Teatro Amazonas se torna patrimônio mundial da Unesco. Monumento nasceu com a borracha, mas foi a Zona Franca de Manaus que ajudou a mantê-lo vivo
Com o título, Teatro Amazonas e Largo de São Sebastião entram em rota global de turismo
Quem passa pelo Largo de São Sebastião, no centro histórico de Manaus, e vê o Teatro Amazonas de pé, imponente e cheio de vida, dificilmente imagina que ele já esteve muito perto de perder o brilho. Hoje, a casa de ópera é um dos maiores cartões-postais do Brasil e acaba de ganhar um reconhecimento histórico: na madrugada desta segunda-feira (27), a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) declarou o Teatro Amazonas (juntamente ao Largo de São Sebastião) e o Theatro da Paz, de Belém, como Patrimônio Mundial da Humanidade, reunidos sob o título de "Teatros da Amazônia".
História
Inaugurado em 1896, durante o auge do Ciclo da Borracha, o Teatro Amazonas nasceu para simbolizar a riqueza de uma Manaus que queria se equiparar às grandes capitais europeias. Paris era a principal inspiração (por isso, passou a ser conhecida como a "Paris dos Trópicos"), mas também havia forte influência de cidades como Lisboa, Milão e Londres, especialmente na arquitetura, no urbanismo e na vida cultural.
Tudo começou porque a borracha amazônica virou um produto valiosíssimo para o mundo após a invenção da vulcanização, em 1839. A demanda explodiu com o crescimento da indústria, principalmente a de pneus, e Manaus se tornou um dos principais centros econômicos da América Latina. O dinheiro da borracha fez a cidade crescer rapidamente e atraiu comerciantes, empresários, artistas e profissionais de várias partes do Brasil e da Europa.
Foi nesse cenário que nasceu o projeto do Teatro Amazonas. Em 1881, o deputado provincial Antônio José Fernandes Júnior apresentou a proposta de construir uma casa de ópera que demonstrasse ao mundo a riqueza e o refinamento de Manaus. A pedra fundamental foi lançada em 1884, mas a obra enfrentou interrupções por problemas financeiros e administrativos. Ela só ganhou novo ritmo durante o governo de Eduardo Ribeiro e foi inaugurada em 31 de dezembro de 1896.

O teatro praticamente "veio da Europa". Mármore de Carrara, na Itália; lustres de vidro de Murano; ferro trabalhado da Inglaterra; telhas francesas e diversos outros materiais foram importados. Arquitetos, escultores, pintores e engenheiros europeus participaram da construção, enquanto artistas como Crispim do Amaral e Domenico de Angelis ficaram responsáveis por boa parte da decoração interna.
Durante o período, que ficou conhecido como Belle Époque amazônica, Manaus recebeu energia elétrica, bondes elétricos, telefone, água encanada, rede de esgoto, ruas largas e arborizadas, praças planejadas e um dos portos flutuantes mais modernos do mundo. Para a época, era uma infraestrutura comparável à de grandes cidades internacionais e colocava Manaus entre as cidades mais avançadas do Brasil.
Além da infraestrutura, a vida cultural também floresceu. Companhias de ópera e teatro vindas da Europa se apresentavam em Manaus, músicos estrangeiros desembarcavam na cidade e a elite acompanhava a moda, os costumes e até a gastronomia francesa. Frequentar o Teatro Amazonas era um símbolo de status social e fazia parte do estilo de vida daquela sociedade enriquecida pela borracha.

Crise
Segundo o artigo de referência Teatro Amazonas, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), assinado por Virginia Barbosa, bibliotecária e especialista em História, o colapso da economia da borracha, provocado principalmente pela concorrência dos seringais implantados pelos ingleses no Sudeste Asiático, a partir de 1912, reduziu drasticamente a participação brasileira na produção mundial de látex e mergulhou Manaus em uma profunda crise econômica e urbana.
"A estagnação da economia da região amazônica foi quase imediata e deixou marcas profundas: queda na receita dos Estados, desemprego, êxodo rural e urbano, sobrados e mansões completamente abandonados e, principalmente, completa falta de expectativas em relação ao futuro para os que insistiram em permanecer na região".
E o Teatro Amazonas não escapou desse processo. Sem dinheiro, o espaço perdeu público, viu sua programação encolher e atravessou décadas de abandono. Em vários momentos do século XX, funcionou apenas de forma esporádica, enquanto sua estrutura se deteriorava.
"Em 1924, fechou. A partir de então, abriu raras vezes ora para pequenos espetáculos ora para eventos cívicos. A falta de dinheiro atingia diversos setores públicos, inclusive a cultura", diz trecho do artigo.

Efeito "Zona Franca"
A virada começou com a consolidação da Zona Franca, instituída pelo Decreto-Lei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967. O modelo transformou Manaus em um polo industrial com incentivos fiscais para atrair empresas de todo o mundo. Nas décadas seguintes, começaram a chegar fabricantes nacionais e multinacionais de diversos setores.
Empresas como Honda, Yamaha, Philips, Sharp, Semp Toshiba, Gradiente, BIC, CCE, entre muitas outras, instalaram fábricas na capital amazonense. Muitas delas impulsionam até hoje a economia do estado, com a geração de empregos e renda, arrecadação de impostos e crescimento urbano.

Essa pujança, segundo a economista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Michely Aracaty, teve reflexos na recuperação do setor cultural do Estado. Para ela, trata-se de um efeito dominó:
"A Zona Franca de Manaus e o crescimento financeiro resultado do Polo Industrial de Manaus contribuíram de forma indireta para a revitalização do Teatro Amazonas, pois impulsionaram a economia regional e elevaram a arrecadação, que são a base do investimento público, com foco no financiamento de projetos culturais e urbanos", disse.
Sem a recuperação econômica proporcionada pela Zona Franca, é difícil imaginar que o Amazonas teria condições financeiras de bancar uma restauração tão complexa e cara, além de manter uma programação artística contínua. Armando Clóvis Souza, economista e especialista em História Regional do Brasil, concorda:
"O Amazonas passou por um esvaziamento econômico entre as décadas de 1920 e 1950. Se essa crise se prolongasse, não saberíamos o que seria hoje do Teatro Amazonas e de outros monumentos públicos. A riqueza da borracha construiu o Teatro. Isso é fato. Mas foi a riqueza gerada pela indústria que ajudou a garantir que ele continuasse existindo".

"Nos anos de 1970, houve uma política do governo de restauro com grandes investimentos. Nos anos de 1990, próximo ao centenário do Teatro, nós tivemos uma revitalização completa com acústica, adornos, pinturas, dentro e também no entorno do monumento. Tudo isso por conta dos investimentos que atraíram um dos maiores fluxos migratórios da história de Manaus, juntamente a uma elite local trazida pela instalação de centenas de fábricas", completa o especialista.
O resultado dessa retomada é visível até hoje, com festivais internacionais, temporadas de ópera, concertos, espetáculos de dança e milhares de turistas todos os anos. Alguns eventos notáveis são:
- Festival Amazonas de Ópera (FAO) – O carro-chefe do teatro e um dos maiores festivais de ópera da América Latina. Reúne montagens completas de óperas, concertos e artistas do Brasil e do exterior.
- Série Encontro das Águas – Talvez seja a programação mais conhecida atualmente. Criada em 2014, mistura música erudita com cultura pop, rock, MPB, trilhas sonoras de filmes, dança e balé.
- Festival Amazonas de Dança (FAD) – Reúne companhias de dança clássica, contemporânea, jazz e dança urbana, tendo o Teatro Amazonas como principal palco.
- Temporada dos Corpos Artísticos do Amazonas – Ao longo do ano, o teatro recebe apresentações permanentes da Amazonas Filarmônica, Orquestra de Câmara do Amazonas, Coral do Amazonas, Corpo de Dança do Amazonas e do Coral Infantil do Amazonas, que executam repertórios de compositores como Beethoven, Mozart, Tchaikovsky e Villa-Lobos, além de produções inéditas.

Além disso, o teatro frequentemente recebe grandes produções de balé, como O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida, O Quebra-Nozes e Giselle, além de concertos especiais dedicados a artistas como Michael Jackson, Madonna, ao rock sinfônico, à MPB e às trilhas de filmes e séries, sempre interpretados pela Amazonas Filarmônica.
Segundo Michele Aracaty, o novo título internacional deve fortalecer a economia criativa, atrair mais visitantes estrangeiros e estimular investimentos privados em atividades ligadas à cultura, ao turismo e aos serviços.

"O impacto na economia criativa será significativo para a geração de emprego, renda e reconhecimento cultural. Além disso, facilitará parcerias e o acesso a fundos nacionais e internacionais para preservação e projetos artísticos. No setor de turismo, haverá uma visibilidade destacada em toda a cadeia, fortalecendo Manaus como um destino global de turismo cultural".
Ela acrescenta:
"Isso aumentará o fluxo de turistas estrangeiros e nacionais, a ocupação em hotéis, restaurantes, o trabalho de guias, além das atividades comerciais e de serviços, beneficiando a economia regional. Por fim, além de ser um destino de turismo ecológico, agora, com este reconhecimento, também nos tornaremos uma rota internacional do turismo cultural".