Seca ainda nem apertou, mas frete para Manaus já fica mais caro: CMA CGM anuncia sobretaxa de US$ 753
Cobrança começa em setembro para cargas que chegam ou saem de Manaus e pode aumentar se a queda dos rios dificultar ainda mais a passagem dos grandes navios
A fase mais crítica da seca amazônica ainda está por vir, mas o transporte de cargas para Manaus já começou a sentir os efeitos. A CMA CGM, empresa francesa de transporte marítimo e conteinerização, anunciou uma sobretaxa de US$ 753 por TEU para cargas que chegam ou saem da capital amazonense. A cobrança começa em 6 de setembro e vale tanto para importações quanto para exportações.
TEU é a sigla para Twenty-foot Equivalent Unit e representa a unidade usada no transporte marítimo para medir contêineres. Um TEU equivale a um contêiner padrão de 20 pés, com cerca de 6 metros de comprimento.
Ou seja, a nova cobrança será calculada de acordo com a quantidade de contêineres transportados.
A taxa é chamada de Low Water Surcharge (LWS), ou sobretaxa de baixa água, e aparece quando a redução do nível dos rios começa a dificultar a navegação.
Na Amazônia, o problema é relativamente simples de entender: quanto mais o rio baixa, menor fica a profundidade disponível para os grandes navios. Para navegar com segurança, eles podem precisar carregar menos peso e, consequentemente, menos contêineres. É aí que o custo sobe.
E os US$ 753 ainda podem aumentar
A própria CMA CGM deixou essa possibilidade aberta.
Caso a situação dos rios exija o uso de um píer flutuante, estrutura que permite realizar operações de atracação e movimentação de cargas mesmo com as mudanças no nível da água, a empresa poderá rever o valor da sobretaxa.
Nesse cenário, despesas extras com a operação e serviços de outras empresas poderão entrar na conta.
As dificuldades para a navegação são esperadas a partir da semana 40 do ano e podem continuar pelo menos até a semana 52, já no fim de 2026.
Com menos profundidade nos rios, os navios podem ter que operar abaixo de sua capacidade normal. Além de levar menos carga, as empresas podem enfrentar gastos extras com movimentação de contêineres, mudanças nas rotas, deslocamento de embarcações e serviços necessários para conduzir os grandes navios com segurança pelos rios.
Projeção acende alerta para 2026
E existe um motivo para as empresas já estarem se preparando.
Dados divulgados pelo Guia Marítimo apontam que a Capitania dos Portos consultou o Serviço Geológico Brasileiro (SGB) e o Laboratório de Modelagem de Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) sobre o comportamento esperado dos rios.
As projeções indicam que os níveis mínimos podem ficar entre 1,8 e 3 metros abaixo dos registrados em 2025, dependendo do trecho analisado.
Entre Itacoatiara e Manaus, a estimativa preliminar aponta que navios de carga poderão enfrentar uma limitação de aproximadamente 8 metros de calado.
Na prática, o calado indica quanto da embarcação fica abaixo da superfície da água. Se a profundidade disponível diminui, o navio precisa reduzir o peso transportado para não ficar tão “afundado” e conseguir navegar com segurança.
CMA CGM não está sozinha
A Maersk também anunciou uma sobretaxa por causa do baixo nível das águas para cargas com origem ou destino em Manaus.
A cobrança começa em datas diferentes conforme a região de origem ou destino da carga: 1º de setembro para Ásia-Pacífico, Índia, Oriente Médio, África e Europa; 10 de setembro para operações dentro das Américas; e 15 de setembro para a América do Norte.
Para Manaus, o cronograma informado prevê 10 de outubro.
A empresa estima que as maiores dificuldades para navegar na região devem aparecer entre as semanas 43 e 47, com uma nova rodada entre as semanas 48 e 52.
E essa história não começou agora: em 2025, a Hapag-Lloyd também adotou uma sobretaxa para Manaus, naquele momento de US$ 1 mil por TEU. Nas secas de 2023 e 2024, outras restrições levaram empresas de navegação a redirecionar cargas e buscar alternativas para manter o transporte na região.
Quando o rio baixa, a logística do Polo sente
Para Manaus, não é apenas uma questão de navios navegando com mais dificuldade. Boa parte da logística que abastece a cidade e atende a indústria depende dos rios. É por essa rota que chegam cargas e insumos e também por onde parte da produção deixa a região.
Quando os navios precisam carregar menos por causa da seca, transportar cada contêiner fica mais caro. É justamente esse custo adicional que as empresas de navegação tentam compensar com as sobretaxas.
E 2026 ainda guarda uma incerteza importante: até onde os rios vão baixar?
A CMA CGM informou que continuará acompanhando os níveis das águas e poderá comunicar mudanças nas condições da operação. A Maersk também afirmou que suas avaliações serão atualizadas durante a temporada de seca.