Manaus poderá fabricar baterias Blade para caminhões elétricos da BYD. Chinesa vai lançar cavalo mecânico de 60 toneladas no Brasil
Fábrica no PIM passa por transformação para produzir baterias Blade e poderá abastecer os caminhões da marca no futuro
A BYD está prestes a entrar em uma categoria bem maior no mercado brasileiro: a de caminhões elétricos pesados. A montadora prepara para o país um cavalo mecânico elétrico de 60 toneladas de Peso Bruto Total (PBT) e, mesmo com o veículo chegando inicialmente importado, Manaus já aparece na estratégia para os próximos passos do projeto.
A ligação está justamente em um dos componentes mais importantes (e caros) em um caminhão elétrico: a bateria.
A fábrica de baterias da BYD em Manaus passa por uma transformação para acompanhar a adoção da tecnologia Blade, que já equipa os novos ônibus elétricos da fabricante, produzidos em Campinas (SP). A intenção da companhia é que essa estrutura possa, no futuro, produzir também baterias destinadas aos caminhões.
Importante lembrar que a fábrica da BYD no Polo Industrial amazonense é a favorita para receber um investimento por parte da multinacional no valor de R$ 500 milhões, focando em ampliar a produção de baterias no país.
“O coração vai ser brasileiro”, afirmou Bruno Paiva, diretor de vendas de caminhões e chassis de ônibus da BYD, ao falar sobre a possibilidade de nacionalização”.
Antes disso, porém, o novo pesado precisa chegar ao mercado. As informações contam em reportagem da Agência Transporte Moderno.
São 60 toneladas e uma estreia prevista para 2026
O primeiro passo da BYD entre os caminhões elétricos pesados no Brasil será um cavalo mecânico com PBT de 60 toneladas.
A empresa trabalha para apresentar o veículo na Fenatran 2026, que acontece em novembro, em São Paulo. A presença na feira ainda não está confirmada, mas a intenção é fazer o lançamento ainda neste ano, mesmo que o cronograma não permita levá-lo ao evento.
A novidade coloca a estratégia da BYD em uma nova etapa.
Em abril, a fabricante ainda realizava testes com cerca de dez cavalos mecânicos elétricos 6x2 em sua operação na Bahia. Naquele momento, os veículos estavam em processo de validação. Agora, o movimento é preparar um produto para disputar efetivamente o mercado brasileiro.
“Quase metade do mercado é veículo pesado. Se você quiser estar no mercado de caminhão, precisa estar no mercado de veículo pesado”, disse Paiva.
Até aqui, a BYD vinha atuando no país principalmente com caminhões leves e médios, entre eles T35, T75, T18 e T23. Na China, a fabricante já possui uma gama bem maior, inclusive com veículos destinados a diferentes aplicações.
No Brasil, a expansão será feita aos poucos. “Estou focado no cavalo mecânico”, resumiu o executivo.
O primeiro destino não será qualquer estrada
Um caminhão elétrico de 60 toneladas traz uma questão inevitável: onde carregar tudo isso? Por esse motivo, a BYD não pretende começar colocando o modelo em operações de longa distância espalhadas pelo país. Portos e trajetos curtos e previsíveis serão o primeiro alvo.
A estratégia é trabalhar com rotas em que seja possível saber previamente quantos quilômetros serão percorridos, onde o caminhão vai parar e, principalmente, onde os carregadores poderão ser instalados.
Paiva cita como exemplo operações entre a região de São Paulo e áreas portuárias, com o veículo retornando posteriormente à sua origem.
Em vez de depender imediatamente de uma ampla rede pública de carregamento, a BYD poderá montar a infraestrutura em pontos determinados e desenvolver cada operação junto ao cliente.
É uma forma de driblar, pelo menos inicialmente, uma das maiores barreiras à eletrificação dos caminhões pesados no Brasil. Mineração e agronegócio, portanto, não são a prioridade nesse primeiro momento.
E onde Manaus entra? Na bateria
Embora o caminhão completo seja importado inicialmente, a BYD já olha para componentes que poderão ser nacionalizados. É aí que a fábrica de Manaus ganha espaço.
A unidade manauara está sendo preparada para uma nova geração de baterias. A mudança inclui nova linha de montagem e novos equipamentos, já que a estrutura existente havia sido projetada para conjuntos anteriores aos da tecnologia Blade.
A Blade utiliza células de fosfato de ferro-lítio (LFP) em formato alongado e permite aproveitar melhor o espaço dentro do conjunto de baterias.
Nos ônibus elétricos, essa transição já aconteceu. Segundo Paiva, todo o portfólio de ônibus da BYD foi atualizado no ano passado para utilizar a tecnologia.
Agora, a possibilidade é levar essa mesma capacidade industrial aos caminhões.
Isso não significa, neste momento, que o cavalo mecânico de 60 toneladas que chegará ao Brasil terá necessariamente uma bateria fabricada em Manaus. O que a BYD sinaliza é que a fábrica poderá atender os caminhões no futuro, conforme a operação brasileira se desenvolva.
Motivo é estratégico
A BYD ainda não definiu uma fábrica brasileira para produzir caminhões completos.
A estratégia inicial será importar o veículo, testar sua aceitação e observar a escala que o mercado consegue atingir. A partir daí, a empresa poderá aumentar gradualmente o conteúdo produzido no país.
Ter a bateria feita em Manaus pode ser um dos primeiros passos.
A nacionalização é especialmente importante quando entra outro ponto decisivo para o setor de transportes: financiamento.
Paiva citou o Finame, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e linhas como o Fundo Clima entre as possibilidades consideradas pela companhia. Determinadas modalidades exigem níveis mínimos de conteúdo nacional, e o executivo mencionou 60% de nacionalização como uma referência.
A empresa já discute alternativas com instituições financeiras e, segundo Paiva, tinha uma reunião prevista com a Caixa Econômica Federal para tratar das possibilidades de financiamento.
A cadeia nacional também pode crescer por meio de fornecedores que já trabalham com a BYD. O executivo citou Bosch e ZF, empresas que possuem produção no Brasil e fornecem componentes para os ônibus da fabricante.
Uma fábrica brasileira de caminhões não está descartada. Só não há decisão tomada. Primeiro, a BYD quer descobrir o tamanho que esse mercado pode alcançar.
Mais energia sem carregar bateria demais
A tecnologia da bateria ganha ainda mais peso, literalmente, quando se fala de um caminhão desse porte.
Quanto maior o conjunto necessário para garantir autonomia, maior também a massa adicionada ao veículo. E peso gasto com bateria pode interferir na eficiência da operação e na capacidade destinada à carga.
É justamente nesse ponto que a BYD aposta na Blade.
“Com menos bateria a gente tem mais capacidade energética”, comentou Paiva.
Segundo o executivo, os antigos conjuntos utilizados nos ônibus eram maiores e mais pesados. A mudança de arquitetura permitiu reduzir peso e melhorar o aproveitamento energético.
A recarga também entra nessa conta. Paiva usa os ônibus da empresa como referência e cita capacidade de carregamento de até 360 kW, enquanto aponta 180 kW em algumas soluções concorrentes.
Para um caminhão, reduzir o tempo conectado ao carregador significa também colocá-lo mais rapidamente de volta à operação.
Mas não adianta ter bateria se faltar assistência
A BYD ainda terá outro obstáculo para convencer empresas acostumadas há décadas com fabricantes tradicionais.
“Pós-venda é que vende caminhão”.
A companhia já anunciou uma primeira estrutura para atendimento de caminhões e ônibus pesados em São Paulo, mas reconhece que precisará ampliar essa rede se quiser ganhar escala.
A necessidade é ainda maior no transporte rodoviário. Diferentemente de um ônibus urbano, que normalmente circula dentro de uma área definida, um caminhão pode atravessar Estados e estar a milhares de quilômetros de sua base quando precisar de assistência.
“Se você quiser trabalhar com caminhão no Brasil em grande volume, tem que atender o território nacional”.
A estratégia da BYD será começar em operações mais controladas, colocar os caminhões para trabalhar e usar os resultados obtidos pelos próprios clientes para construir confiança na tecnologia.
O cavalo mecânico de 60 toneladas será o primeiro grande teste dessa nova fase.