenvolvido em parceria com a Flextronics. Em três anos, o projeto já formou mais de 100 profissionais.

O programa trabalha com o desenvolvimento de projetos voltados a problemas reais. Um exemplo que já saiu do Web Academy é o RU Digital, aplicativo utilizado pela comunidade acadêmica da Ufam para acesso ao restaurante universitário.

Em 2025, o Web Academy abriu sua primeira turma a distância para estudantes do interior, alcançando municípios como Benjamin Constant, Tabatinga e Itacoatiara. A primeira turma EaD concluiu a formação em fevereiro deste ano.

E a expansão continua: a oitava turma, anunciada em junho de 2026, abriu 56 vagas, divididas entre formação presencial para moradores de Manaus e EaD síncrono para participantes do interior. O projeto também prevê auxílio financeiro para parte dos selecionados; na turma atual, são 21 bolsas de R$ 1 mil mensais.

Outra frente está na UEA

Em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a multinacional desenvolve o Projeto Demerzel, voltado à aplicação de inteligência artificial em cibersegurança para dispositivos móveis. Iniciadas em julho do ano passado e com término previsto para março de 2027, as atividades são realizadas na Escola Superior de Tecnologia (EST), em Manaus, com financiamento por recursos da Lei de Informática.

Escola Superior de Tecnologia da UEA | Foto: Divulgação/UEA

Os pesquisadores trabalham com Android Security Hacking, estudando Linux, redes e segurança Android, além de pesquisar e explorar vulnerabilidades do sistema em baixo nível. A ideia é utilizar inteligência artificial para desenvolver softwares capazes de identificar e categorizar falhas e ajudar na criação de novas estratégias para mitigar vulnerabilidades em dispositivos móveis.

Participam 10 estudantes pesquisadores de graduação e quatro pesquisadores de pós-graduação, além da equipe técnica e de professores pesquisadores. As linhas de pesquisa incluem cibersegurança, arquitetura de software, banco de dados, coleta e análise de dados e payloads. Os participantes passaram ainda por treinamentos em Python e IA, fundamentos de Linux e redes e metodologia Scrum.

Em junho deste ano, Manaus também recebeu uma nova edição do Moto Academy, executado pelo Instituto de Pesquisas Eldorado em parceria com a Motorola. A iniciativa passou a atender estudantes do Ensino Médio, aproximando os participantes das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Esse ambiente tecnológico está diretamente ligado à importância industrial que Manaus assumiu para a fabricante. A Motorola começou a produzir celulares na capital amazonense em 2017 e, segundo informação divulgada pela própria companhia em 2025, mais da metade dos celulares da marca fabricados no Brasil sai da unidade de Manaus.