Esta máquina custa quase US$ 400 milhões e ajuda a fabricar os chips que chegam ao Polo Industrial de Manaus

Equipamento da holandesa ASML usa luz ultravioleta extrema para desenhar circuitos em escala nanométrica. TSMC está entre as fabricantes que utilizam essa tecnologia para produzir semicondutores. Circuitos integrados são um dos principais insumos importados por Manaus

Esta máquina custa quase US$ 400 milhões e ajuda a fabricar os chips que chegam ao Polo Industrial de Manaus
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Ela pesa dezenas de toneladas, ocupa quase o espaço de um ônibus e custa perto de US$ 400 milhões, mais de R$ 2 bilhões por unidade. A máquina High-NA EUV, fabricada pela holandesa ASML, dificilmente algum dia será instalada no Distrito Industrial de Manaus. Mas os componentes que uma tecnologia desse nível ajuda a colocar no mercado chegam ao Polo praticamente todos os dias.

Circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos estão entre os principais itens comprados no exterior pela indústria amazonense. Entre janeiro e agosto de 2025, foram cerca de US$ 1,83 bilhão importados por Manaus, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas (Sedecti) com base no Comex Stat. São chips que depois entram em celulares, televisores, computadores, equipamentos de telecomunicações e uma série de outros produtos montados no Polo Industrial de Manaus (PIM).

Antes de chegar aqui, porém, um chip pode atravessar uma cadeia que envolve empresas e fábricas espalhadas por vários países. A ASML está em uma das etapas mais sofisticadas desse processo. Suas máquinas de litografia projetam sobre discos de silício os desenhos que, depois de sucessivas etapas industriais, dão origem aos circuitos microscópicos dos semicondutores. A companhia holandesa é hoje a única capaz de fornecer comercialmente equipamentos EUV, tecnologia usada na fabricação dos chips mais avançados.

A complexidade ajuda a explicar o preço. Nas máquinas EUV, minúsculas gotas de estanho são atingidas por pulsos de laser milhares de vezes por segundo para produzir a radiação necessária à fabricação dos circuitos. A geração High-NA leva esse processo ainda mais longe e permite trabalhar com estruturas menores e maior densidade de transistores. Os equipamentos mais novos chegam perto de US$ 400 milhões cada, quase o dobro de uma máquina EUV convencional.

De Taiwan para Manaus

Entre os grandes clientes da ASML, está a TSMC, de Taiwan, maior fabricante independente de semicondutores do mundo. A empresa produz chips desenhados por outras companhias e, somente em 2025, fabricou 12.682 produtos diferentes para 534 clientes, destinados a mercados como smartphones, automóveis, computação de alto desempenho e eletrônicos de consumo.

Depois de sair da fábrica, o semicondutor ainda pode passar por etapas de corte, encapsulamento, testes e montagem em módulos ou placas antes de seguir para o destino final. É nesse percurso que Manaus entra. O componente pode desembarcar diretamente no Amazonas ou chegar depois de passar por outros centros industriais da Ásia, onde é incorporado a placas e conjuntos eletrônicos.

O volume movimentado dá uma ideia da dependência dessa cadeia. Além dos US$ 1,83 bilhão registrados entre janeiro e agosto de 2025, Manaus importou US$ 273,7 milhões em circuitos integrados em janeiro deste ano e outros US$ 311,6 milhões em fevereiro. No primeiro semestre de 2026, o PIM faturou R$ 121,76 bilhões, com bens de informática respondendo por 22% do total e o setor eletroeletrônico por 15,9%.

Esses chips aparecem em produtos bem diferentes entre si. Um celular pode carregar processador, memória, modem e controladores de energia; uma motocicleta moderna utiliza semicondutores em sistemas de injeção, ABS, sensores e painéis digitais; televisores também dependem deles para processamento de imagem, memória e conectividade.

Isso não significa, porém, que todo chip utilizado pelo Polo tenha sido produzido em uma máquina High-NA de US$ 400 milhões. Grande parte dos semicondutores presentes em motocicletas, televisores, eletrodomésticos e equipamentos industriais ainda usa processos mais maduros, fabricados principalmente com máquinas DUV, de uma geração anterior. A EUV está concentrada sobretudo nos chips mais avançados, como processadores de smartphones, CPUs, GPUs e aceleradores de inteligência artificial.

A nova High-NA ainda está começando a entrar na produção em escala. A TSMC vinha adotando uma postura cautelosa diante do preço da tecnologia, enquanto a Intel saiu na frente: em julho de 2026, anunciou com a ASML que já utilizava High-NA em camadas de produtos do processo Intel 18A.

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Uma máquina no centro da disputa entre China e Ocidente

O domínio da ASML transformou a litografia em assunto geopolítico. Estados Unidos e Holanda restringiram a venda das tecnologias mais avançadas para a China, que atualmente não consegue comprar equipamentos EUV da fabricante europeia.

Pequim tenta reduzir essa dependência. Em 2026, a estatal Shanghai Aishengna Electronic Technology Group iniciou esforços para produzir em escala máquinas chinesas de litografia DUV por imersão. A expectativa reportada é fabricar cerca de cinco unidades neste ano e 20 em 2027. Para comparação, a ASML entregou 131 equipamentos dessa categoria apenas em 2025.

Ainda existe uma distância grande entre os equipamentos chineses e os da empresa holandesa em produtividade, precisão e confiabilidade. E a tecnologia em desenvolvimento na China ainda está abaixo da EUV, muito menos da nova High-NA. Mesmo assim, o surgimento de um concorrente começa a mexer em um mercado que por décadas teve pouquíssimas alternativas.

Para Manaus, essa disputa não é apenas uma curiosidade tecnológica. O Polo não fabrica em escala relevante os wafers avançados usados nos principais processadores, mas depende de uma oferta constante de semicondutores produzidos no exterior. Mais fornecedores, maior capacidade mundial e menos gargalos podem ampliar a competição nessa cadeia, embora o preço da máquina de litografia seja apenas uma parte do custo final de um chip.

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Resumo redes: Equipamento da holandesa ASML usa luz ultravioleta extrema para desenhar circuitos em escala nanométrica. TSMC está entre as fabricantes que utilizam essa tecnologia para produzir semicondutores. Circuitos integrados são um dos principais insumos importados por Manaus. China começa a fabricar máquinas próprias, mas ainda está distante da geração mais avançada.